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“Filosofia” de Noel Rosa

Marcos Carvalho Lopes

Noel Rosa era chamado de “filósofo do samba”. Essa qualificação brinca com o significado da filosofia no Brasil, da canção popular em nossa cultura e da “ociosa” malandragem do compositor. Se a palavra “filosofia” etimologicamente significa “amor à sabedoria” é certo que o tipo de saber que Noel cultivava com seu samba não é o mesmo que teria valor dentro das Academias. O que poderia significar chamar Noel Rosa de “filósofo do samba”? É comum que se sublinhe a distância entre o sentido da atividade filosófica praticada na direção da ciência, investigando os fundamentos do conhecimento, da ética, da política, da estélp-noel-rosa-13762-MLB3278517079_102012-Ftica etc.; do uso vulgar e trivial da palavra filosofia, como quando um técnico de futebol fala em “filosofia de jogo”, ou uma empresa fala de sua “filosofia de trabalho” etc. Mas, desta forma, ao preservar a distancia entre o uso técnico da palavra “filosofia” e seu uso na linguagem ordinária, como se tratasse de uma separação radical entre realidade e aparência, a atividade filosófica não perde sua vinculação com o cotidiano? Talvez seja em parte por conta dessa distância que quando alguém diz que o outro está “filosofando” geralmente faz isso com um sentido pejorativo, como se estivesse fugindo da tentativa de solucionar um problema direcionando-se  para abstrações sem valor prático. Aliás, é um clichê ouvir quem tenta explicar “o que é Filosofia” afirmar que esta não “serve para nada” e que nesta inutilidade mesma reside seu valor. Não é este o caminho que vou tomar.

É claro que é preciso diferenciar o significado de um termo de acordo com seu contexto, assim, muito daquilo que é visto como um uso errado pode ser compreendido com uma dose maior de caridade interpretativa. Neste trabalho proponho a tentativa de entender o que seria a “filosofia do samba” de Noel Rosa analisando sua canção “Filosofia”. A decisão de “levar a sério” o que poderia significar o termo filosofia neste contexto já indica que a concepção que tenho da atividade filosófica se aproxima de uma crítica cultural mais do que de uma procura de fundamentos atemporais e livres de qualquer contexto. Vou me valer da descrição propositadamente radical e reducionista – seguindo uma das formulações retóricas de Richard Rorty (1999) – que distingue duas visões da “filosofia”: uma de orientação platônica que se escreve com letras maiúsculas e se orienta para o imutável a outra – que se escreve em minúsculas – se volta para uma valorização da contingência e procura realizar a tarefa hegeliana de traduzir seu tempo em pensamento.

 

Noel Rosa compôs a canção “Filosofia” em 1933. Mas ela só alcançou sucesso quando foi regravada por Chico Buarque em seu álbum Sinal Fechado de 1974. Na época Chico tinha suas composições sumariamente censuradas pela Ditadura, por isso, além de assinar suas composições com outros nomes gravou um disco com composições de outros autores. Por meio deste expediente driblou a censura, já que escolheu canções que sinalizavam claramente sua oposição a Ditadura.

“Filosofia” começa justamente situando a posição do eu lírico no mundo e como ele (não) é reconhecido:

O mundo me condena
E ninguém tem pena
Falando sempre mal do meu nome
Deixando de saber
Se eu vou morrer de sede
Ou se vou morrer de fome.
Ele recebe o julgamento social, é condenado, tal como Sócrates. Porém seu destino brasileiro não é o de beber um veneno, mas sofrer ante o desinteresse daqueles que o caluniam e não se importam com o seu fim. A ameaça de morte por falta de alimento é sintoma da desigualdade cínica de uma sociedade viciada em práticas clientelistas, ondeos mais pobres são estimulados a esperar o favor dos ricos. O remédio para essa situação aparece na segunda parte da canção:

 

Mas a filosofia
Hoje me auxilia
A viver indiferente assim.
Nesta prontidão sem fim
Vou fingindo que sou rico
Para ninguém zombar de mim.

