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Uh uh uh, lá lá lá, iê iê!: felicidade paradoxal na sociedade de consumo

“O que fazer pra tentar ser feliz?”, esse é o teorema que todas as sociedades têm que responder.  Ele está presente, como pano de fundo, na maioria dos tratados de filosofia, livros religiosos, literários etc. A principio essa busca era tanto política quanto ética: queriam encontrar a formula da sociedade feliz, onda cada qual teria o seu bocadinho desse bem.

Posicionar-se ante essa questão não significa desvendar o caminho para a felicidade. O dito da desiderata “faça tudo para ser feliz” pode inspirar muita maldade e violência. Filósofos como Kant negaram que a busca da felicidade pudesse ser o fundamento da vida moral: as causas desse sentimento são extremamente variáveis, sendo este um alvo impreciso e instável, aja visto que os desejos do homem estão sempre em jogo. Para o filósofo alemão deveríamos tentar nos tornar dignos da felicidade (1) tentando fazer os outros felizes e (2) nos auto-aperfeiçoando. São dois caminhos muito difíceis e que não garantem a realização da própria felicidade. Fazer os outros felizes não é um alvo que se possa ter certeza de alcançar: você pode fazer tudo pensando na felicidade do outro e depois descobrir que não alcançou seu intento. Depois do romantismo a ideia da busca de uma perfeição privada tornou-se tremendamente idiossincrática: cada qual deveria inventar seu caminho de auto-aperfeiçoamento. É difícil pensar que numa sociedade hedonista como a atual, onde “o prazer é o principio e o fim da vida feliz”, as pessoas possam seguir o que pede o filósofo alemão.

 

Em nossa sociedade atual, marcada pelo hiperconsumismo as questões mudaram de lugar. Como nos dizem o primeiro verso da canção Uh uh uh, lá lá lá, ié ié! do Pato Fu:

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As pessoas têm que acreditar

Em forças invisíveis pra fazer o bem

Tudo que se vê não é suficiente

E a gente sempre invoca o nome de alguém

 

Para fazer o bem o homem teria sempre que fazê-lo ‘em nome de…’, ou seja, acreditar que tem a procuração de alguém que valide sua ação. Uns querem falar em nome da religião, outros em nome da filosofia, da política…esperando as “recompensas” que essas posições prometem. No entanto, sabemos que as pessoas falam “em nome de…”, não sente necessidade de dialogar com quem pensa de maneira diferente. Quantas guerras “em nome de Deus”? Quantas atrocidades em nome da Liberdade?

Em nossa sociedade, capitalista e hiperconsumista, onde “tudo que é sólido derrete-se no ar”, não temos mais pontos de referência estáveis ou limites precisos para a ação. Todas as diferenças são apagadas “em nome de” um único valor: o valor de mercado. Esse é o novo totem da tribo.

A canção do Pato Fu segue dizendo:

 

Acho muito caro o que ele tá pedindo

Pra eu ter muito mais sorte e menos azar

Acho muito pouco o que tenho no bolso

Pra ver o sol nascer não tem que pagar

 

Em qualquer esquina você pode encontrar gente distribuindo panfletos que prometem caminhos para a felicidade imediata: desvendam o futuro, desamarram as correntes, alcachofras místicas, charutos de orégano, empréstimos facilitados, serviços sexuais, COMPRA-SE… o perigo é que as pessoas se prendam a essa lógica do consumo, onde “produto=felicidade”. A letra segue:

É certo que o milagre pode até existir

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Mas você não vai querer usar

Toda cura para todo mal

Está no Hipoglós, Merthiolate e Sonrisal

O “milagre”, algo de mágico e sobrenatural, pode até existir, no entanto, é melhor procurar um caminho que possa se usar de forma mais fácil, ou seja, um remédio que tenha um preço de mercado definido. Por isso, “toda cura para todo mal/ está no Hipoglós, Merthiolate e Sonrisal.” Nossa terapia cotidiana é buscar no consumo remédio, uma droga psicológica que nos alivia da ansiedade e da angústia, mas que não têm medida. O problema não está no consumismo: a grande questão é quando toda a existência do homem passa a ser dominada por essa lógica que nunca alcança a saciedade. Caímos em um paradoxo, como observa Gilles Lipovetsky, já que compramos a imagem do prazer dionisíaco e ao mesmo tempo vivemos numa “civilização de prevenção”, ele exemplifica “você não pode se expor ao sol, porque causa problemas, você não pode beber coca-cola, porque tem muito açúcar, você não pode comer muita carne, porque tem gordura você tem que fazer exames médicos, você não pode fazer sexo sem camisinha, porque pode pegar Aids…”. Por um lado as prateleiras prometem redenção, por outro criamos uma lógica da prevenção…os dois aspectos andam juntos e por vezes se cruzam e se confundem. O paradoxo se mantém na ansiedade do consumismo: para Lipovetsky a sociedade torna-se paradoxal, a felicidade torna-se paradoxal…

Como fugir desse caminho paradoxal, existiria alguma fórmula? Não existe caminho para sair da sociedade, quem sabe pudéssemos mudar nossas metas, como exemplifica a canção do Pato Fu:.

 

Quem tem a paz como meta

Quem quer um pouco de paz

Que tire o reboque que espeta

O carro de quem vem atrás

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Os que querem a paz devem começar a agir em coisas pequenas de seu cotidiano como retirando o reboque “que espeta o carro de quem vem atrás”. A ideia não é buscar no Estado uma ordenação melhor da sociedade: essa sociedade também é hiperindividualista, ou seja, o homem é mais responsável por sua existência, ele possui maior liberdade para fazer escolhas e ao mesmo tempo é mais frágil, já que vive a angústia dessa liberdade.

Talvez não exista uma formula para sair do paradoxo. Por isso faz tanto sentido cantar o nonsense dessa felicidade irônica e contagiante, como no refrão do Pato Fu:

 

UH UH UH, LA LA LA, IÉ IÉ!

UH UH UH, LA LA LA, IÉ IÉ!

UH UH UH, LA LA LA, IÉ IÉ, IÉ IÉ!

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Publicado originalmente em: LOPES, Marcos Carvalho ; Felicidade nonsense. Conhecimento Prático Filosofia, v. 3, p. 24-26, 2008.

P.S.: Aos poucos vou postar aqui alguns textos antigos  que ainda podem ser pertinentes. Este aqui é de 2008 e tem gente que ainda gosta…

Marcos Carvalho Lopes

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