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Bob Dylan e Renato Russo: aproximações

Alguns textos que começei a escrever acabaram abandonados na construção do meu livro Canção, Estética e Política: ensaios legionários. É o caso deste que tenta uma aproximação entre Bob Dylan e Renato Russo. Das coisas que não entraram, constava também uma pequena história do rock, que mais serviu para mim do que para o público. Este é um caso, talvez… Vai o texto escrito em 2006.

 

Bob Dylan não era simplesmente um poeta beat que cantava, ele trazia um novo caminho para a poesia, como percebeu Allen Guinsberg: “A poesia no seu sentido tradicional acabou. Ninguém se senta mais numa poltrona de sala-de-estar para ler. O rock é a nova poesia, com os Beatles de I am a Walrus e as letras de Bob Dylan. É um retorno à poesia dos velhos menestréis”.[1] Depois de Dylan diversos poetas tentaram trilhar o caminho da canção, como o próprio Allen Guinsberg, mais tarde Leonard Cohen, entre outros.

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Bob Dylan

Renato Russo não hesitava em apontar Bob Dylan como o seu compositor favorito e não escondia o fato de se espelhar nele: dizia que pretendia ter uma banda de rock com o som do Duran Duran e com letras como as do bardo fanho americano.

A influência de Dylan sobre Renato começa talvez pela criação de nomes artísticos inspirando-se em referências pessoais ( enquanto Bob escolhe o Dylan de seu nome em homenagem ao poeta Dylan Thomas, Russo homenageia Jean-Jacques Rousseau, Henry Rousseau e Bertrand Russel ) e, a partir disso, a licença poética para construir um “outro” passado: enquanto o cantor americano inventava diversas histórias sobre sua origem, Renato romanceava diversas histórias de seu passado em Brasília e sua personagem era no início da carreira dois anos mais nova que Renato Manfredini Jr.

O culto messiânico-profético que tanto irritou Bob Dylan também marcou a trajetória da Legião Urbana muitas vezes chamada por isso de “Religião” Urbana. Numa entrevista de Janeiro de 1992 para Alex Antunes da Renato Russo e Dado Villa-Lobos comentaram o assunto:

“ ALEX ANTUNES:A Legião foi considerada porta-voz de uma geração…

DADO – Tem uma dose de mitificação nisso.

RUSSO – Aquela coisa do Herbert (Viana) dizer que a Legião não é música… A gente é o que?!

DADO – …é religião…

RUSSO – No momento em que a gente não é tratada como igual nem por nossos pares, eu me sinto colocado contra a parede. Legião nem é tão bom nem tão especial. Claro que tem coisas bacanas, mas também tem muita coisa que não presta… Só que tem uma certa empatia. Como eu faço as letras sempre em primeira pessoa, há uma identidade, paradoxal, entre a música e o ouvinte… “Poxa, esse cara tá falando da minha vida!”

Já teve um cara que até quis me bater! Eu estava andando no Shopping da Gávea, chega esse cara e diz: “Você não tinha o direito de escrever Ainda é Cedo sobre a minha história, de ficar espalhando isso para as pessoas! Como é que você sabia de tudo?”, e me olhando, com aquela cara de psicótico… pô, cara, eu estava falando de mim! Eu sempre gostei de Bob Dylan, desse tipo de compositor que mesmo quando está falando do social, do que quer que seja, passa isso por um prisma psicológico-afetivo-emocional-íntimo, sei lá… Mas qual era a pergunta mesmo (risos)? ”[2]

O “caminho” aprendido com Bob Dylan de tentar fazer a ligação entre as pessoas e o que estava acontecendo no mundo por essa via poética era para Renato Russo a maior contribuição do rock brasileiro para o país, o jovem percebia que “de repente, tem um conjunto que fala aquilo que você sente e é o mesmo que as pessoas sentem. E descobre que não está mais sozinho.”[3] Quando perguntado sobre as limitações do rock e se ele estava cansado do estilo Renato Russo respondeu que “ Não. O que a Legião Urbana tenta fazer é provar que os anos 80, no Brasil, você ainda pode tentar seguir o caminho que eu aprendi com o Dylan e os Stones e quem quer que seja. Que gente possa ser a trilha sonora verdadeira, factual, para quando tiver o programa sobre ecologia eu não precise ir lá debater ecologia. Basta colocar as crianças cantando a nossa música, eu acho que se a gente conseguiu fazer isso já é uma coisa muito importante.”[4]

O engajamento da Legião Urbana estava em sua própria música, como já afirmavam os Rolling Stones na letra de Street Fight Man onde apoiavam (e se distanciavam) dos protestos de Maio de 1968:

“Everywhere I hear the sound

Of marching charging feet, boy

Cause summer’s here, and the time is right

For fighting in the street, boy

 

But what can a poor boy do

Except to sing for a rock and roll band

‘Cause in sleepy London town

There’s just no place for a street fighting man!

No! “[5]
Em verdade, a postura folk foi vivida por Renato Russo de forma mais intensa em 1982, quando sua primeira banda punk terminou, o Aborto Elétrico, e ele passou a enfrentar o palco sozinho, com o seu violão acústico. Então, o cantor se auto-intitulou “O Trovador Solitário” e passou a se apresentar abrindo os shows das bandas do pessoal da Turma da colina.

As comparações e a inspiração em Bob Dylan eram explícitas, no entanto, Russo já acenava com um vasto repertório de músicas próprias que tenderiam a ter as letras cada vez mais elaboradas. Ausente a barulheira das guitarras eram através do cuidado com as palavras que ele poderia prender o ouvinte.

