Um clássico do Evangelho Social contra a ideia de que fé cristã e justiça social são incompatíveis
Há uma narrativa insistente segundo a qual o cristianismo pertenceria naturalmente à direita, enquanto a preocupação com desigualdade, exploração e justiça social seria estranha à fé cristã. Essa narrativa só se sustenta mediante o apagamento de uma parte decisiva da própria história do cristianismo.
Walter Rauschenbusch (1861–1918), pastor batista e um dos principais pensadores do movimento conhecido como Evangelho Social, construiu sua teologia a partir das consequências sociais da mensagem de Jesus. Para ele, a fé cristã não poderia limitar-se à salvação individual: deveria enfrentar as estruturas que produzem pobreza, opressão e degradação da vida humana.
No capítulo “Ao lado do povo”, publicado originalmente em 1916, Rauschenbusch sustenta que Jesus tomou partido das pessoas comuns. Sua interpretação percorre os Evangelhos, os profetas hebreus e a história do cristianismo para mostrar que a solidariedade com os pobres não é um acréscimo político à mensagem cristã, mas uma de suas consequências fundamentais. A própria Igreja, afirma ele, nasceu da sensibilidade de Jesus diante do sofrimento social.
O texto não pertence ao nosso tempo e conserva expressões, pressupostos e limitações do início do século XX, assinalados nesta edição. Sua questão central, entretanto, permanece incômoda e atual: de que lado estão aqueles que afirmam seguir Jesus?
Publicar Rauschenbusch hoje não significa transformá-lo retrospectivamente em integrante de algum partido contemporâneo. Significa recuperar uma tradição cristã que foi frequentemente silenciada e recordar que a defesa dos trabalhadores, dos pobres e dos socialmente oprimidos possui raízes profundas na história do pensamento cristão.
Apresentamos a seguir o capítulo III de The Social Principles of Jesus. O texto original encontra-se em domínio público.
Capítulo III — Ao lado do povo
Nota do tradutor: As passagens bíblicas foram traduzidas a partir da versão inglesa reproduzida por Rauschenbusch, preservando-se, quando possível, o registro bíblico do original. As referências bíblicas seguem o uso brasileiro. Expressões como “débeis mentais” e “escória embrutecida dos cortiços urbanos” reproduzem o vocabulário social do autor, hoje inaceitável, e são mantidas com essa advertência. As traduções poéticas de James Russell Lowell e Ebenezer Elliott são traduções livres, feitas para esta edição.
Encontramos dois princípios sociais simples e axiomáticos nas convicções fundamentais de Jesus: o caráter sagrado da vida e da personalidade, e a solidariedade espiritual da humanidade. Perguntemos agora como uma consciência orientada por essas convicções reagiria diante das condições reais da sociedade — diante do desprezo pela vida e da negação da obrigação social então existentes. Como veria o dever dos fortes, e o seu próprio dever?
Leituras diárias
Primeiro dia: a plataforma social de Jesus
E foi a Nazaré, onde fora criado; e, segundo o seu costume, entrou na sinagoga no dia de sábado e levantou-se para ler. Foi-lhe entregue o livro do profeta Isaías. Abrindo-o, achou o lugar onde estava escrito:
O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para pregar boas-novas aos pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e proclamar o ano aceitável do Senhor.
Fechou o livro, devolveu-o ao assistente e sentou-se. Todos na sinagoga tinham os olhos fixos nele. Então começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta Escritura que acabais de ouvir. E todos lhe davam testemunho e se maravilhavam das palavras de graça que saíam de sua boca; e diziam: Não é este o filho de José? — Lc 4,16-22.
Lucas evidentemente percebeu que essa ida de Jesus à sinagoga de sua cidade natal, no início de sua obra pública, era uma ocasião significativa. A passagem de Isaías (Is 61,1s) era, sem dúvida, uma das citações favoritas de Jesus. Ele via nela o resumo de seus próprios objetivos e agora a anunciava como seu programa. Suas promessas estavam prestes a se realizar. Quais eram? Boas-novas para os pobres, libertação para os presos, vista para os cegos, liberdade para os oprimidos e um “ano de Jeová”. Se isso era uma alusão ao ano do Jubileu (Lv 25), envolvia uma revolucionária libertação dos encargos e das dívidas, como a que Sólon promoveu em Atenas. De qualquer modo, emancipação social e religiosa estão entrelaçadas nessas frases. Claramente Jesus via sua missão como reerguer para uma vida livre e plena aqueles que a vida havia mantido abatidos e feridos.
“Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei.” A plataforma de Jesus deve ser nossa plataforma e nosso programa?
Segundo dia: o teste social do Messias
E os discípulos de João contaram-lhe todas essas coisas. João, chamando dois de seus discípulos, enviou-os ao Senhor, dizendo: És tu Aquele que havia de vir, ou esperamos outro? Quando aqueles homens chegaram a ele, disseram: João Batista enviou-nos a ti, dizendo: És tu Aquele que havia de vir, ou esperamos outro? Naquela mesma hora, curou muitos de doenças, pragas e espíritos malignos; e a muitos cegos deu vista. E respondeu, dizendo-lhes: Ide e contai a João o que vistes e ouvistes: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres são pregadas boas-novas. E bem-aventurado é aquele que não se escandalizar em mim. — Lc 7,18-23.
Jesus era Aquele que havia de vir? Ele não correspondia exatamente às expectativas de João. O Messias deveria purgar o povo dos maus elementos, separando a palha do trigo e queimando-a. Seu símbolo era o machado. Jesus não manifestava esse espírito. Era ele então o Messias?
Jesus transferiu o teste para outro campo. O sofrimento humano estava sendo aliviado e os pobres recebiam a proclamação de boas-novas. A solidariedade com o povo era o terreno comum indiscutível entre Jesus e João. Jesus sentia que João reconheceria o alvorecer do reinado de Deus pelas evidências que lhe oferecia.
Qual seria, então, a evidência adequada de que o reinado de Deus está ganhando terreno em nosso pensamento e em nossa sensibilidade?
Terceiro dia: a Igreja, produto da sensibilidade social
E Jesus percorria todas as cidades e aldeias, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando todas as doenças e enfermidades. Mas, vendo as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam aflitas e exaustas, como ovelhas sem pastor. Então disse a seus discípulos: A seara é realmente grande, mas poucos os trabalhadores. Rogai, pois, ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara. E, chamando seus doze discípulos, deu-lhes autoridade sobre espíritos imundos, para expulsá-los, e para curar todas as doenças e enfermidades. — Mt 9,35-10,1.
A escolha dos Doze — sua organização em duplas e sua atuação como mensageiros autônomos — constituiu o mais importante ato organizador de Jesus. Desse ato surgiu, por fim, a Igreja cristã. Observe agora que motivos levaram a isso. Jesus estava aliviando a miséria social. O peso dessa miséria o oprimia. Os verbos gregos são muito inadequadamente traduzidos por “aflitas e exaustas”. O primeiro significa “esfoladas, acossadas”; o segundo significa “lançadas ao chão, prostradas”. O povo era como um rebanho de ovelhas depois que os lobos deram cabo delas. Havia escassez de verdadeiros líderes. Então Jesus recorreu aos homens que tinha ao seu lado e organizou o apostolado — para quê? A Igreja nasceu da sensibilidade social de Jesus diante do sofrimento do povo comum.
Em que medida, em sua opinião, a Igreja hoje compartilha a sensibilidade social de Jesus diante da condição do povo e cumpre o propósito para o qual ele organizou o apostolado? Ou a condição do povo mudou de modo que suas necessidades sociais são menos urgentes?
Quarto dia: Jesus tomou partido
E, levantando os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. Bem-aventurados vós que agora tendes fome, porque sereis fartos. Bem-aventurados vós que agora chorais, porque haveis de rir. Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem, e quando vos separarem da companhia deles, e vos injuriarem, e rejeitarem o vosso nome como mau, por causa do Filho do homem. Alegrai-vos naquele dia e exultai, porque eis que é grande o vosso galardão nos céus; porque assim faziam seus pais aos profetas. Mas ai de vós, ricos! porque já recebestes a vossa consolação. Ai de vós que agora estais fartos! porque tereis fome. Ai de vós que agora rides! porque lamentareis e chorareis. Ai de vós quando todos os homens falarem bem de vós! porque assim faziam seus pais aos falsos profetas. — Lc 6,20-26.
