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Filosofia e Religião no Japão

tetsugaku

As raízes da tradição filosófica que viria a ser conhecida como Escola de Quito (Kyōto Gaku-ha) remontam a meados da década de 1870, quando, após um período de estudos na Europa, Amane Nishi (1829 – 1897), retorna ao Japão e cunha o vocábulo gitetsugaku (“estudo da sabedoria grega”, que mais tarde seria transformado em, simplesmente tetsugaku, ou “estudo da sabedoria”) para representar a filosofia ocidental como um todo. No entanto, é somente com a publicação do ensaio Zen no Kenkyū (Investigação acerca do bem) em 1911 por Kitarō Nishida (1870 – 1945) que o pensamento ocidental viria a se estabelecer de fato no Japão. Nesta obra, Nishida, juntamente a fortes influências da literatura e filosofia ocidentais (esta, advinda de pensadores como Kant, Descartes, Hume, Spinoza e William James), apresenta um amplo pano de fundo religioso (oriundo, sobretudo, de seus estudos acerca do budismo e de sua convivência com cristãos no final da década de 1890) que o acompanharia até os últimos anos de sua carreira. Quais seriam, então, as origens do pensamento religioso de Nishida?

Segundo o historiador da religião Toshimaro Ama, embora os japoneses não sejam, em geral, necessariamente ateus, não seria errado afirmar que eles tendem a ser, ao menos, não-religiosos. O que, no entanto, não implica em uma aversão à religião. O xintoísmo, a religião politeísta tradicional japonesa, cuja origem remonta a meados do séc. XIII A.C. e, a partir do séc. VI, o budismo (trazido por monges e delegações coreanas e chinesas) sempre tiveram papel importante não formação politico-social do arquipélago. Somando-se a estes fatores, a inserção do cristianismo (trazido por navegantes portugueses no séc. VXI), o Japão apresenta, sobretudo no período de abertura política conhecido como Era Meiji (1968 – 1912), um grau de sincretismo religioso até então pouco comum nas sociedades européias tidas como o berço da filosofia ocidental. Tal sincretismo inseriu o pensamento japonês em um panorama social onde a prática religiosa está muito mais ligada à relação direta entre o indivíduo e o sagrado do que às instituições religiosas propriamente ditas como ocorre no ocidente. Prática, esta, que é chamada, por Ama de “Religião Natural”.

E é neste contexto que se dá a influência da religião na obra de Nishida. De acordo com o especialista em filosofia japonesa Winston L. King, enquanto no ocidente, a filosofia tem desde o princípio tentado se manter como um pensamento racional independente da religião, no oriente nunca houve tal distinção entre ambas. De uma forma muito similar àquela em que, na Europa, as ciências foram por séculos consideradas como sendo ramificações da filosofia, no Japão, ao menos até o final do séc. XIX, não havia qualquer linha que dividisse claramente o pensamento religioso do filosófico ou racional. De fato, o enquanto o sentido ocidental da palavra “religião” tem, em sua origem, o sentido de “religamento”, os ideogramas chineses (também utilizados no Japão) que representam o termo shūkyō podem ser traduzidos como “ensinamentos antigos”. Desta forma, deste sua gênese, a filosofia japonesa tem tido uma relação relativamente pacífica com a religião o que viria a refletir não somente na obra de Nishida, mas da Escola de Quioto como um todo.

Felipe Ferrari

Doutorando em Filosofia pela universidade de Nagoya no Japão.