texto de Gonçalo Armijos Palácios*

O conhecimento do que os grandes filósofos pensavam de seus antecessores nos permite uma maior compreensão de sua particular concepção de filosofia. Completamente oposto à concepção do jovem Wittgenstein, para quem a filosofia anterior não passava de um acúmulo de enunciados sem sentido, Hegel concebia a existência de um processo milenar em que cada filósofo, cada sistema filosófico, contribui, não só para o progresso, mas para a consolidação do que seria “a” filosofia.
Hegel pensava que a filosofia era una. Tenho a impressão de que a maioria das pessoas que pensam nela coincide com o filósofo alemão. Assim como pensamos que há apenas uma física, uma química etc. Não imaginamos que haveria outra Tabela Periódica dos Elementos. Os elementos químicos conhecidos, então, estão nessa única tabela. Do mesmo modo, temos a intuição de que não poderia haver várias filosofias, no sentido de diversas e mesmo opostas, pois isso fere nossa ideia geral de que a filosofia deve ser una. O anterior contém o suposto de que não haveria diversas teses filosóficas no sentido de serem opostas. Se houver teses filosóficas, no plural, também haveria uma pluralidade de verdades filosóficas. Mas todas elas deveriam estar em concordância, não poderiam se opor, pois umas seriam verdadeiras e outras falsas. O que iria contra aquela unicidade da filosofia, como concebida por Hegel.
Hegel, pelo dito, concebe a filosofia como uma ciência. Não sei se há alguém, hoje, que concorde com essa concepção. Pois mesmo se uma ou outra teoria filosófica fosse considerada verdadeira nem por isso deveria ser considerada uma ciência. Talvez hoje se pense – como eu mesmo penso – que as diversas teorias filosóficas estão no limiar do científico, do lado de lá, de fora, não dentro da ciência. E também, o que é algo decisivo, não fariam parte de uma filosofia. Para usar uma expressão da filosofia da ciência de Thomas Kuhn, hoje há o consenso de que as teorias filosóficas seriam “incomensuráveis”. Por várias razões interessantes. Não falariam “da” realidade, como se fala de um planeta. A “realidade” não passa de um construto teórico. Tampouco haveria consenso em dizer que há “teorias” científicas. No sentido de uma teoria científica clássica. Talvez se empregue o termo “teoria”, hoje, num sentido muito vago, não mais no sentido duro clássico – no sentido newtoniano, isto é.
Nas suas Lições sobre a história da Filosofia, Hegel, no chamado “Manuscrito de Heidelberg”, de 1817, diz: A mencionada circunstância torna necessário, em nenhuma outra ciência mais do que na História da Filosofia, adiantar uma Introdução e determinar seu objeto cuja história deve ser apresentada.1 Esta é uma afirmação extremamente forte. Perceba-se, fala-se “do” objeto da filosofia. Haveria um. E esse objeto é, para Hegel, uma realidade em transição, em evolução, isto é, em desenvolvimento. Estamos frente a uma concepção única. A filosofia “cresce”, para usar meu conceito, assim como crescem e se desenvolvem os animais. Todo momento da vida desse ser depende e é o resultado dos momentos anteriores que, num sentido, não desapareceram, não acabaram, apenas deram lugar a uma transformação, a uma metamorfose.
Hegel pergunta a seguir: “Mas, então, alguém poderia dizer, como devemos começar a tratar um assunto cujo nome é tão comum, mas do qual não sabemos o que ele é?”2 Surge aqui um paradoxo, que representa também uma dificuldade teórica. Se houvesse esse desenvolvimento milenar da filosofia, cada um dos grandes filósofos que no passado contribuíram para esse desenvolvimento o faziam, num sentido, sem saber o que estavam fazendo, na medida em que não sabiam em que iria terminar tudo isso que estavam ajudando a desenvolver. Sabiam o que especificamente estavam fazendo, mas desconheciam no que iria dar tudo isso que seu trabalho ajudava a desenvolver. Aliás, nem sabiam que eram apenas “colaboradores” de uma tarefa coletiva da qual não tinham a menor noção. Este é um dos resultados que torna difíci aceitar a concepção, não apenas de que a filosofia é una, mas de que ela tende a um fim. Em mais de dois mil anos de filosofia, de fato, se ela chega a um fim, apenas o último filósofo ou filósofa, quem de fato tomasse consciência de todo esse processo, saberia realmente que era, em essência, a filosofia.
Do anterior resulta que os antigos gregos, os iniciadores do que o mundo chamou de filosofia, criaram algo cuja essência eles mesmos desconheciam. Eles, aliás, e o resto dos grandes filósofos e filósofas da história.

1 Der genannte Umstand macht es wohl bei keiner Wissenschaft so notwendig als bei der Geschichte der Philosophie, ihr eine Einleitung vorangehen zu lassen und erst den Gegenstand festzusetzen, dessen Geschichte vorgetragen werden soll. Hegel, G. W. F. Vorlesungen über die Geschichte der Philosophie. Vol. I. Frankfurt am Mein, Suhrkamp, 1971, p. 17.
2 Denn, kann man sagen, wie soll man einen Gegenstand abzuhandeln anfangen, dessen Name wohl geläufig ist, von dem man [aber] noch nicht weiß, was er ist. (Ibidem)
*Gonçalo Armijos Palácios
José Gonzalo Armijos Palácios possui graduação e doutorado em Filosofia pela Pontificia Universidad Católica Del Ecuador (1978 e 1982, respectivamente) e doutorado em Filosofia pela Indiana University (1989). Realizaou estudos de pós-doutorado na Indiana University em 1996 e 1997. Desde1992 é professor titular da Universidade Federal de Goiás. Tem experiência na área de Filosofia, atuando principalmente nos seguintes temas: filosofia, metafilosofia, filosofia política e ensino de filosofia. Participou do Grupo de Sustentação para a criação do GT Filosofar e Ensinar a Filosofar, em 2006, do qual foi seu primeiro coordenador eleito. Foi o fundador do Curso de Pós-Graduação em Filosofia da UFG (1993), da revista Philósophos (1996), do Curso de Graduação em Filosofia da cidade de Goiás da UFG, em 2008, e participou da criação do Campus Cidade de Goiás da UFG em 2009.