Nessas Bem-aventuranças, como Lucas as relata, Jesus claramente toma partido dos humildes. Ele diz que Deus e o futuro não estão do lado dos ricos, dos saciados, dos devotos do prazer, dos que sempre ficam do lado da opinião dominante. Em última análise, o veredito final favorecerá aqueles que agora são pobres e subnutridos, que carregam o maior peso e que precisam defender o lado impopular. No relato das Bem-aventuranças dado por Mateus (5,3-12), os termos são menos sociais e mais espirituais, e o contraste entre as classes alta e baixa não é tão marcado; mas mesmo ali a promessa da grande reversão das coisas é para os humildes e pacíficos, os duramente atingidos pela vida e rejeitados; eles herdarão a terra, e também o reino de Deus.
Tornaria Jesus um mestre mais sábio e uma figura mais nobre se ele tivesse invertido suas simpatias?
Quinto dia: salvação por meio do povo comum
Naquela mesma hora, exultou Jesus no Espírito Santo e disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos; sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. — Lc 10,21.
Pois considerai a vossa vocação, irmãos, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados. Mas Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios; e Deus escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e as coisas vis do mundo, e as desprezadas, Deus escolheu, e as que não são, para reduzir a nada as que são; para que nenhuma carne se glorie diante de Deus. — 1Cor 1,26-29.
Os resultados concretos de seu trabalho mostraram a Jesus que sua mensagem encontraria acolhida entre as pessoas simples, não entre a classe dos eruditos. Ele recebeu esse fato com um ímpeto de alegria e louvou a Deus por ter sido assim. Paulo constatou o mesmo alinhamento na Igreja primitiva. As classes superiores se mantiveram afastadas por orgulho de berço ou de instrução, ou pela cautela de quem tem riqueza a perder. Para inaugurar uma nova ordem, Deus precisou apoiar-se na gente comum.
O que Jesus via nos humildes que tanto o atraía?
Sexto dia: Jesus, um homem do povo
E, quando se aproximaram de Jerusalém e chegaram a Betfagé, ao monte das Oliveiras, então Jesus enviou dois discípulos, dizendo-lhes: Ide à aldeia que está defronte de vós, e logo encontrareis uma jumenta amarrada, e um jumentinho com ela; soltai-os e trazei-mos. E, se alguém vos disser alguma coisa, direis: O Senhor precisa deles; e logo os enviará. Ora, tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta:
Dizei à filha de Sião: Eis que o teu Rei vem a ti, manso e montado num jumento, e num jumentinho, filho de jumenta.
E os discípulos foram e fizeram como Jesus lhes ordenara, e trouxeram a jumenta e o jumentinho, e puseram sobre eles suas vestes; e ele montou neles. E a maior parte da multidão estendeu suas vestes pelo caminho; e outros cortavam ramos das árvores e os espalhavam pelo caminho. E as multidões que iam adiante dele e as que o seguiam clamavam, dizendo: Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas alturas! E, quando ele entrou em Jerusalém, toda a cidade se agitou, dizendo: Quem é este? E as multidões diziam: Este é o profeta Jesus, de Nazaré da Galileia. — Mt 21,1-11.
Aqui estava uma procissão democrática! Nenhum corcel ajaezado, mas um burrinho jovem e fogoso, cuidadosamente escolhido — nenhuma escolta militar com banda marcial e mestre de banda, mas uma multidão de camponeses, entoando os salmos de seus antepassados e proclamando a esperança de tempos melhores; nenhum tapete caro para forrar o caminho do Rei, mas as vestes suadas de gente trabalhadora e ramos arrancados por mãos de galileus. O que era ele, esse Rei do futuro, ridículo ou sublime?
Se Jesus algum dia fizer sua entrada na soberania espiritual da humanidade, as classes sociais se alinharão como se alinharam em Jerusalém?
Sétimo dia: o teste final para todos
Mas, quando o Filho do homem vier em sua glória, e todos os anjos com ele, então se assentará no trono de sua glória; e diante dele serão reunidas todas as nações; e ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos; e porá as ovelhas à sua direita, mas os cabritos à esquerda. Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era estrangeiro, e me acolhestes; estava nu, e me vestistes; adoeci, e me visitastes; estava na prisão, e fostes ver-me. Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, e te acolhemos? ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te? E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que, quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes. Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos; porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; era estrangeiro, e não me acolhestes; estava nu, e não me vestistes; enfermo, e na prisão, e não me visitastes. Então eles também responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos? Então lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim. E estes irão para o castigo eterno, mas os justos para a vida eterna. — Mt 25,31-46.
