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Rorty previu Trump e depois… Anaa

No dia em que Donald Trump foi eleito eu começava um curso sobre a filosofia de Richard Rorty, não tive dúvida: levei para sala de aula a parte final de Achieving our Country (“Para realizar a América”) de 1998 em que, fora de seu estilo habitual, o autor se arriscou fazendo uma profecia sombria:

“Muitos autores da área de política socioeconômica têm advertido que as velhas democracias industrializadas estão se encaminhando para um período parecido com o período de Weimar, no qual os movimentos populistas têm maior probabilidade de sobrepujar os governos constitucionais. Edward Luttwak[1], por exemplo, sugeriu que o fascismo pode ser o futuro norte-americano. O argumento de seu livro The Endangered American Dream é que os membros dos sindicatos trabalhistas e os trabalhadores não-especializados e não organizados perceberão mais cedo ou mais tarde que o governo não está tentando sequer impedir a queda dos salários ou a exportação dos empregos. Mais ou menos na mesma época, perceberão que os trabalhadores de colarinho-branco de classe média – que, por sua vez, estão também desesperadamente amedrontados com a possibilidade de desemprego – não assumirão o pagamento de mais impostos para oferecer benefícios sociais a quem quer que seja.

Neste ponto, alguma coisa irá quebrar. O eleitorado não suburbano decidirá que o sistema fracassou e começará a olhar em volta em busca de um homem forte em quem votar – alguém disposto a assegurar-lhe que, uma vez eleito, os burocratas presunçosos, os advogados ardilosos, os vendedores de títulos que fazem muito dinheiro, e os professores pós-modernistas não mais darão as ordens. Um cenário como o romance de Sinclair Lewis, It Can’t happen here, poderá então ter lugar. Pois uma vez que esse homem forte assuma o poder, ninguém pode prever o que acontecerá. Em 1932, a maioria das previsões feitas sobre o que poderia acontecer se Hindenburg nomeasse Hitler como chanceler foi exageradamente otimista.

Uma coisa que é muito provável acontecer é que as conquistas obtidas nos últimos quarenta anos por americanos negros e pardos, e por homossexuais, desaparecerão. O descaso jocoso pelas mulheres voltará a ser moda. Palavras como “nigger” e “kike”[2] voltarão a ser ouvidas nos locais de trabalho. Todo o sadismo que a esquerda acadêmica tentou tornar inaceitável para seus estudantes voltará com toda força. Todo o ressentimento que os americanos mal-educados sentem por ter suas maneiras ditadas por pessoas que têm um curso superior encontrará uma válvula de escape.

Mas tal renovação do sadismo não alterará os efeitos do egoísmo. Pois depois que o homem forte imaginário que criei estiver em exercício, ele rapidamente fará as pazes com os super-ricos internacionais, do mesmo jeito que Hitler com os industriais alemães. Ele invocará a memória gloriosa da Guerra do Golfo para provocar aventuras militares que gerarão uma curta prosperidade. Ele será um desastre para o país e o mundo. As pessoas especularão sobre por que houve tão pouca resistência à sua ascensão, que poderia ser evitada. Eles perguntarão “Onde estava a esquerda americana? ” “Por que somente direitistas como Buchanan falaram aos trabalhadores sobre as consequências da globalização? Por que a esquerda foi incapaz de canalizar a fúria escaldante dos mais novos despossuídos? ”.

 

Mas e depois deste momento, seria o fim? Rorty não “profetizou” mais nada? Não, porque via um dilema para o qual não conseguia enxergar solução: “você salva as classes trabalhadoras das velhas democracias com o protecionismo ou abandona o protecionismo em consideração ao Terceiro Mundo?”. Para Rorty, preservar as condições econômicas das classes trabalhadoras das democracias ricas é o caminho para prevenir a ascensão da direita e seu discurso de populismo fascista e isso significa deixar de lado qualquer ideia de distribuição de renda em termos globais.

(Harold Bloom fazia eco ao seu amigo Rorty, afirmando que a “Nemesis nacional dos Estados Unidos talvez venha a ser a globalização da ilusão wilsoniana de que outros países possam se tornar santuários da democracia”.  A Nêmesis, essa deusa da vingança e da autopunição, pode ser “miticamente” representada pela saga do capitão Ahab em busca de capturar a baleia Moby Dick, caminho que leva a sua autodestruição).[3]

Este não era o único dilema que Rorty compreendia como inevitável, também não sabia como manter ao mesmo tempo os discursos sobre estigmas e reconhecimento de identidades e aqueles que falam de classes sócias e distribuição de renda. Na sua descrição, a esquerda norte-americana seguiu a via “cultural”, tentando lutar contra as redes abstratas de poder de poder e opressão, propondo novos conceitos e teorias como chaves de emancipação. Para Rorty, era preciso deixar a teoria em moratória e pensar novamente em classes, organização sindical em propostas reformistas e especificas. Nesse sentido reformista, era necessário renovar a autoestima e esperança de que o país poderia realizar a promessa que a Democracia acenava com Whitman ou Dewey: “Ter orgulho de ser negro ou homossexual é uma resposta inteiramente razoável para a sádica humilhação a que alguns tem sido sujeitados. Mas na medida em que esse orgulho impeça alguém de também ter orgulho por ser um cidadão americano, por pensar em seu país como sendo capaz de reforma, ou de ser capaz de unir-se aos heterossexuais ou aos brancos em iniciativas reformistas, é um desastre político”.