 

A filosofia fornece o expediente para que o poeta-cantor não se deixe levar pelo que “dizem” e permaneça (também) inabalável ante a “prontidão” sem fim. Ele resiste ao impessoal, do sujeito indeterminado que é todos e não é ninguém determinado: a filosofia o vacina do que “se” diz, o que “se” faz, o que “se” julga correto. Por outro lado, a palavra “prontidão” indica aquele que está atento, preparado para desenvolver uma atividade, em sentido militar designa aquele soldado que está de serviço ou o estado de alerta de uma unidade militar; mas também é uma gíria para a situação de quem esta sem dinheiro. No primeiro sentido, a prontidão é uma “abertura”, uma forma de receptividade. Seria a abertura que permite encontrar o próprio “eu” enfrentando a inautenticidade do que impessoalmente “dizem” sobre seu nome?

Ora, esta prontidão também é uma pobreza, despojamento que é muitas vezes relacionado com a possibilidade da atividade filosófica. Para não citar filósofos europeus, recorro novamente aqueles que de modo pioneiro tentaram inventar uma filosofia na América. No Walden, Henry David Thoureau (1817-1862) se dirige aos estudantes pobres conclamando seus conterrâneos a buscar desenvolver um pensamento que se ajuste a sua paisagem, desgostoso ante uma sociedade que se voltava para o comércio e o lucro, procura viver junto à natureza de maneira isolada e despojada para romanticamente buscar a essência da vida; acreditava que todos os filósofos seriam marcados pela ausência de bens exteriores, o que contrastaria com sua riqueza interior. Para Thoureau “Ninguém pode ser um observador imparcial ou sábio da vida humana a não ser da perspectiva que nós deveríamos chamar de pobreza voluntária. O fruto de uma vida de luxo é o luxo, seja na agricultura, no comércio, na literatura ou na arte. Atualmente existem professores de filosofia e não filósofos. Mesmo assim é admirável professar, pois um dia foi admirável viver. Ser filósofo não é simplesmente ter pensamentos sutis, nem mesmo fundar uma escola, mas amar a sabedoria a ponto de viver de acordo com seus ditames, uma vida de simplicidade, independência, generosidade e confiança. É resolver alguns problemas da vida, não apenas teoricamente e sim na prática” (2012: p.27-28).  Já Emerson pensava que a pobreza da América de seu tempo quando comparada a riqueza da Europa, indicava a necessidade e oportunidade para que criassem a si mesmos, cultivando a sabedoria paras diferenciar “o que é seu daquilo que é do outro”. A paisagem desolada também seria habitada por Deus, enquanto “a necessidade cria, no âmbito moral, a virtude capital da confiança em si. Precisamos nos aferrar a essa pobreza, por mais escandalosa que ela seja e, através de autorecuperações mais vigorosas, após as tomadas de ação, possuir o nosso eixo com mais firmeza” (EMERSON, 1997: p.145).

A filosofia, na descrição de Noel Rosa, proporciona o auxilio para fingir que é rico. Ora, já Aristóteles considerava que o pensamento seria fruto do ócio e, por isso, uma possibilidade que se abre somente para aqueles que não precisam trabalhar durante todo seu dia na busca pela sobrevivência. Ao fingir que é rico e não se entregar ao mundo do trabalho, o “eu-lírico” garante o tempo de ócio que lhe permite a abertura para pensar. Mas há neste “fingimento” não é uma mera inautenticidade ou ironia.

Aristóteles coloca nos extremos entre a pessoa que age com veracidade, aqueles que exageram seu próprio valor com soberba (alazoneia) e os que dissimulam por meio da ironia, a falsa modéstia (c.f. Aristóteles Ética a Nicômaco 1108a20-22). Platão se valeu destes dois termos, que antes faziam parte da comédia grega, para construir o discurso filosófico. Por um lado, utilizou a soberba (alazoneia) para caracterizar os sofistas, uma vez que estes retoricamente tentavam aparentar ter um saber que não possuíam. É verdade que Aristófanes em sua comédia As nuvens toma a soberba como característica do jovem Sócrates. Contudo, a descrição que Platão fez de Sócrates caracterizando-o pela ironia é que moldou a máscara turva por trás da qual se esconde o protótipo da vida filosófica. É controverso o significado da ironia socrática, mas ela o aproxima da figura folclórica do herói trapaceiro, que apesar de sua pobreza, feiura e de afirmar não possuir conhecimento, com ardil prega peças nos adversários que se afirmam sábios. Seria ele uma espécie de intelectual trickster.