“Donde há de vir a julgar os vivos e os mortos.” Pense nisso: a justiça absoluta finalmente realizada por um Juiz que tudo sabe, num julgamento em que nenhum privilégio terreno derivado da origem, da riqueza, da instrução ou do poder terá valor e em que todas as máscaras cairão! Segundo que lei e que critério seremos julgados ali? Aqui está a resposta de Jesus: não por credos ou questões eclesiásticas, mas por nossas relações humanas; pela autenticidade de nossa sensibilidade social; por nossa solidariedade prática com nossos semelhantes. Se tivermos vivido em meio à fome, à solidão e à opressão, num país marcado pelo trabalho infantil, pelo desprezo racista, pelas jornadas excessivas, pelos aluguéis extorsivos, pela prostituição, pelos salários justos negados pelos poderosos e pelo aumento do custo de vida para inflar lucros já exorbitantes — se tivermos visto tudo isso e permanecido apáticos, seremos nós os excluídos.
Você e eu — para a direita ou para a esquerda?[^1]
[^1]: Aqui “direita” e “esquerda” designam os lados do Juízo Final; a ressonância política contemporânea é inevitável, mas não se deve atribuir a Rauschenbusch o sentido partidário atual.
Estudo para a semana
Ninguém termina uma leitura sincera dos Evangelhos sem perceber que Jesus nutria profunda solidariedade não apenas pelas pessoas que sofriam ou viviam com limitações, mas também pelas camadas mais pobres de seu país: camponeses, pescadores e artesãos. Ele declarou que sua missão era levar boas-novas a essa classe — não apenas palavras de esperança, mas melhores condições de vida. Em sua concepção, a expectativa da chegada do Reino de Deus significava alívio e libertação concretos para os rebaixados e oprimidos. A sensibilidade humanitária moderna celebra essa dimensão da obra do Salvador; a arte e a literatura gostam de representá-lo sob esse prisma.
I
Sua preocupação com os pobres era o resultado necessário das duas convicções fundamentais discutidas por nós nos capítulos anteriores. Se ele sentia o caráter sagrado da vida, mesmo em suas formas mais humildes e marcadas pelo sofrimento, e se sentia a unidade da família humana de tal modo que as tristezas dos pobres eram suas tristezas, então, é claro, ele não poderia estar à vontade enquanto o povo estivesse “esfolado e prostrado”, “como ovelhas sem pastor”. Onde quer que um grupo tenha desenvolvido verdadeira solidariedade, sua atenção se volta sobretudo para os que mais precisam. “Os sãos não precisam de médico”, disse Jesus; os fortes podem cuidar de si mesmos.
Assim, ele ligou conscientemente o seu destino ao do povo. Dormiu em suas casas, curou suas doenças, comeu do pão deles e dividiu com eles o seu próprio pão. Deu-lhes uma fé, uma esperança de dias melhores e a sensação de que Deus estava do lado deles. Tal fé é mais que comida e bebida. Por sua vez, eles se reuniram ao redor dele e queriam ouvi-lo sem cessar. “O povo comum o ouvia com alegria.”
Além disso, o sentimento de Jesus pelos “pobres” não era a espécie de compaixão que se dedica àqueles cujo corpo ou cuja mente são considerados irremediavelmente debilitados. Seu sentimento era de amor e confiança. Os camponeses galileus, de cujo meio vieram Pedro e João, não eram “débeis mentais”, nem a escória embrutecida dos cortiços urbanos.[^2] Eram as pessoas pacientes e trabalhadoras que sempre compuseram a base de todos os povos. Tinham seus defeitos, e Jesus deve tê-los conhecido. Mas alguma vez os denunciou, ou os chamou de “raça de víboras”? Alguma vez indicou que seus vícios especiais estavam frustrando o Reino de Deus? Precisavam de impulso espiritual e liderança, mas sua natureza era sadia e eram a matéria-prima para a humanidade redimida que ele se esforçava por criar.
[^2]: O original emprega terminologia capacitista e classista hoje inaceitável.