Isso não é a aposta em uma teoria redentora, mas a crença de que as pessoas podem se unir para realizar projetos em que acreditam, ainda que a forma como justificam suas crenças seja distinta. A ideia de grandes mudanças revolucionárias provocadas por uma visão comum compartilhada em um movimento amplo, deveria ser substituída com vantagens pela busca por realizar campanhas específicas em sentido reformista. Essa distinção também ecoa uma distinção entre “moralistas acadêmicos”, que tem uma teoria sobre como devemos agir; e “empreendedores morais”, que tem objetivos muito específicos, denunciando formas de sofrimento não-necessárias, criando uma polêmica que, geralmente, conduz a resultados políticos efetivos.

Rorty tentava defender o “partido da esperança” de Emerson contra o “partido do ressentimento”, formado pela esquerda cultural, mas que poderia facilmente ter seus sinais invertidos para abrigar a insatisfação dos que veem minorias ascender e ganhar espaço social. O discurso do estigma e do ressentimento não abrigaria a promessa de esperança não fundamentada necessária para o experimento democrático. Esse tipo de “força inspiradora” da esperança não poderia ser definida teoricamente, mas deveria ser alimentada, como faz Cornel West ao tentar reavivar o “fogo profético negro” e Rorty com a crença de que a literatura é o melhor guia para os utopistas que tentam imaginar um mundo melhor.

 

Hoje acabei a leitura do livro de memórias “Meu primeiro Golpe de Estado” do ex-presidente de Gana John Dramani Mahama. É muito interessante como Mahama  reivindica que o primeiro golpe de estado que viveu aos 7 anos em Gana foi um momento fundamental de sua formação. Depois dos anos de luta por independência, as promessas e esperança de que que Gana seguiria, com o governo de Kwame Nkrumah, um caminho de progresso, democracia e desenvolvimento, foram demoradamente desmentidas por trinta anos de estagnação e crescimento zero. O Golpe de estado significa uma ruptura e uma instabilidade trágicas para países pobres em que o experimento democrático não vem acompanhado de garantias de qualidade de vida.

Quando Barack Obama chegou ao poder, muita esperança foi depositada em seu governo, principalmente no exterior. A popularidade de Obama na África, no Brasil, na Europa continua sendo enorme. Mas diante da crise de Wall Street, sua decisão de estancar a sangria e financiar com dinheiro do Estado o rombo feito por banqueiros, é bem diferente da sangria que a Operação Lava-Jato vem promovendo na Petrobrás e nas construtoras brasileiras. Diante da da recente ameaça aos direitos trabalhistas falou-se em uma Greve Geral no Brasil, algo que talvez significasse voltar a pensar em “classe” e deixar de lutar contra a “corrupção do sistema” para confrontar oligarquias e patrões. Mas a greve geral não decolou e a esperança parece cada vez mais fragmentada em interesses corporativos e patrimonialistas.

Não acredito que deveríamos abrir mão dos discursos e da luta por reconhecimento racial, de gênero, sexual etc. para voltar a falar em economia e classe como se fazia na década de 30-40, quando os sindicatos tinham força efetiva e o contexto cultural era diverso. A exportação da democracia como autocriação por meio do consumo já foi feita. Neste sentido, o exemplo de Cornel West me parece mais apropriado do que a profecia romântica de Rorty. Mas nenhum deles nos representa e nem querm ou deveriam fazer isso.

Talvez a maioria de nós devesse pensar na possibilidade e necessidade de escrever um livro como o de Mahama, com o mesmo título. Depois de três décadas perdidas, Mahama não podia mais ter certeza do progresso, e mantinha a esperança, ainda que, em seguida enunciasse de forma sussurrada a palavra “Anaa”, que funciona como um convite para dúvida, o reconhecimento de um espaço para a contradição, um “ou não é?” (pensei no “ou não?” com que os imitadores fecham cada sentença quando caricaturam Caetano Veloso). Ao narrar sua própria trajetória de autoformação em meio a tantos contratempos Mahama fecha seu livro dizendo ter aprendido “que a possibilidade de perigo se encontra a beira de todas as decisões da vida. E também o potencial da viagem mais extasiante da vida… Anaa?”.

Se o futuro não é mais como era antigamente é que há muito porvir… Anaa.

NOTAS:

[1] Luttwak, principal investigador do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, não vê em Trump a realização de sua profecia. Para ele “A despeito dos gemidos dos ‘trumpófobos’, na estratégia em formação do presidente eleito há muitas ideias racionais e realismo”. E considera até mesmo que sua política externa pode ser consequente: “Se a política de Trump, no que se refere à Rússia, for bem-sucedida, isso diminuirá a tensão nas relações [entre os dois países], bem como a necessidade de enviar um grande número de tropas norte-americanas para a Europa visando reforçar a OTAN”. Confiram http://www.jb.com.br/internacional/noticias/2016/11/19/nao-faz-sentido-reforcar-otan-se-trump-melhorar-relacoes-com-russia-diz-analista/,  sobre Luttwalk como uma espécie de Maquiavel norte-americano, veja: http://www.columbia.edu/~tmm2129/Piaui.pdf

[2] Termos desumanizadores usados respectivamente contra negros e judeus.

[3] Descrevo mais detalhadamente essa perspectiva mítica para pensar os EUA  na parte final de meu capítulo no livro “A religiosidade brasileira e a filosofia”, disponível aqui: http://www.editorafi.org/religiosidadebrasileira.

Marcos Carvalho Lopes