Na época de Trovador Solitário, a busca da alquimia entre canções de fácil assimilação, necessárias no jogo da indústria cultural, misturadas com referências sofisticadas e crítica social tornou-se o objetivo de Renato Russo. Esse tempo representou o parêntese necessário entre a agressividade punk e a abertura para o rock pop, caminho depois trilhado pela Legião Urbana.  Assim como Bob Dylan precisou se libertar de Woody Guthrie, Renato Russo precisava se “libertar” de Dylan.

O caminho dessa “libertação” certamente passa pela imitação. Talvez por isso Renato Russo criticou o Nenhum de Nós por fazer sucesso com uma versão de David Bowie (Astronauta de Mármore, uma versão de Starman)[6]. Justificou dizendo que tinha feito isso na juventude, mas que agora tentava fazer o próprio caminho. Esses “erros da juventude” podem estar na busca por compor algo como Bob Dylan: se compararmos a letra de Master of War e With God on Our Side de Bob Dylan com a Canção do Senhor da Guerra da Legião podemos perceber semelhanças que transcendem a temática.  Essa letra de Renato Russo é bem pobre perto das de Dylan, talvez por isso tenha sido colocada como uma canção a mais dentro de um álbum ao vivo (Música para Acampamentos).

 

Por exemplo, em With God on your side Dylan questiona a ideia de que Deus estaria do lado dos americanos em suas guerras vencidas, assim como também esteve do lado dos nazistas quando permitiu aos alemães matarem milhões de judeus na Segunda Guerra Mundial. O questionamento explode “teologicamente” nos versos:

“In a many dark hour I’ve been thinkin’ about this

That Jesus Christ was betrayed by a kiss

But I can’t think for you, you’ll have to decide

Whether Judas Iscariot had God on his side[7]

 

Dylan, no contexto da guerra do Vietnã, fecha a letra da canção deixando no ar a questão: “Se Deus está do nosso lado, irá parar essa Guerra”.

No álbum ¿As Quatro Estações Vivo? Podemos ouvir Renato Russo gritando várias vezes que “nenhuma guerra pode ser santa”. Em Canção do Senhor da Guerra Russo combina a ideia de que existem pessoas (idosas) que inventam jogos de guerra e mandam gente jovem pra morrer em seu lugar (algo presente em Master of War de Dylan[8] ) e que também “traduz” a reflexão de Dylan em Whit God On Our Side nos versos:

“Veja que uniforme lindo fizemos pra você

E lembre-se sempre que Deus está

Do lado de quem vai vencer”

 

Talvez seja por isso que Renato ao criticar o Nenhum de Nós tenha admitido uma mea culpa: eu já fiz isso, mas… Se em canção do senhor da guerra a influência era muito explícita, isso não significa que posteriormente tenha deixado de ser uma referência fundamental para as letras da Legião, como é inevitável para qualquer um que se aprofunda na história do rock.

Notas:

[1] Em verdade, a poesia de Bob Dylan influencia mesmo os Beatles, assim como o som dos Beatles levou Dylan a “eletrificar-se” e inventar o folk rock.

[2] Entrevista a Alex Antunes, Bizz, edição 78, Janeiro de 1992. Época do lançamento do disco V.  Fonte http://rockworld1809.blogspot.com.br/2014/03/entrevista-alex-antunes-bizz-edicao-78.html Janeiro de 2005.

[3] Conversações com Renato Russo. Campo Grande (MS): Letra Livre. Pág. 58.

[4] Conversações com Renato Russo. Campo Grande (MS): Letra Livre. Pág.73.

[5] Esse trecho da letra de Street Fight Man (Lutador de Rua ) diz algo como: “Em todos os lugares  posso ouvir o som / De pés marchando, rapaz / Pois o verão chegou e a hora é essa/ Para lutar nas ruas, rapaz // Mas o quê que um pobre rapaz pode fazer / A não ser cantar em uma banda de rock/ Porque na cidade sonolenta de Londres/ Não há lugar para um lutador nas ruas! /Não!”

[6] Depois, por telefone e no mesmo Jornal em que dera a entrevista Renato Russo se desculpou com o pessoal do Nenhum de Nós.

[7] Esses versos traduzidos soariam mais ou menos assim: “Em algumas horas de trevas ando pensando sobre isso/ Que Jesus Cristo foi traído por um beijo/ Mas não posso pensar por você, é você que precisa decidir /Se Judas Iscariot tinha Deus do seu lado”. O questionamento teológico de Dylan ganha outros ares em L´Age d´or do disco V da Legião Urbana que traduz o verso “Jesus foi traído com um beijo” e complementa com outra referência bíblica “Davi tinha um grande amigo/ e não sei mais se é só questão de sorte”.

[8] Em Master of War Dylan diz entre outras coisas sobre os senhores da Guerra: “You fasten the triggers/For the others to fire/Then you set back and watch/When the death count gets higher /You hide in your mansion /While the young people’s blood/ Flows out of their bodies/And is buried in the mud”, que se traduz aproximadamente como: “Vocês aprontam os gatilhos/ Para os outros atirar/ Então vocês se afastam e assistem/ Enquanto a contagem dos mortos aumenta /Vocês se escondem em suas mansões / Enquanto o sangue dos jovens / Escorre pelos seus corpos /E são enterrados na lama”

Marcos Carvalho Lopes

  • Denilton

    Faroeste Caboclo sempre me lembra Hurricane.

    • Marcos

      verdade… não falei dessa semelhança porque no livro há um ensaio específico sobre Faroeste. O RR falou que Faroeste era sua Hurricane (misturando também Domingo no parque com Raul Seixas)…