texto de Gonçalo Armijos Palácios*

Uma das afirmações que mais chamou minha atenção ao ler as Lições de História da Filosofia de Hegel, especificamente na seção sobre Heráclito, foi esta: “Aqui vemos terra; não há uma só proposição de Heráclito que não a tenha incorporado na minha Lógica”. Não conheço outro grande autor, excetuando Marx, que tenha dado tanto crédito aos seus predecessores. Só que este reconhecimento é único, pois está, simplesmente, valorizando tudo aquilo que encontrou em Heráclito. Isso choca frontalmente com, por exemplo, o costume cartesiano de não reconhecer suas dívidas aos mais importantes filósofos medievais – dos quais tomou “emprestados” argumentos centrais, sem o menor reconhecimento. O fragmento é belo, de início, pela sua metáfora náutica. “Ver terra” é o que os marinheiros ansiavam desde tempos imemoriais quando voltavam de suas longas viagens. Chegar no seu porto seguro, em terra firme. Foi essa terra firme heraclitiana que serve de fundamento ao pensamento hegeliano, por própria confissão.
Por coincidência, estou trabalhando em duas disciplinas em que, nos últimos dias, tenho discutido os fragmentos de Heráclito e a concepção de filosofia da história de Hegel. E dias atrás lembrava daquela passagem nas outras Lições (as da História da Filosofia) em que Hegel faz esse reconhecimento tão marcante do pensamento de Heráclito. E por ter presente os textos de ambos os pensadores vi algumas semelhanças sobre um assunto específico, a questão do público e do privado, e do universal e particular.
Num fragmento diz Heráclito: οὐκ ἐμοῦ ἀλλὰ τοῦ λόγου ἀκούσαντος ὁμολογεῖν σοφόν ἐστιν ἓν πάντα εἶναι. (DK 50) “Não por ter ouvido de mim, mas do lógos, é sábio concordar, [pois] tudo é um”. Noutras palavras, não por ouvir e aprender de mim, de uma razão particular, mas aprender de uma racionalidade superior, universal, que abrange e controla tudo, é sábio concordar e concluir que todas as coisas são uma; são parte da mesma realidade única. Isto é, não há varias realidades, mundos ou mundinhos em que cada um viva privadamente, separado dos outros. O lógos de Heráclito, essa essência racional que tudo o perpassa permite a comunidade do conhecimento e a comunidade da vida. Vivemos num mundo que é comum a todos nós, e cujo conhecimento, portanto, deve ser comum a todos. O conhecimento é comum, não é algo privado. Não há leis da natureza singulares, próprias para cada um de nós. E o mundo em que vivemos, a cidade, a pólis, são, também, comuns a todos. Não vivemos em mundos separados, isolados uns dos outros.
No seguinte fragmento, diz Heráclito: “Por isso é necessário estar atento ao que é comum. Mas sendo o lógos comum vivem muitos como se tivessem uma inteligência particular.”1 A grande maioria de textos se traduz ἕπεσθαι (hépesthai) por “seguir”, inclusive o clássico dos clássicos que é a edição canônica de Diels-Kranz. Mas permito-me discordar dessa tradução porque “ἕπεσθαι” (hépesthai) tem também, no grego antigo, o significado de “estar atento”. A passagem está num contexto claramente epistêmico; pois se trata de “estar de olho” na essência do lógos, que é comum. Não é uma ação passiva, de submissão ou de obediência, mas de uma ação intelectual viva, desperta.
Os gregos distinguiam aquele membro da pólis que participava das assembleias, se preocupava pelo bem comum, e aquele que só olhava para si mesmo e vivia no seu mundo particular. Um era o πολίτης (polítes), o cidadão, o outro, o ἰδιώτης (idiótes).
Hegel também fará essa distinção, aquela entre as grandes personalidades da história que têm como sua motivação um fim geral, amplo, universal, e aqueles que só pensam nos seus próprios interesses e vivem nos seus mundos privados.
Curiosamente, o “idiótes” e o “polítes” se misturam nos últimos tempos. O “idiótes” de hoje é aquele que percebeu que pode lucrar mais e garantir seus estreitos interesses como membro de assembleias e legislaturas, fantasiado de “polítes”, com o único objetivo de legislar em seu próprio benefício.
Nota:
1 διὸ δεῖ ἕπεσθαι τῷ <ξυνῷ>· τοῦ λόγου δ´ ἐόντος ξυνοῦ ζώουσιν οἱ πολλοὶ ὡς ἰδίαν ἔχοντες φρόνησιν. (DK 2).
*Gonçalo Armijos Palácios
José Gonzalo Armijos Palácios possui graduação e doutorado em Filosofia pela Pontificia Universidad Católica Del Ecuador (1978 e 1982, respectivamente) e doutorado em Filosofia pela Indiana University (1989). Realizaou estudos de pós-doutorado na Indiana University em 1996 e 1997. Desde1992 é professor titular da Universidade Federal de Goiás. Tem experiência na área de Filosofia, atuando principalmente nos seguintes temas: filosofia, metafilosofia, filosofia política e ensino de filosofia. Participou do Grupo de Sustentação para a criação do GT Filosofar e Ensinar a Filosofar, em 2006, do qual foi seu primeiro coordenador eleito. Foi o fundador do Curso de Pós-Graduação em Filosofia da UFG (1993), da revista Philósophos (1996), do Curso de Graduação em Filosofia da cidade de Goiás da UFG, em 2008, e participou da criação do Campus Cidade de Goiás da UFG em 2009.