Neste sentido, no cultivo da razão Sócrates possui sua malandragem. Já o malandro-boêmio precisa inventar subterfúgios para sobreviver à margem do sistema de classes, resistindo àqueles que possuem o poder. Aproximando-se parcialmente da figura do malandro. Porém ao afirma-se “filósofo” ou alguém que faz uso prático da filosofia, o malandro poderia ser acusado de soberba, já que atribui a si mesmo um saber que não possui, no entanto, há aqui de modo mais proeminente a ironia de quem é visto como pária e procura refúgio ante o julgamento da maioria através de um discurso que seria próprio da aristocracia do conhecimento. Armado desta “soberba ironia” Noel pode exercer sua “autentica inautenticidade” fingindo-se rico, fazendo sua diferença ao perceber e denunciar/resistir à sina de pobreza da maioria. Ele resiste ao conformismo. Por isso a marginalidade da condição de pária não o assusta:

 

Não me incomodo
Que você me diga
Que a sociedade
É minha inimiga.
Pois cantando neste mundo
Vivo escravo do meu samba
Muito embora vagabundo.
Ora, segundo a descrição que Platão faz na República, se quisermos formar uma sociedade onde a justiça seja preservada, nela não deve haver espaço para poetas, porque estes tendem a estimular não a nossa racionalidade, mas o comportamento imitativo (mimetikos) que nos levaria a inautenticidade, mimetizando comportamentos e atitudes sem levar em conta suas qualidades morais ou a responsabilidade que temos por estes atos. Os motivos pelos quais Platão expulsa os poetas de sua cidade ideal seriam os mesmo que levam hoje alguns a condenar a cultura de massa. (c.f. NEHAMAS, 1988). O poeta estimularia a parte irascível da alma, aquela que busca satisfação imediata; ao passo que o comportamento sensato e calmo que se mantém sempre igual a si mesmo não se presta a ser facilmente imitado nem entendido pelas multidões reunidas nos festivais (República 604e 1-5). Por conta desta postura que se guia pelo contingente e não pela razão eterna e imutável os poetas seriam inimigos de uma sociedade que quer manter sua estabilidade.

Ora, Noel Rosa viveu em um momento em que a canção popular adquiria as características do produto de massa, com a ampliação dos números de estações de rádio e a transformação dos compositores em profissionais. Do mesmo modo, presenciou e participou dos primeiros passos do cinema do país. Não tomava nenhum destes meios como intrinsecamente pernicioso, mas também questionava a propagação de atitudes imitativas, como daqueles que procuravam se comportar como personagens de cinema (ver “Tarzan, o filho do costureiro”) ou substituir a língua brasileira pelo inglês (como em “Não tem tradução” quando diz “Tudo aquilo que o malandro pronuncia/Com voz macia,/ É brasileiro,/ já passou de português”). No entanto, não é a invasão do que é estrangeiro o grande problema, já que os próprios brasileiros, segundo Noel em “Quem dá mais”, estão dispostos a vender o que há de mais autêntico em nossa cultura. O inimigo maior talvez fosse essa falta de um sentido comum, uma procura por uma dimensão nacional que marcaria a MPB.

Em verdade, os modernistas procuravam celebrar o que seria autenticamente brasileiro; neste sentido a invenção do samba como um produto genuinamente nacional tornou este ritmo o mensageiro de uma forma de modernismo que valorizava a mestiçagem e certas formas de sociabilidade que normalmente seriam consideradas sintomas de atraso cultural (c.f. VIANA, 1995).  Noel Rosa foi o “bacharel” que cantou a Utopia do samba; numa entrevista de 1935, explicava em resposta a polêmica causada pela canção “Não tem tradução”: “A princípio o samba foi combatido. Era considerado distração de vagabundo. Mas estava bem falado. Desceu do morro, de tamancos, com lenço no pescoço, vagou pelas ruas com um toco de cigarro apagado no canto da boca e, de repente, ei-lo de fraque e luva branca nos salões de Copacabana. Mas o companheiro do samba é o violão, que já obteve também a sua vitória definitiva. O samba  é a voz do povo. Sem gramática, sem artifício, sem preconceito, sem mentira”.

