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Renato Russo e o zoológico consistente

Terminei de escrever meus “Ensaios legionários” em 2005, mas o livro só foi publicado em 2012 (Canção, estética e política ensaios legionários, Mercado de Letras, 2012). Levou muito tempo para conseguir uma editora e as autolivro-brasilrizações para publicação.  Me distanciei do texto e, como é comum, me senti incapaz de revisá-lo: queria livrar-me dele, lançar e ver como repercutia. Nisso alguns problemas escaparam de revisão, de estilo, de conteúdo, referências etc. O problema mais chato é o uso da palavra “homossexualismo” para designar um sistema de pensamento em que a homossexualidade é o ponto metafísico em torno do qual tudo o mais gira. O termo homossexualismo hoje foi banido por conta de suas conotações patológicas, mas na época que escrevi não percebi este problema (Maria Eugênia, em 2002, companheira de Cássia Eller, quando conseguiu a guarda definitiva do filho da cantora comemorou em entrevista essa como “uma grande vitória do homossexualismo”).

De todo modo, este é um tema que pode e deveria ser abordado de forma mais rica, principalmente em diálogo com os álbuns solo de Renato Russo. Fiquei feliz ao ver meu livro citado na obra de Mario Luis Grangeia, que foi publicado este ano pela editora Civilização Brasileira: Cazuza, Renato Russo e a transição democrática.

O autor me cita e dialoga com meu trabalho sobre a Legião e em muito  coincide com o que escrevi sobre Cazuza no ensaio “Cazuza e a Malandragem de ser brasileiro” (que publiquei na internet em 2004-2005 e depois em livro) embora este não esteja em sua bibliografia. O livro tem uma boa pesquisa, especialmente sobre Cazuza. É indicado para aprofundar um pouco mais a perspectiva sobre as obras destes artistas, contextualizando e dialogando com seu tempo. Neste sentido, não há “novidade”, mas paráfrases de pensamento, que talvez possam trazer aprimoramentos estéticos, melhor distribuição e diluição, um produto mais barato…

Num capítulo do livro de  Grangeia sobre a homossexualidade nas letras de Renato e Cazuza o autor cita meu texto e contesta a interpretação, para ele pouco convincente, que faço de Vento no Litoral como uma canção de amor gay (p.111):

 

2016-08-25 20.57.46

Neste caso o autor erra de um modo em que cabe pouca indulgência, isso porque o que afirmo não é algo que parte de uma interpretação zoológica, mas sim das palavras de Renato Russo. Claro que a intenção do autor não tem a “palavra final” na literatura, mas não se trata neste caso de um eu lírico impessoal, nem de uma interpretação pouco convincente, mas de desconsiderar um posicionamento que era deliberadamente político. Em tempos de Estatuto da família o autor vai muito mal ao deslegitimar o ato político de Renato Russo ao tratar de uma relação homo-afetiva de modo que pensava ser suficientemente direto… Renato sonhava em ter uma família, em se casar com seu namorado e criar seu filho. Nunca conseguiu viver este sonho, mas desprezá-lo é por parte de Grangeia um equívoco não só de interpretação: a política não se faz só em palanques ou passeatas pacíficas. O exemplo da luta de Maria Eugênia pela guarda de Chicão, filho de Cássia Eller, gerou uma conquista importante e fez mais gente sonhar…  Pouco convincente é tomar a citação de “cavalos marinhos” como oferendas devolvidas do mar… Você dialoga com o mar e ele te responde oferecendo cavalos marinhos!

Grangeia não devia menosprezar meus “saberes zoológicos”, e talvez por sua ignorância tenha deixado de considerar no seu trabalho a canção ” Vamos fazer um filme” como tendo uma mensagem de temática importante para seu ensaio ( ou será que ele achou que pouco convincentes estes versos proto-queers ecológicos):

 Sem essa de que: “Estou sozinho”
Somos muito mais que isso
Somos pinguim, somos golfinho
Homem, sereia e beija-flor

Leão, leoa e leão-marinho
Eu preciso e quero ter carinho, liberdade e respeito
Chega de opressão
Quero viver a minha vida em paz

Não tenho o livro de Leoni ” Letra, Música e Outras Conversas”, mas ele seria muito importante para quem quer fazer um trabalho sobre Cazuza e Renato Russo. Este livro está na bibliografia de Grangeia, na sua primeira edição de 1998. Antes de lançar a segunda edição, em uma postagem no seu site em 2012, Leoni compartilhou alguns trechos de entrevista com Renato Russo  que são fundamentais para qualquer trabalho sobre homossexualidade nas letras do líder da Legião (e que confirmam minha interpretação), que cito abaixo:

Qual o código para decifrar algumas canções da Legião? Qual a importância da sexualidade nas letras? Acho esses depoimentos muito comoventes:

“Em inglês dá para cantar a mesma coisa para uma menina ou um menino, tanto faz, você coloca o pronome se quiser. Em português não, vai ter que ter a concordância de gênero. Às vezes tenho que dar a maior volta pra não deixar claro se eu estou cantando para um menino ou uma menina. E o que acho bacana na música pop é justamente isso, você ouve David Bowie e não tem noção de pra quem ele está falando.

