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O amor platônico de Renato Russo por Dado Villa-Lobos

A declaração de Renato Russo de que sentia um amor platônico pelo guitarrista da Legião Urbana, Dado Villa-Lobos, alimentou a imaginação dos jornalistas. De certa forma o “livro” de Renato Russo recém- lançado, Só por hoje e para sempre: diário do recomeço (Companhia das Letras, 2015), foi deixado em segundo plano diante da fofoca potencialmente interessante.

1306351-250x250Nesta semana li este “diário” de Renato Russo, com anotações que escreveu em 1993, quando passava por um período de desintoxicação por conta do alcoolismo e da dependência química. O texto não é um “texto” escrito para ser publicado, então sempre se pode ficar com um pé atrás diante do trabalho de edição: quando não se tem acesso aos originais, qualquer análise tem que ser  parcial, deixando reticências.

Talvez com o problema contrário, as Memórias de um legionário de Dado Villa-Lobos possui como qualidade o “defeito” de ter sido descrita por dois historiadores, Felipe Abranches Demier e Rômulo Costa Mattos. Em certos momentos as citações de outras obras, de resenhas de jornal etc., que garantem a estruturação de uma narrativa “fundamentada”, dão a impressão de um trabalho acadêmico. Assim, a reivindicação, feita na Apresentação, de ser uma obra de quem verdadeiramente viveu a história mostra sua ingenuidade. O depoimento de Dado é interessante, principalmente por descrever também informações e experiências que somente quem fazia parte do grupo poderia ter, dentre elas a convivência intensa e atribulada com Renato Russo.150410-capa-livro-dvl

Diante da força da imagem de Renato Russo, e do fato de que era ele o líder do grupo e quem escrevia todas suas letras é comum o erro de desconsiderar que a Legião Urbana era um “grupo de rock”, sendo assim, seu sucesso dependia do trabalho de Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos. É o próprio Renato Russo quem deixa isso claro em seus diários. Em meio ao relato de diversos casos de amor mal sucedidos, de amizades e relacionamentos destruídos pelo alcoolismo e pelas drogas, fala da relação de admiração por Dado Villa-Lobos: “Ele era o motivo para me esforçar, levar meu trabalho em frente, ter animo quando estava desinteressado e força quando estava prestes a desistir. Muitas vezes resolvi problemas e encontrei soluções criativas só porque Dado ficaria feliz. Acho que ele percebe alguma coisa, mas não deixamos que isso venha a ser realidade – só quero que ele seja feliz, porque ele merece” (p.106).

Renato descreve a atração erótica que sentia por Dado, mas é neste trecho que citei que fica explícito o que ele chama acertadamente de “amor platônico”. No Banquete, Platão descreve os degraus na trajetória de autoconhecimento que levariam o amante a buscar alcançar a “beleza em si mesma” e não na posse de um corpo. Ainda assim, faz parte da natureza mortal a procura de, “na medida do possível, ser sempre e ficar imortal. E ela só pode [ser] assim, através da geração, porque sempre deixa um outro ser novo em lugar do velho” (Banquete 207d). Deste modo, as relações heterossexuais seriam propicias para gerar filhos e filhas, mas as relações homoeróticas seriam mais apropriadas para nos direcionar para a criação de outros tipos de “crianças”: a poesia, a ciência e suas obras, seriam formas de procurar a eternidade. As canções da Legião Urbana são bons frutos desta admiração de Renato por Dado. Em verdade, o líder da Legião Urbana em seu diário diz gostar de si mesmo e detestar o mundo… a procura por sobreviver à morte através da arte é uma anseio comum aos escritores e poetas mais criativos.9788524923548_Ampliada

P.S.:O homoerotismo também é um dado comum ao universo rockeiro (e faz parte do impulso inicial da filosofia grega).  Mas é preciso ter atenção para diferenciar homoerotismo de homossexualidade. Para explicar isso precisaria escrever um outro texto, mas é melhor indicar um outro livro que estou lendo agora: Sócrates: pensador e educador de Paulo Ghiraldelli Jr…  é um texto que tenta caminhar entre a academia e a divulgação. Para quem se interessa em saber mais sobre Sócrates é uma boa pedida.

Marcos Carvalho Lopes