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Renato Russo e a necessidade de descobrir o Brasil

Renato Russo e a descoberta do Brasil

A morte de Renato Russo completa 30 anos, e a pergunta sobre as posições políticas que ele defendia continua mal articulada. Isso porque muitas pessoas tentam afirmar que ele teria uma postura anarquista e defenderia o capitalismo de modo irrestrito — uma leitura que faz aceno à direita e a posições de “isenção”. É como se a pergunta “Que país é este?” fosse um apelo aceleracionista para destruir “tudo o que está aí”. Essa interpretação representa uma segunda morte para o trabalho de Renato Russo.

O movimento punk e o movimento hip-hop têm um ponto em comum: a postura crítica em relação à própria comunidade e às formas de discurso utópico. A ausência de futuro (no future) por vezes levou ao niilismo e a formas de alienação contra as quais o próprio Renato Russo se posicionou, embora elas também apareçam, por vezes, em suas primeiras canções. É por isso que ele tinha restrições às primeiras músicas que compôs, na fase do Aborto Elétrico, por considerar que elas traziam um discurso de grande violência simbólica, que poderia ser mal direcionado.

Ainda assim, as denúncias feitas nessas letras iniciais tinham um inimigo claro: a ditadura e o fascismo que colonizava o cotidiano. O rock representaria um grito de liberdade em direção à autocriação e à afirmação de identidades e formas de vida que haviam sido abortadas pela ordem autoritária. Para Renato Russo, a possibilidade de liberdade política, sexual e artística nunca poderia ser confundida com o autoritarismo dos militares, nem com posturas que romantizam a violência como se ela tivesse uma potência redentora. É por isso que, na letra de Baader-Meinhof Blues, ele procura descrever como a televisão e a cultura de massa mobilizam nosso tédio cotidiano em favor de posturas destrutivas que celebram a violência.

O próprio nome Renato Russo nos dá pistas inequívocas sobre sua postura política e sobre as dificuldades de expressá-la. O sobrenome Russo foi escolhido como um heterônimo, uma personalidade artística como as criadas por Fernando Pessoa. A escolha fazia referência ao pintor naïf Henri Rousseau: o primitivismo de sua obra rimava com a estética punk. Também evocava a valorização da intuição e a crítica à técnica presentes na obra de Jean-Jacques Rousseau, assim como seu questionamento das formas de desigualdade e egoísmo normalizadas pelo avanço da técnica. Havia ainda a referência ao filósofo britânico Bertrand Russell, associada ao pacifismo e ao liberalismo. Essa referência aparecia de modo mais forte no heterônimo anterior de Renato, que surge nos escritos publicados postumamente sobre a banda imaginária que ele criou na adolescência: Eric Russel.

Mas essas referências estão incompletas, e o próprio Renato tratou de omitir a principal inspiração de sua alquimia identitária: o militante LGBT, crítico e historiador do cinema Vito Russo (1946–1990), autor do livro The Celluloid Closet, no qual mostrava como Hollywood retratava gays e lésbicas nos filmes, atribuindo conotações negativas a tudo o que fosse feminino ou afeminado. Renato Russo sempre se posicionou no sentido de resgatar o sagrado feminino, buscando valorizar as mulheres e se contrapor a esse discurso hegemônico na cultura de massa. No entanto, diante da homofobia, preferiu omitir a principal inspiração de seu nome artístico.

É preciso destacar que a posição política de Renato Russo, embora crítica, nunca se traduziu em engajamento partidário e, em alguns casos, mantinha fortes reservas a qualquer forma de supressão da liberdade individual. Duas anedotas mostram isso. Renato afirmou ter votado no então socialista democrático Roberto Freire nas eleições de 1989, dizendo ter confundido o político pernambucano com o homônimo médico e psicanalista, autor do livro Sem tesão, não há solução. Mas é pouco crível que uma pessoa informada, que conhecia o psicanalista, cometesse esse erro. Em outra anedota, durante um jantar na Itália, enquanto os comensais falavam animadamente sobre Cuba, Renato protestou de forma veemente, perguntando o que acontecia com um maricone como ele naquele regime. Teria citado Reinaldo Arenas e a perseguição aos homossexuais cubanos.

No começo da década de 1990, Renato denunciou a normalização do fascismo e criticou os jornais que davam espaço a pessoas que defendiam a volta da ditadura. Durante o impeachment de Fernando Collor, a imprensa deu espaço ao jovem deputado Jair Bolsonaro, que pregava a volta dos militares. Os jornais minimizavam esse discurso com o argumento de que ele teria o apoio de apenas uma parcela minoritária da população, cerca de 30%. Os discos de Renato Russo em inglês e italiano fazem parte desse contexto de engajamento na luta contra posturas autoritárias: celebram os 25 anos de Stonewall e retomam uma Itália de imigrantes antifascistas, pessoas que vieram ao Brasil em busca de liberdade e para lutar por um mundo melhor. Não por acaso, no disco em italiano, o cantor celebra a figura de Maria e faz questão de enfatizar sua reprovação à atitude desrespeitosa de quem havia chutado uma imagem da santa. Independentemente de sua identidade religiosa, precisamos cultivar o respeito e resgatar o sagrado feminino.

Por tudo isso, se Renato Russo estivesse vivo hoje, não teria dúvida em apoiar a defesa da democracia contra o discurso machista, armamentista, fascista, entreguista e burro.

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