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“Onde estamos?” ou o que fazer com uma idéia incrível

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Capa de Caetano e a filsofia

Este texto é a primeira parte do ensaio A Utopia de Caetano Veloso e a Filosofia no Brasil que foi publicado no livro Caetano e a Filosofia (EDUNISC/UFBA, 2010). 

“Esquecemos de perguntar e ele não pensou em dizer-nos em que parte do Novo Mundo está situada a Utopia. Eu daria não sei quê para remir esse esquecimento, por que me sinto envergonhado por desconhecer em qual mar se encontra a ilha a respeito da qual tenho tanto a dizer.”Thomas Morus, Utopia

 

 

O que Caetano Veloso representa para a cultura brasileira? A resposta pode ser diferente para diversos autores, mas há um consenso quando se afirma que ele é pretensioso. Os músicos o entendem como pensador e os pensadores o entendem como músico. Nesta tensão vale repetir os provocativos versos de sua canção Língua: “Se você tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção/ está provado que só é possível filosofar em alemão” (Veloso, C., 1993, p.291). A ironia está em repetir a afirmação do filósofo alemão Martin Heidegger da primazia da língua alemã para o pensar filosófico. Ora, sabemos que esse nacionalismo-romântico e aristocrático levou o pensador alemão a abraçar o nazismo. Se para pensar filosoficamente é necessário se submeter a está lógica, que prova o que diz por um ato de arrogância autoritária, vista como o ponto culminante do pensamento mais pro-fundo, melhor mesmo é fazer uma canção. Se sabemos da importância da música popular para a cultura brasileira, podemos suspeitar que a ironia de Caetano talvez guarde uma verdade insuspeita, uma verdade tropical.
O termo tropical aponta aqui para uma espécie de tradução moderna da hybris grega; teríamos assim uma verdade excessiva, desmedida. Verdade carnavalesca de uma lógica gnóstica, de um lugar aonde a cultura popular européia medieval, com seu humor, apreço pela familiaridade e liberdade, tornou-se modelo para os senhores de nossa “nobreza” (açucareira), de tal modo que, por essas bandas, a hierarquia e o poder afirmaram-se cordialmente, em patrimonialismo, clientelismo, violência obscena, desconversação etc. As relações de amizade, os vínculos pessoais, se sobrepõem e geram esquivas ao compromisso com a legalidade. Vivendo nesta Terra onde a água desce pelo ralo em redemoinhos que se movem em sentido contrário a norma européia, poderíamos construir uma civilização como a grega? É pouco pertinente fornecer qualquer resposta para tais questões. Contudo, nossa possibilidade mais original não esta na repetição ou na tentativa de reclamar uma herança que não faz parte de nossas vidas. Tais pontos de interrogação provavelmente trazem um falso começo.
A ausência de respeito pelas regras cria uma postura dissonante, que, não somente (1) desafina o coro dos contentes resignados a aceitação do tipo de logos que afirma a fronteira platônica entre gregos e bárbaros, mais do que promove o diálogo socrático com o que é outro; (2) como também se torna problema, quando nos perguntamos sobre a possibilidade de criar uma harmonia inovadora para esta sociedade, onde violência e hospitalidade convivem formando uma “brutalidade jardim”. Neste “não-lugar” haveria espaço para construir um pensamento que vá além da constatação do “absurdo”? Neste horizonte, tomado por uma selva de semelhanças, pode(ria)mos fazer filosofia ou a racionalidade de Descartes por aqui sucumbiria numa alucinada egotrip ? Tais interrogações não podem ser respondidas se não as assumimos como próprias a ponto de as esquecermos, na efetividade de quem age. Isso ajuda a entender o espanto que Wittgenstein teria demonstrado ao saber que o filósofo Moritz Schilick iria ensinar em uma universidade norte-americana: “O que podemos nós dar aos americanos? Nossa cultura meio decaída? Os americanos ainda não têm uma cultura. Mas, de nós, nada têm a apreender… Rússia. A paixão promete alguma coisa. Ao passo que nossa fala não tem força para mover coisa alguma” (citado em Cavell, S., 1997. p.71). Se o Espírito não habita estas paragens, se estamos fora do domínio da Metafísica (e de suas dicotomias entre aparência e realidade), talvez não tenhamos que mergulhar no pro-fundo romântico ou escalar na direção do cume de uma bem ordenada beleza racional para resgatar uma forma de vida que pouco tem a ver com nosso horizonte.