II
Há mais uma qualidade que teremos de reconhecer na atitude de Jesus para com “os pobres”. Ele os via em contraste com “os ricos”. Em meio a todas as variações da sociedade humana, esses dois grupos sempre reaparecem — os que vivem de seu próprio trabalho produtivo, e os que vivem do trabalho produtivo dos outros, sobre os quais exercem controle. Na prática, eles se sobrepõem e se misturam, mas quando tomamos distância suficiente, podemos distingui-los. Na sociedade grega e romana, na vida medieval e em todas as nações consideradas civilizadas — com a irônica exceção, naturalmente, dos próprios Estados Unidos — podemos vê-los lado a lado. Cada grupo condiciona o outro; nenhum existiria sem o outro. Cada classe desenvolve seus próprios hábitos morais e espirituais, seu próprio conjunto de virtudes e vícios. Alguns de nós nasceram na classe alta, alguns na baixa; e nos meios universitários, a maioria provém das camadas intermediárias. Por instinto, pelas experiências da vida ou pela reflexão sobre a vida de nossa sociedade, geralmente damos nossa lealdade moral a um ou a outro, e então tendemos a inclinar-nos para esse lado em toda questão que surge.
Ora, Jesus tomou partido dos trabalhadores. Ele os defendeu. Ele ficou com eles. Não podemos deixar de vê-lo com um braço envolvendo o pobre para protegê-lo e a outra mão erguida em advertência ao rico. Se tivermos alguma dúvida sobre isso, podemos deixar seus contemporâneos decidirem por nós. Claramente o povo reconhecia nele um amigo. As classes governantes tinham o mesmo sentimento por ele? Parece difícil escapar à conclusão de que Jesus não era imparcial entre os dois. Ele, no entanto, era justo? Para o senso estético e para um julgamento moral superficial, as classes superiores parecem, em toda parte, mais agradáveis e atraentes. Para o julgamento moral de Jesus, porém, como veremos mais plenamente em um capítulo posterior, havia algo inquietante e perigoso no caráter espiritual dos ricos, e algo digno de amor e capaz de inspirar esperança no caráter da gente comum. Ele estava certo? Esta é uma questão prática muito importante para todos os que estão dispostos a seguir sua liderança moral.
A percepção de que Jesus defendeu o povo pode ser encontrada em toda a literatura e arte. O poeta norte-americano James Russell Lowell expressou essa percepção em sua “Parábola”, na qual descreve Jesus voltando à terra para ver “como creem em mim os homens, meus irmãos”.
Fundastes vossos tronos e altares, então,
Sobre os corpos e almas dos homens vivos?
E pensais que o edifício perdurará,
Que abriga o nobre e esmaga o pobre?Com portões de prata e barras de ouro
Vós afastastes minhas ovelhas do aprisco de seu Pai;
Ouvi o cair de suas lágrimas
No céu nestes mil e oitocentos anos.Então Cristo buscou um artesão,
um homem de fronte baixa, mirrado e macilento,
e uma menina sem mãe, cujos dedos finos
mal conseguiam afastar dela a miséria e o pecado.Cristo os colocou no meio deles;
e, quando recolheram a barra de suas vestes
por medo da contaminação,
“Vede”, disse ele,
“as imagens que fizestes de mim”.
III
Para compreender historicamente o compromisso de Cristo com o povo, precisamos retornar aos profetas do Antigo Testamento. Eles foram seus antepassados espirituais. Ele alimentou sua mente com seus escritos e amava citá-los. Ora, os profetas hebreus, unânimes, defenderam o povo comum e lançaram a culpa do mal social sobre as classes poderosas. Nenhum pecado foi denunciado por eles com tanta veemência quanto a injustiça, a opressão e a corrupção dos juízes. Mas esses são os pecados que oprimem os humildes, e sempre foram praticados e abafados pelos poderosos. “Ouvi esta palavra, vós, vacas de Basã, que oprimis os pobres, que esmagais os necessitados… Pisoteais o pobre e dele cobrais tributo em trigo; … vós que afligis o justo, que aceitais suborno e negais justiça aos necessitados nos tribunais… Por três transgressões de Israel, sim, por quatro, não retirarei o castigo; porque vendem o justo por prata e o necessitado por um par de sandálias; eles que pisoteiam no pó a cabeça dos pobres” (Am 4,1; 5,11-12; 2,6-7). Miqueias descreve os fortes e astutos expulsando o camponês de sua terra ancestral e a mãe de seu lar pelos artifícios sempre usados para tais fins, juros exorbitantes sobre empréstimos, execução hipotecária em tempos de angústia, “entender-se com o juiz” antes do julgamento, e dureza de coração diante de vidas e felicidades destruídas (Mq 2,1-2; 2,9; 3,1-2). Não podemos menosprezar o discernimento moral dessa singular linhagem de homens. Sua força espiritual continua atuando vigorosamente em nossa civilização cristã, especialmente na contribuição que o povo judeu está dando ao movimento operário.