Quero mencionar também a questão da afetividade e da sexualidade. Muitas vezes, principalmente a partir do “Quatro Estações”, certas coisas que colocava nas letras eram mensagens cifradas. Muitas vezes, pra não ter problema eu não era muito claro. Tem algumas músicas que sou eu cantando para um cara mesmo. Mas escrevi de tal maneira que uma menina ouvindo a música pode achar que é um cara cantando pra ela. Um exemplo clássico disso é “Vento no Litoral” que é uma música gay, de carteirinha, até com citação de cavalo marinho. Cavalo marinho é o único bicho cujo macho é que gesta o filho. Ali já foi mais natural pra mim, mas não era assim nas coisas antigas. Tirando, claro, o que foi realmente escrito para uma menina, como “Ainda é cedo”.

Leoni – Não era um disfarce: “Uma menina me ensinou”.

Renato – Não, quando é disfarce não especifico, coloco no plural: “Se lembra quando a gente…” Em “Meninos e Meninas” tem “te fiz comida, velei teu sono”. Não estou falando de uma menina, estou falando de um ex-namorado meu. Mas acho importante pensar no público. A não ser que eu tenha um statement muito sério, prefiro dar a maior abertura possível.

“O mundo anda tão complicado” tem : “Gosto de te ver dormir / que nem criança de boca aberta”, “me empresta um par de meias”, “sexta-feira a gente vai no cinema” é um casal gay montando apartamento pela primeira vez. Não tem nada em código, mas é gay.”

Leoni – Você disse numa entrevista que “Vamos fazer um filme” é um manifesto gay da Legião. O que é exclusivamente gay?

Renato – É uma experiência universal, não tem muita diferença na verdade. Mas tem aquelas coisas de anos 30, meu!… A parte gay entra logo. A música começa a falar de golfinho, de beija-flor, coloca que a pessoa pode ser qualquer coisa desde que seja uma pessoa legal. Tem “Leão, leoa e leão-marinho”. Como é? (canta) “Sem essa de que: “- Estou sozinho” / Somos muito mais que isso” A pessoa que se sente diferente, se sente mais sozinha. Não é só porque você é gay. De repente você é o menino rico da rua, ou o menino pobre da rua, ou o menino que gosta de ler, ou o menino que gosta de jogar futebol e vive entre intelectuais…

Leoni – Ou é gordo, ou baixo, ou usa óculos…

Renato – É isso: não se faça de vítima. Acho uma letra bonita. “Somos pinguim, somos golfinho / Homem, sereia e beija-flor” Tipo aquele vídeo da Madonna, o “Cherish”. Acho aquele vídeo o máximo: aqueles homens-sereia. “Leão, leoa e leão-marinho”. E tem até uma citação de uma música antiga: “Eu preciso e quero ter carinho, liberdade e respeito / Chega de opressão: / Quero viver a minha vida em paz.” Pus isso como sendo em relação à sexualidade, mas pode ser lido de diversas outras maneiras.

Leoni – Não é especificamente gay.

Renato – Mas se você for um garoto gay e ouvir essa música ela vai falar direto pra você. Que nem Smiths. Quando eu ouço certas coisas do Smiths fico: “Cruzes!” E quem não é gay não entende.”

(o texto de Leoni está em: http://www.leoni.art.br/post.php?titulo=letra-musica-e-outras-conversas-novidades-e-renato-russo-2).

Marcos Carvalho Lopes

  • Juliana Bárbara

    Gosto muito do Filosofia Pop. Muito mesmo. Aprendo e relembro de tanta vida. Acho um presente para nós ouvintes de podcast. E fico ainda mais contente quando vejo um programa de filosofia dedicado à Legião Urbana. Sempre analisei as musicas, mas nunca tive embasamento para uma análise como a feita aqui. Obrigada pelo programa, pelo texto, pelas indicações. Esperando ansiosamente pelo programa do Engenheiros do Hawaii. Beijo enorme.

    • Obrigado, Juliana! Comentários como o seu fazem todo o trabalho valer a pena. Vamos fazer um episódio sobre Engenheiros do Hawaii sim, tem muito o que dizer sobre eles.

      Espero seus comentários nos próximos episódios.

      Abraço.