Moçambique na mesa ou no menu?
“se não estás na mesa, estás no menu”

ensaio de Severino Ngoenha

A frase viral que ecoou em Davos – “se não estás na mesa, estás no menu” – foi pronunciada pelo primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, no World Economic Forum. Ela ganha peso filosófico porque nomeia, sem ornamentos, a estrutura do nosso tempo: um intervalo de vacatio legis (vacância de norma) em que uma ordem se desfaz mais depressa do que outra se consolida – e, portanto, em que alguém inevitavelmente se sentará para reescrever as regras de pertencimento, comércio, segurança, tecnologia e legitimidade. O aforismo não descreve só o mundo: ele impõe uma alternativa existencial. E é precisamente aí que a filosofia se torna método, e não adereço.
Georg Wilhelm Friedrich Hegel dizia que a filosofia é “o seu tempo apreendido por conceitos”. Se isso é verdadeiro, então o nosso dever não é comentar a mutação, mas apreendê-la; e, com Karl Marx, lembrar que compreender não basta quando o chão histórico se desloca: há momentos em que pensar é já escolher o lado da transformação. O problema, porém, é que o continente parece ter escolhido o lado errado: o silêncio. Um silêncio pesado, institucional, quase clínico – como mudez, anestesia e abdicação – no exacto instante em que “mesa” e “menu” se redistribuem.
O silêncio institucional é particularmente revelador porque não é ausência de voz: é falha de direção. A União Africana e os blocos regionais conseguem, por vezes, ser rápidos para punir e lentos para propor; capazes de sancionar onde seria preciso mediar; capazes de repetir liturgias diplomáticas onde seria preciso instituir um telos comum. O caso da CEDEAO é exemplar: no Sahel, a energia política recente foi muitas vezes consumida por lógicas de sanção e ultimato em contextos de fractura interna – e, na Guiné-Bissau, a própria presença regional degenerou em atrito, ameaças de expulsão e retirada de missão, sinal de fragilidade de autoridade e de horizonte. A mensagem que chega aos povos é devastadora: as instituições que deveriam produzir “comum” aparecem como gestoras de disciplina – e não como arquitectas de futuro.
Na África Austral, a situação não é menos inquietante. A SADC, que teve em seu nascimento uma promessa de convergência política e estratégica, tende hoje a ser percebida como um espaço de negociação económica e competição interna – onde a assimetria de força transforma integração em divergência e onde os mais fracos se tornam administráveis pelos mais fortes. É neste tipo de ecologia institucional que um país pequeno perde, primeiro, a iniciativa; depois, a voz; por fim, o direito de ser sujeito. E, quando a região se cala, o continente aprende a calar. O resultado é simples: estamos no menu, porque aceitamos a gramática do menu.
É aqui que Moçambique não pode repetir a inércia continental. Não por narcisismo histórico, nem por nostalgia, mas por uma razão filosófica dura: a irrelevância tem custo ontológico. Um país pode sobreviver biologicamente e desaparecer politicamente; pode manter bandeira e perder lugar; pode ter Estado e perder destino. A pergunta “mesa ou menu?” não é retórica: é diagnóstico da nossa situação de ser-no-mundo.
E, no entanto, a nossa história – precisamente a história de um país objetivamente frágil – desmente o fatalismo. Moçambique já foi, contra todas as probabilidades, lugar de pensamento estratégico e de invenção diplomática. Antes mesmo de a luta ganhar forma militar plena, a CONCP já mostrava que geografia não é destino: coordenação é uma técnica de liberdade. A direção política da época fundadora (sem romantização) compreendeu algo decisivo: sem teleologia – visão, objetivo, telos – a força dispersa vira ruído. Foi esse telos que permitiu transformar uma causa particular em causa humana, mobilizando redes africanas e globais.