IV
Entre os gregos e romanos, a vida política e literária era tão completamente dominada pela classe aristocrática que nenhuma sucessão semelhante de defensores do povo poderia surgir. Ainda assim, alguns dos homens que a posteridade recorda com mais veneração foram membros das classes superiores que se tornaram defensores do povo — Sólon, por exemplo, Mânlio e os Gracos.
Nos séculos recentes, as grandes forças da evolução social parecem ter começado a mover-se na direção apontada por Jesus. Desde a Reforma, as instituições religiosas foram, em alguma medida, democratizadas. O povo conquistou alguma participação no poder político e conseguiu utilizá-la, ainda que de maneira limitada, para melhorar sua condição econômica. Passou a ter acesso muito mais amplo à educação do que antes. Antes da eclosão da Grande Guerra,[^3] parecia seguro prever que os trabalhadores conquistariam uma parcela crescente da riqueza social, da segurança, das oportunidades de saúde, da fruição artística e de tudo o que torna a vida digna de ser vivida. Hoje o futuro está fortemente nublado e incerto; mas nossa fé ainda sustenta que mesmo o grande desastre ajudará, em última análise, a enfraquecer as forças despóticas e exploradoras, e tornará a condição do povo comum mais do que nunca a preocupação central da ciência e da ação política.
[^3]: O livro foi publicado em 1916. A expressão “Grande Guerra” designa o conflito posteriormente conhecido como Primeira Guerra Mundial.
Jesus estava ao lado das pessoas comuns muito antes que a democracia entrasse em ascensão. Amava-as, reconhecia seu valor, confiava em suas capacidades latentes e lhes prometeu o Reino de Deus. A religião que fundou, mesmo quando corrompida e controlada pelas classes superiores, constituiu historicamente a base das aspirações populares e associou-se prontamente aos movimentos democráticos. Sua personalidade e seu espírito continuaram a exercer uma força impulsionadora e orientadora sobre muitas pessoas que “foram ao povo”, porque sabiam que Jesus estava com elas. Podemos esperar que a influência social direta de Jesus se torne ainda mais eficaz no futuro, porque a nova interpretação histórica da Bíblia nos ajuda a vê-lo mais claramente em meio à vida social de seu próprio povo.
V
Assim, devemos acrescentar um terceiro princípio social aos dois primeiros. O primeiro era que a vida e a personalidade são sagradas; o segundo, que os seres humanos estão ligados uns aos outros; o terceiro é que os fortes devem ficar ao lado dos fracos e defender sua causa. Em sua descrição do Juízo Messiânico, Jesus propôs reconhecer como seus seguidores somente aqueles que responderam ao apelo da necessidade humana e da solidariedade. Ele criou o apostolado e, com ele, o germe da Igreja, a fim de servir o povo cujas necessidades ele via e sentia.
Como isso diz respeito aos estudantes universitários? Por nossas oportunidades, nossa formação e nossos recursos, estamos entre os fortes. O intelecto disciplinado é armadura e espada. Muitos de nós herdamos posição social e alguma riqueza; pode não ser muito, mas nos eleva acima da pressão brutal da necessidade imediata. Que relação pretendemos ter com a grande massa de homens e mulheres que nasceram sem as oportunidades que recebemos sem esforço? Pretendemos servi-los ou viver à custa deles? Buscaremos alguma forma de poder pela qual possamos viver em abundância, com esforço mínimo e agradável? Nesse caso, dificilmente devolveremos aos nossos semelhantes, por meio de nosso trabalho, tanto quanto deles recebemos sob a forma de conforto e luxo. Seremos parte daquele peso morto que sempre curvou as costas dos pobres. É essa uma ambição honrosa? Ou pretendemos juntar-nos ao trabalho comum da humanidade e assumir nossa parte do fardo? Nossa parte deveria ser mais pesada que a média, porque tivemos formação mais longa e melhor. “A quem muito for dado, muito será exigido.”
