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Dançar como se fosse a última vez: a dança – tempo de Marilena Ansaldi (texto de Handré Garcia)

Texto de Handré Garcia*

Há muito tempo tinha vontade de escrever sobre a dança de Marilena Ansaldi. Figurinha pouco conhecida no atual métier da dança carioca, Marilena faz parte de um grupo seleto de artistas que milita por uma dança sem muitos maneirismos e que retrate a modernidade de São Paulo. Mas, deixemos as referências históricas (também importantes) pois o que nos interessa é a dança – tempo, interpretada no clipe da música “Te amo”, de Vanessa da Mata. Chamo assim a performance da bailarina porque foi essa a primeira impressão que tive ao ver o clipe numa rede social. Num misto de  movimento de pêndulo e dos ponteiros do relógios, ou o balanço de um carimbo tatuando a folha branca de papel, assim me sinto tomado por essa dança tão singela e plena.

Numa arte como a dança, que exige e exalta a existência de um corpo jovial e vigoroso, ver uma artista tão completa como Marilena Ansaldi envolta por gestos carregados de emoção. A estética etérea abre espaço para uma dança terrestre; dança-chão, poeira. A caixa preta que a acolhe os movimentos da bailarina parece, ao mesmo tempo, representar o interior de um coração apaixonado, que permite reescrever-se após sucessivos fracassos amorosos. Amor: o limiar entre o sucesso e o fracasso.

O corpo tomado por gestos minimalistas, seus olhos que bailam em tremor e a boca que tenta pronunciar o impronunciável são caracterísiticas que lembram muito a dança catástrofe do dançarino japonês Min Tanaka, em  clinique à la Borde, de Félix Guattari. Decerto, o amor traz muito de catastrófico quando toma o indivíduo com sua força considerada  irracional e inexplicável. A boca que treme: a explicação do inexplicável.

A aparição de Marilena sobre um pino de luz (delicadamente dirigida pelo ator Wagner Moura) expressa a força do sentimento que invade o coração mais endurecido, reterritorializando afetos e impulsionando a vida através do desejo. O vestido longo, coberto por uma fina capa de organza (do figurinista Ronaldo Fraga), completa a leveza que a bailarina busca em sua interpretação. Ao retirar essa capa, a libertação de uma casca e a renovação da pele. Pele exposta, vibrante, viva. Capa que se transforma em máscara, desvelando um sentimento e  (re)construindo de um corpo-desejo.

Como uma lente de aumento, meus olhos focam suas mãos que buscam o indizível que seus lábios trêmulos não conseguem pronunciar. A agonia das mãos que sinalizam a catástrofe, diz muito na dança-tempo de Marilena. Mãos marcadas pelo tempo cronológico, que gritam a loucura do homem contemporâneo diante de suas crises. A beleza escondida na loucura.

O colorido metalizado das telas de Klimt, é refletida no peso da dança da bailarina que denuncia uma estética para além do vigor e da virtuose. É uma virtuose  que se apresenta de uma outra forma; para além de estensões e da predominância técnica. O peso é a marca, o carimbo do tempo presente em sua dança, evidenciada por paradas e retornos. A trajetória artística de Marilena Ansaldi é feita de despedidas e reestreias. Suspensão e queda! Movimento e pausa!

A poeira da cena como um resquícios da ruína de um coração que viveu uma vida plena de explosões afetivas. Coração que sorriu, que sofreu, que esperou. Numa tímida mirada derridariana,  me deparo com a desconstrução e reconstrução do amor que vivemos a cada estágio de enamoramento e decepção amorosa. Coração buraco negro da subjetividade. Rosto que escava o buraco negro da subjetividade como consciência e compaixão. Observando o espaço cênico construído para o clipe, não há como não se referir ao conceito de rostidade de Deleuze e Guattari, onde o muro branco assume a função de um quadro negro para a reinscrição de um sentimento.

Assistir aos 3 minutos e 38 segundo da dança de Marilena é ser conduzido nessa coreografia (no sentido literal da palavra). Corpo que escrevem, reescrevem e inscrevem. É ser tomado pelo corpo-desejo da bailarina, como num estado de suspensão do real, e reinscrever amores; coreografar amores. Um corpo que pesa com o pincel banhado em tinta óleo que percorre a tela branca. Coreografia de vida! Como diz a artista, é dançar como se fosse a última vez. Obra prima, pintada por um touro bravo. Assim é o amor e sua dança que decalca a pele dos indivíduos e deixa lastros de memória que são acionados sempre que somos afetados por esse sentimento.

 

*Handré Garcia é mestre em Literatura, cultura e contemporaniedade pela PUC-RJ.

Marcos Carvalho Lopes