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Maria Bethânia e a Filosofia do Recôncavo

5 Lições Sobre um Brasil que Resiste e Encanta

O que faz de Maria Bethânia uma figura tão singular, capaz de atravessar cinco décadas como uma entidade quase mítica na cultura mundial? Em um tempo marcado pelo consumo síncope, pela velocidade da superfície e pelo esgotamento das narrativas, Bethânia permanece sob um hieratismo inabalável. Ela habita um tempo outro. Como define o professor e poeta Marlon Marcos, ela não é apenas uma cantora; é uma intérprete do Brasil, uma artista-pensadora que articula saberes fundamentais para a compreensão da nossa identidade.

Para além do entretenimento, Bethânia é uma intelectual que utiliza a canção como um oráculo. Ela nos ensina que a cultura brasileira não é um adereço, mas um projeto de resistência e dignidade.

1. A Cantora que Pensa o Brasil: Um Tratado Antropológico

Bethânia transcende o domínio musical para se situar no campo da epifania intelectual. Marlon Marcos argumenta com precisão: cada movimento de sua carreira, cada escolha de repertório, funciona como um tratado descritivo do Brasil. Ela articula, com a sofisticação de uma acadêmica e a entrega de uma iniciada, áreas como a Antropologia, a Sociologia e a Literatura.

Seus discos não são meras coleções de faixas, mas “projetos de vida”. Ao transitar entre o asfalto das metrópoles e o barro das zonas rurais, ela costura nossas urbanidades com a nossa interioridade mais profunda. Bethânia não canta apenas o que somos; ela projeta o Brasil que poderíamos ser: um país que honra sua multiplicidade sem perder sua essência.

“Ela é uma das maiores cantoras do século XX no mundo inteiro e ela chegou ao século XXI sendo a maior cantora brasileira.” — Marlon Marcos.

2. O Palco como Terreiro: A Sacralidade e a Dualidade de Oyá

Para Bethânia, o palco é a ressignificação do barracão. Não há separação entre o estético e o sagrado. Sua presença cênica é atravessada pelo arquétipo de Iansã (Oyá), mas com a complexidade que apenas o Recôncavo compreende: a dualidade entre o Búfalo (a aridez, a força bruta) e a Borboleta (a leveza, a transformação).

Ao erguer a saia e a cabeça, ela não está apenas atuando; ela está cavalgando os ventos. Suas mãos, que parecem tatear e reorganizar “seres atmosféricos”, e o gesto de tocar o chão em reverência, são ritos de uma “professora da fé”. É importante notar, como destaca o contexto, que ela não “recebe” a entidade de forma inconsciente. Bethânia serve de veículo consciente para uma espiritualidade que também evoca Oxum, a água doce da Cachoeira da Vitória, lugar de sua ancestralidade em Santo Amaro.

3. Santo Amaro: A Dialética entre a Ruptura e a Permanência

A relação dos irmãos Veloso com sua terra natal revela a tensão criativa que define o Brasil. Se Caetano Veloso é o “poeta de Prometeu ou Ogum”, aquele que elege a ruptura, o novo e a modernidade de Salvador ou do Rio de Janeiro, Bethânia é a personificação da raiz e da permanência.

Enquanto Caetano muitas vezes se afasta para reinventar o mundo, Bethânia precisa do solo. Ela é a religiosidade que fica. Em Santo Amaro, ela não é a diva da MPB, mas a filha de Seu Zezinho e Dona Canô que anda de bicicleta e conversa com as amigas sem aparato de segurança. Sua conexão é física e ritualística: ela “precisa dormir na cidade para sentir a atmosfera”. Eventos como a Purificação ou o aniversário de sua mãe são marcos inegociáveis, pois é neles que ela recarrega a bateria de sua alma baiana.

4. O Apoderamento da Palavra e o “Processo de Limpeza” da Voz

A relação de Bethânia com a palavra é de uma soberania absoluta. Ela não apenas interpreta; ela “se apodera” da canção. Um exemplo emblemático é o episódio narrado por Márcio Valverde sobre a canção Você me perdeu (letra de Nélio Rosa e música de Márcio Valverde), dos versos iniciais “Noves fora quase nada/que era de vidro o anel/ Meia volta na ciranda/ Não há estrelas no céu”. Depois de ouvir Livia Milena cantá-la, a artista parou tudo e perguntou com a autoridade de quem reconhece um destino: “Você dá ela para mim? Você deixa eu gravar?”.

Tecnicamente, Bethânia desafia a biologia. Aos 75 anos, sua voz passou por um admirável processo de limpeza. Enquanto o tempo costuma desgastar o fôlego, Bethânia burilou seu instrumento, tornando-o mais preciso e aveludado. Ela adotou a filosofia do “menos é mais”, privilegiando arranjos econômicos e sofisticados que dão à palavra o centro do palco. Ela popularizou Fernando Pessoa e deu voz a compositores fundamentais como Roque Ferreira, provando que a música é, antes de tudo, uma missão de educar o ouvido do povo.

5. O Despertar pelo “Noturno”: A Canção contra as Trevas

O álbum “Noturno”, gerado sob a sombra da pandemia e do medo da morte, é uma prova da capacidade da arte de transmutar o luto em “rotunda beleza”. Em um momento em que o Brasil parecia desmoronar, Bethânia utilizou sua dramaticidade sob medida para tornar o sofrimento humano suportável.

Há aqui uma crítica profunda: a racionalidade técnica e os projetos dos “iluminados” falharam em dar sentido ao nosso caos social. Foi a canção que conseguiu reconstruir as pontes da esperança. O disco não é apenas um lamento, mas um exercício de equilíbrio que oferece ao brasileiro a coragem necessária para acreditar que o país pode “dar certo” através da educação e do respeito à sua própria cultura.

“A canção fez muito mais para a gente do que esses iluminados todos… a canção nos oferece esperança.” — Marlon Marcos.

Conclusão: Uma Pequena Luz para Levar na Alma

Maria Bethânia encerra ciclos e abre caminhos como uma guardiã da dignidade da língua portuguesa. Sua trajetória nos ensina que a verdadeira resistência não se faz apenas com o grito, mas com a profundidade do silêncio e o rigor da tradição. Ela nos mostra que a cultura é o único território onde o Brasil é, de fato, invencível.

Ao final desta imersão na Filosofia do Recôncavo, resta-nos o convite para a introspecção. Em meio às nossas próprias “trevas” cotidianas, em um mundo que tenta nos desidratar de nossa ancestralidade, qual é a “pequena luz” da nossa cultura que escolheremos fazer brilhar hoje?

texto feito a partir do vídeo abaixo

Veja nosso episódio especial sobre Maria Bethânia:

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