O problema moral para as comunidades universitárias se acentua quando lembramos que poucos estudantes pagam integralmente pelo que recebem. Quer nossas instituições sejam sustentadas por impostos ou por dotações, grande parte de suas receitas deriva do trabalho anual da sociedade; as matrículas pagam apenas uma fração das despesas correntes e dos juros sobre o capital investido nas instalações. Mesmo que um estudante pague todas as taxas, ele é em parte beneficiário dos recursos públicos. Os trabalhadores, em última instância, nos sustentam — justamente as pessoas que tantas vezes desejam ardentemente estudar, mas não têm acesso à educação. Alguns se considerariam ricos se recebessem os restos de conhecimento que lançamos ao chão e pisoteamos em nosso fastio intelectual. Receber dessas pessoas os meios de nossa educação e empregá-los na descoberta de novas maneiras de continuar vivendo à custa delas deveria inquietar até mesmo uma consciência pagã. Para uma consciência de responsabilidade social formada sob influências cristãs, isso deveria ser intolerável.
Este é, para as comunidades universitárias, um teste mais exigente do que as provas físicas do atletismo ou as provas intelectuais do desempenho acadêmico. Sentimos nossa unidade social com as pessoas que trabalham para viver, e pretendemos usar nossos privilégios e capacidades especiais para sua redenção social?
Quando salvarás o povo?
Ó Deus de misericórdia, quando?
Não reis e senhores, mas nações,
Não tronos e coroas, mas homens.
Eles são flores do teu coração, ó Deus.
Não os deixes perecer como ervas daninhas,
não os deixes murchar num dia sem sol!
Deus salve o povo!
— Ebenezer Elliott
Sugestões para reflexão e discussão
I. A tomada de partido de Jesus
- Jesus realmente tomou partido dos pobres? Prove.
- Tente provar o contrário.
- Qual seria a evidência mais segura: ditos isolados, ou a impressão total de sua vida e ensinamentos?
- O que você conclui a respeito da atitude de Jesus?
II. A Igreja e o povo
- Que motivos levaram Jesus a organizar e enviar os Doze? Qual foi o significado histórico dessa ação?
- Quando e como a Igreja perdeu seu caráter de classe trabalhadora?
- A Igreja hoje compartilha a sensibilidade social de Jesus diante da condição do povo? Resuma evidências a favor e contra.
- Qual é a verdadeira função da Igreja na sociedade no que se refere aos pobres?
III. Defender o povo hoje
- É um critério superficial ou profundo avaliar uma pessoa por sua solidariedade com o povo comum?
- O que envolve defender o povo hoje? Como difere da caridade e das ações assistenciais?
- Cite alguns homens e mulheres de nossos tempos que parecem ter defendido o povo com mais sabedoria e eficácia.
- Quais são os vícios dos reformadores sociais?
IV. A preocupação dos estudantes universitários
- Como podem os estudantes universitários dar uma justa retribuição por suas oportunidades especiais?
- Que movimentos na vida universitária nos últimos anos estão em linha com esse princípio social de Jesus?
- Que parte tiveram os estudantes universitários da Rússia, Áustria, Alemanha e Inglaterra em movimentos sociais? Os estudantes americanos alguma vez tiveram interesse semelhante em movimentos da classe trabalhadora? Se não, por quê?
V. Para discussão especial
- É uma vantagem ou uma desvantagem para o cristianismo ter começado entre a classe trabalhadora? Que efeitos isso teve sobre seus pontos de vista éticos e seus impulsos?
- Por que a regeneração da sociedade antiga teve de vir por meio dos humildes? Terá de vir do mesmo modo hoje?
- É ético viver sem trabalho produtivo? É moralmente tolerável desfrutar de lazer excessivo comprado pelo trabalho excessivo de outros?
- Há alguma convicção clara sobre esta questão na Igreja cristã hoje?
- O fato de uma pessoa ter origem na classe trabalhadora é garantia de que terá solidariedade com a classe trabalhadora?
- Quem parece ter mais sentimento democrático natural, os homens ou as mulheres das classes superiores?[^4]
[^4]: A formulação da pergunta reproduz pressupostos de gênero correntes no contexto histórico da obra.
Walter Rauschenbusch, “Standing With the People”, capítulo III de The Social Principles of Jesus (Nova York: Association Press, 1916). . Texto original em domínio público.
