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Hilary Putnam e a filosofia como modo de vida

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Hilary Putnam (1926-2016) fez a ponte entre duas afirmações de Ludwig Wittgentstein, que se encontram no seu caderno Denkbewegungen publicado em 1997: a primeira diz, “Sem alguma valentia, não é possível escrever nem um só comentário sobre si mesmo”; e a segunda, “Creio às vezes”. Putnam ficou conhecido inicialmente como um filósofo analítico hard, com contribuições para filosofia da matemática e defendendo uma posição de materialismo científico. Porém, viu sua vida mudar quando seu filho pediu para fazer o Bar Mitzvá. Para realizar este desejo do filho o casal Ruth e Hilary Putnam aceitou frequentar a congregação judaica durante um ano.  Depois deste tempo, viu-se religioso -retomou suas raízes judaicas – e precisou pensar quais as consequências isso teria para sua filosofia.

Não por acaso tornou-se pragmatista e, recentemente, escreveu um livro com o título A filosofia judaica, um guia para a vida, em que analisa a contribuição de Rosenzweig, Bubber, Levinas e um pouco de Wittgenstein, para pensar a filosofia como forma de vida (seguindo Pierre Hadot). A filosofia judaíca e a religiosidade para Putnam ligavam-se com um compromisso reflexivo constante.

Putnam foi um filósofo em sentido pleno, que não deixou que a sombra de sua celebridade o prendesse em dogmatismos ou ceticismos; tomou sempre a vida como maior que a filosofia (afinal, ela tem sempre razão): mudou suas posições constantemente, estando sempre aberto para o diálogo e a revisão de seu pensamento.

Hilary Putnam morreu no último dia 13 de Março. Foi saudado por Martha Nussbaum como um dos maiores pensadores norte-americanos: num momento em que a filosofia é desdenhada como “pouco lucrativa”, os horizontes daquele país veem surgir o nome de Donald Trump como possível presidente. Infelizmente não estamos longe deste contexto de decadência da humanidade e onipotência da mídia. Precisamos de mais pessoas como ele, com compromisso reflexivo e coragem para mudar.

Marcos Carvalho Lopes