Noel Rosa não se incomoda de ser considerado um inimigo da boa sociedade, já que sua autenticidade não está em seguir uma racionalidade impessoal, mas sim em cultivar seu canto. O samba ocupa o lugar da razão, e é a ele que o autor se submete como escravo, embora tendo a liberdade de um vagabundo.  Ora, geralmente tomamos a palavra “vagabundo” como sinônimo de malandro, alguém sem valor, no entanto, o termo designa originalmente a condição errante de quem vaga sem ter um pouso fixo. Ora, uma das coisas que Platão censura nos poetas e nos sofistas é que estes mantinham uma vida de errante, não se fixando em uma cidade e, deste modo, não se comprometendo com a ordenação social. O malandro resiste e subverte o sistema de classes, desafiando o que nele seria marca de valor e poder. A letra de “Filosofia” se fecha incitando:
Quanto a você
Da aristocracia
Que tem dinheiro
Mas não compra alegria
Há de viver eternamente
Sendo escrava desta gente
Que cultiva hipocrisia.

 

Se como queria Oswald de Andrade é a alegria a prova dos noves, é com esta “moeda” que Noel negocia. Ao cultivar o samba teria mais chances para ser feliz do que os aristocratas. Estes últimos haveriam de “viver eternamente” como escravos “dessa gente que cultiva hipocrisia”. Ora, quem é essa gente que “cultiva hipocrisia”? Uma resposta possível é atribuir este comportamento aos filósofos (e religiosos) que platonicamente se voltam para a “eternidade” perdendo a própria vida.

O samba em Noel Rosa seria uma forma de sublime que nasce do corpo, um “feitiço sem farofa” que aponta para um horizonte utópico, desenvolvendo uma crítica irônica de sua sociedade. Para alguns a ironia é um recurso para deixar as coisas como estão, e não alimentar o impulso efetivamente revolucionário. De modo diferente, interpreto a ironia de Noel como uma forma de resistência que celebra possibilidades diferentes de vida. Neste sentido profético de crítica cultural o filósofo do samba continua tendo muito para nos ensinar, assim como, dada a importância que a canção popular tem em nossa cultura, pensa-la é caminho para colocar em questão muitos discursos que tacitamente utilizamos como fundamento de nossas práticas cotidianas no que elas têm de mais trivial. É certo que a filosofia não pode somente se prender ao sublime inarticulado: é preciso entrar no jogo de pedir e dar razões, questionar pressupostos e transformar o anseio utópico em projetos efetivos. Quem sabe possamos com a filosofia tentar pensar nosso país, nossa cultura e – além de traduzir nosso tempo – manter a esperança em um futuro melhor.

 

 

Referências:

 

CAVELL, Stanley. Esta América nova, ainda inabordável. Palestras a partir de Emerson e Wittgenstein. Trad. Heloisa Toller Gomes. São Paulo: Editora 34, 1997.

EMERSON, R. W. “O letrado norte-americano”. In: Ensaios. Tradução de José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix, 1966 p.11–33. Disponível em:  http://www.ufrgs.br/cdrom/emerson/emerson.pdf  Consultado em 09/08/2012.

LEAR, J. Allegory and mith in Plato’s Republic. In: SANTAS, G. The Blackwell Guide to Plato’s Republic. Oxford: Blackwell, 2006.

LOPES, Marcos Carvalho. “Em cima das árvores: a filosofia e o restante da cultura”. Trilhas Filosóficas. Ano IV, número 1, jan.-jun. 2011.

NEHAMAS, Alexander. “Plato and the Mass Media”. The Monist, 71, 1988. pp. 214-234

RORTY, R. Conseqüências do pragmatismo: ensaios 1972-1980. Lisboa: Instituto Piaget, 1999.

WEST, Cornel. La evasion americana de la filosofia: una genealogía del pragmatismo. Trad. Daniel Blanch. Madrid: Complutense, 2008.

THOREAU, H. D. Walden. Trad. Denise Bottmann.  Porto Alegre: L&PM, 2012.

VIANA, Hermano. O mistério do samba. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1995.

 

Marcos Carvalho Lopes