Durante a luta, Eduardo Mondlane simboliza essa inteligência estratégica que se recusa ao isolamento: a política como construção de alianças, e a diplomacia como extensão da ética. A culminância simbólica dessa capacidade de converter singularidade em universalidade foi o encontro de Marcelino dos Santos, Amílcar Cabral e Agostinho Neto com o Papa Paulo VI: ali, a luta deixava de ser “assunto colonial” para se tornar questão moral mundial. (Este é o ponto filosófico: quando uma comunidade domina a linguagem do universal, ela reduz a probabilidade de ser tratada como menu.)
Depois da independência, mesmo sob agressões externas e constrangimentos económicos, Moçambique não foi apenas vítima: foi actor. O Centro de Estudos Africanos (CEA) tornou-se um polo que pensava África e o mundo a partir de Maputo, e não apenas África “sobre” África. A prática internacionalista – acolher perseguidos políticos de várias geografias, participar em redes regionais, contribuir para a arquitetura da Linha da Frente, apoiar processos que culminaram na independência do Zimbábwe – tinha um fundamento: sem músculos comparáveis aos das potências, o recurso decisivo era a cabeça. Um país pequeno pode não impor; mas pode orientar, se produzir sentido, estratégia e agenda.
Por que, então, o desaparecimento? A resposta não é só económica, nem apenas militar. É filosófica: perdemos o horizonte. Os Acordos de Roma trouxeram ganhos reais – abertura, pluralidade, liberdades – mas, ao mesmo tempo, deslocaram o centro de gravidade do país para um curto-prazismo esterilizante, onde a teleologia comum foi substituída por gestão de sobrevivência, por agendas importadas e por um pragmatismo sem ideia de destino. O preço dessa privação do horizonte não é abstrato: cresce a desigualdade, instala-se a fractura do comum, e a juventude é empurrada para um niilismo duplo – niilismo por falta de futuro e niilismo reactivo que confunde destruição com justiça. Quando o telos desaparece, as liberdades ficam sem chão: tornam-se forma sem mundo.
Aqui, convém dizer com clareza: o problema não é “falta de informação” – sabemos o que acontece nos EUA, na China, no Médio Oriente. O problema é outro: isso pode degenerar em intelectualismo efémero se não produz a pergunta decisiva: o que Moçambique pode fazer para estar na mesa? Pensar o mundo “a partir de nós” não é provincianismo; é o único modo de transformar conhecimento em poder político. Há uma diferença entre erudição e orientação: a primeira acumula; a segunda dirige.
É por isso que a exigência agora deve ser formulada sem burocratização, mas com nome próprio: Moçambique precisa voltar a ser um lugar de pensamento – um think tank nacional no sentido conceitual, não administrativo: um dispositivo permanente de elaboração estratégica que reúna inteligência (a capacidade individual de compreender e decidir) e intelligentia (a comunidade pensante, capaz de produzir direção comum). Sem essa síntese, a unidade vira palavra; com essa síntese, a unidade torna-se técnica de poder.
E aqui entra a ideia crucial: unidade é técnica de poder. Ela não é moralismo nem slogan; é engenharia histórica. É assim que as “potências médias” de Carney tentam evitar a irrelevância; e é ainda mais verdadeiro para países pequenos. Mas a unidade não se auto-produz: ela precisa de piloto. O pensamento – quando assume teleologia e estratégia – é esse piloto. Moçambique pode, pela sua experiência e posição, ser motor de pilotagem regional: reintroduzir na SADC uma ideia de telos comum que não reduza integração a mercado; recolocar a questão da cidadania regional, da distribuição mínima de benefícios, da segurança comum e da voz comum. Não se trata de hegemonia, mas de gravitação intelectual: reabrir a possibilidade de que a região fale como região, para que o continente fale como continente.
A nossa singularidade linguística – ser um país lusófono num espaço maioritariamente anglófono – pode ser lida como desvantagem (isolamento), mas também como vantagem estratégica: um corredor de tradução política e diplomática entre blocos, línguas e imaginários. Num mundo organizado em blocos, quem traduz e articula pode tornar-se indispensável. Isso exige, porém, que não usemos a diferença para nos fechar, mas para abrir: fazer dela instrumento de mediação e de invenção.
Nada disso se fará devagar. Em períodos de vacatio legis, o intervalo é curto: a mesa forma-se rapidamente; quando se fecha, reabre-se tarde e contra nós. As diplomacias lentas, bilaterais, administrativas, podem ser insuficientes. O tempo não nos oferece conforto; o tempo desafia-nos com uma disjunção grave: ou assumimos a urgência como missão, ou aceitamos que outros decidam por nós. E, se a África permanece calada, essa é precisamente a razão para Moçambique falar – não como ruído, mas como proposta.
Aqui entra Ernst Bloch: esperança não é espera; é produção. Esperança autêntica é energia prática que constrói condições de possibilidade. Isso significa: ousar instituir telos, ousar convocar inteligência e intelligentia, ousar pilotar a unidade como técnica de poder, ousar recolocar Moçambique como lugar de pensamento estratégico regional para que a região pese, o continente pese, e as diásporas se reencontrem como força histórica. No latim clássico, a fórmula não é sentimental: é injunção – sapere aude – “ousa saber”, em Horace, depois reativada por Immanuel Kant como ética da maioridade. A nossa versão, hoje, é mais dura: ousar pensar para não desaparecer.
O fecho, portanto, não é denúncia: é convocatória. Existe um imperativo existencial – permanecer sujeito, não objeto – e daí decorre um imperativo estratégico: recusar o custo da irrelevância. Se não tivermos músculos comparáveis, que a cabeça seja o nosso músculo; se não tivermos império, que tenhamos orientação; se o continente hesita, que a nossa voz organize uma direção. O mundo não espera; a mesa não é caridade; a história não absolve a resignação. Moçambique na mesa ou no menu não é pergunta para jornais: é pergunta para a consciência nacional.