Stanley Cavell

Stanley Cavell

O espanto de Wittgenstein leva o filósofo norte-americano Stanley Cavell a inferir que “a filosofia como parte da cultura, só pode ser herdada por uma nação que já possua aquela parte da cultura conhecida como filosofia” (Cavell, S., 1997, p. 82). Tal pressuposto marca a necessidade de reconhecimento, do solo, de nossa possibilidade mesma de assumir questões.
Cavell aborda a obra transcedentalista de Ralph Waldo Emerson(1803-1882) e Henry Thoureau (1817-1862), como necessárias para o reconhecimento da possibilidade de filosofia em seu país como uma prática viva. O paradoxo, algo que deveria ser explicado, é o motivo pelo qual a filosofia profissional não reconhece estes autores como filósofos.
Emerson e Thoureau seriam, para Cavell, representantes de uma forma específica de romantismo que ocorreu na América (tomando como referência as obras de Wordsworth e Coleridge). Estes dois autores não deixaram um legado que se parece com a Filosofia, sendo que, seus trabalhos são vistos mais como “um desenvolvimento estranho da literatura”(Cavell, Stanley., 1997, p.71). Porém, esta forma diferenciada de seus ensaios, marca a procura de tomar como próprio esta forma de vida de cultivo do pensar. Tal busca, pode se assemelhar aos olhos dos europeus com exercícios de “pobres estudantes” (Idem, p.71), contudo, para inventar a possibilidade de fazer filosofia no contexto deste Novo Mundo seria necessário reconhecer o horizonte diferenciado e recuperar o que é ordinário. É com uma interrogação que Emerson abre seu ensaio Experience; pergunta “Onde estamos?”. Tal questão busca um sentido para abordar a sua “inabordável América”, sem esquecer que “é o olho que faz o horizonte”(Emerson, R. W., 1997, p.143). Ressalta a promessa de que o “verdadeiro” romance que a existência do mundo tem por fim realizar será a transformação do gênio em poder prático” (Emerson, R. W., 1997, p.148). Thoureau afirma em seu Walden ou a vida nos bosques que “Hoje em dia há professores de filosofia, mas não há filósofos. Contudo, é admirável ensinar filosofia porque foi um dia admirável vivê-la”(Thoureau, 2007, p.6). Se a filosofia não se torna um saber vivo, capaz de “solucionar alguns problemas da vida não só da teoria mas também na prática” ela apresenta apenas o valor de vazia erudição e comodismo auto-indulgente. Thoureau pede que o filósofo aponte para o futuro, que ajude na abertura para o novo. A filosofia teria, então, sempre uma dimensão utópica.
Noel Rosa, que se dizia filósofo do samba, já explicava na letra de Feitio de Oração que “quem acha vive se perdendo”. O medo desta errância esta na raiz da falta de reconhecimento, que é uma falta de fé na própria capacidade criativa. O medo de errar, a dificuldade de lidar com frustrações, faz com que nos arrisquemos pouco na experimentação teórica, desenvolvendo uma competência, que possui tal grau de exigência, que reprime a possibilidade de criação. Esta tensão entre adquirir uma capacidade de leitura competente e autorizada e a abertura para a experimentação, gera riscos de desenvolver trabalhos que tem criatividade, mas não qualidade; ou que tem primor técnico, mas apenas repetem o que é sabido.
Caetano Veloso no princípio da década de 60 não tinha muita certeza sobre o seu futuro: se interessava muito por Artes, principalmente Cinema e Música, e era estudante de Filosofia. Pensava em ser professor de Filosofia (ou inglês) para alunos do ensino médio. No seu livro Verdade Tropical afirma que sempre teve atração pelo magistério, “estar entre jovens e explicar coisas, ter um grupo de pessoas admiradas e gratas pelo meu saber era uma fantasia freqüente” (Veloso, Caetano, 1997, p.92). Contudo, o curso de Filosofia não o agradava e nem se aproximava das interrogações metafísicas cartesianas e existencialistas que despertaram seu fascínio quando muito jovem. Desmotivado, se desinteressou da possibilidade de seguir na academia: “Eu não lia, não estudei direito, não me animava. O que eles queriam que eu lesse eu não lia tanto. O que eu gostava de ler… Eu lia Sartre, mas eles na faculdade de filosofia ensinavam são Tomás de Aquino, Aristóteles via São Tomás de Aquino. Eu fiquei confuso, não sabia por onde começar… E todo mundo era marxista, mas ninguém lia Marx. ‘Mas meu deus, será que eu devo começar estudando esse negócio de são Tomás de Aquino?” (Veloso, Caetano., 2001, p. 57). Caetano tinha “uma visão pessimista da possibilidade de vida intelectual no Brasil” (Idem, p.57), ao mesmo tempo em que suas inquietações artísticas se tornavam mais urgentes. Desistiu do curso de Filosofia em 1964, mas não do pensamento. Desistiu da Filosofia para fazer filosofia.
Para desenvolver suas interrogações Caetano teve que compor canções. Se estas são “pobres” perto dos tratados filosóficos, cabe pensar porque a canção popular tem (ou teve) um lugar tão importante em nossa cultura. Noel Rosa, Caetano Veloso, Chico Buarque etc. estariam para nossa filosofia como Thoureau e Emerson (ou Walt Withman) estão para a possibilidade da filosofia norte-americana? Esta pergunta é uma provocação com a qual este trabalho dialoga.

Referências

ANDERSON, Douglas R. “American Loss in Cavell´s Emerson”. In: Philosophy Americana: Making Philosophy at Home in American Culture.. New York: Fordham University Press, 2006.

ARAÚJO, Ricardo Berzaquem. “O elogio da loucura: ambigüidade e excesso em Casa-grande & Senzala, de Gilberto Freyre”. In: SOARES, L. E. (org.) Pluralismo Cultural, Identidade e Globalização. Rio de Janeiro: Record, 2001

CAVELL, S. Esta América ainda inabordável. São Paulo: Ed. 34, 1997.

­­­­­­­________. Em busca de lo ordinário: líneas de escepticismo y romantismo.Madrid: Fronesis, 2002.

EMERSON, R. W. “Experiência”. In: CAVELL, S. Esta América ainda inabordável. São Paulo: Ed. 34, 1997

MOTTA, Roberto. Gilberto Freyre: uma originalidade luso-brasileira. In: SANTO, Boaventura de Sousa. Brasil – Portugal: entre o passado e o futuro. Rio de Janeiro: EMC edições, 2001.

THOUREAU, H. Walden, a vida nos bosques. 7ª Ed. São Paulo: Ground, 2007.  TUGENDHAT, Ernest. Egocentricidad y Mística. Barcelona: Gedisa, 2004.

VELOSO, Caetano. Verdade Tropical. Companhia das Letras: São Paulo, 1997.

________.Entrevista com Caetano Veloso. Revista Cult, São Paulo, n. 49, ano V, agosto de 2001.

 

Marcos Carvalho Lopes