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Uma experiência com Descartes, Hegel e Berkeley

texto de Gonçalo Armijos Palácios*

Paisagem dialetica h

Preparando uma aula introdutória ao pensamento de Hegel, especificamente às suas Lições de Filosofia da História Universal, lembrei de dois momentos que me impactaram quando estudava filosofia nos idos dos anos 70. O primeiro momento foi numa aula de Filosofia Moderna. Estávamos começando a estudar as Meditações de Descartes e o professor, um jesuíta, ao explicar o argumento cartesiano da certeza disse algo assim: “Então, a evidência de tudo, de saber que estou aqui, de saber que vejo o que vejo, assim como a certeza de todo conhecimento científico está em Deus”. Lembro que eu fiquei pasmo. Não conseguia acreditar que um filósofo da talha de Descartes, Pai da Geometria Analítica, um filósofo mais próximo do racionalismo mais radical do que qualquer outra posição filosófica, pudesse defender uma teoria que, no fundo, diminuía o poder da razão humana. Porque se eu sei o que eu sei porque Deus permite, porque Deus intervém, então, somos muito pouca coisa. Fui para casa e li avidamente as Meditações e, para minha surpresa, espanto e desilusão, efetivamente, o fundamento absoluto de todo conhecimento estaria, para Descartes, na existência de Deus. Eu tinha imaginado que a afirmação do professor estaria influenciada pelo fato de ele ser padre, mas, não, o fundamento absoluto do conhecimento no filósofo está em Deus.

Quando li Berkeley, alguns anos depois, me encontrei com outra passagem em que a presença de Deus é condição sine qua non para o conhecimento de tudo. O argumento está estreitamente ligado à sua tese de que “ser é ser percebido ou perceber”. O famoso “esse est percipi aut percipere”. Pela definição devemos inferir que o que não é percebido não existe, se a existência de algo depende de que esse algo esteja sendo percebido. Há, obviamente, a objeção de que se saio do meu quarto, fecho a porta e ninguém está nele, tudo o que estava ali deixa de existir porque não há ninguém que o esteja percebendo. E aí vem o admirável argumento de Berkeley. Um argumento por redução ao absurdo. Pois se é absurdo imaginar que pelo mero ato de abandonar meu quarto todas as coisas que estavam nele durante minha presença deixam de existir, é óbvio que continuam existindo porque estão sendo percebidas. Por quem? Naturalmente, por Deus! Deus, aqui, é a garantia da existência de tudo. Achei o argumento fantástico. Uma prova indireta da existência de Deus. Mas, claro, que o tenha achado fantástico não significa que tenha concordado com ele, mas, de qualquer forma, é um argumento indireto da existência de Deus verdadeiramente admirável.

E, por último, outra enorme surpresa me causou a leitura das Lições de Filosofia da História de Hegel. Quando era estudante tinha me debruçado sobre a chamada “pequena Lógica”. E era uma leitura realmente tenebrosa. Extremamente densa e difícil. Mas, anos depois, quando li as Lições e, particularmente, a “Introdução Geral”, consegui entender, numa visão panorâmica, todo o projeto de Hegel. E me chamou poderosamente a atenção que um autor que tivesse criado um sistema tão rigoroso e coerente, assim como tão abrangente – de fato, o sistema abrange toda a história da humanidade –, tenha tido de apelar a Deus para lhe dar sentido. : Com efeito, há uma declaração no final da Quarta Parte das Lições: “O Mundo Germânico”:

“Reconhecer que a história universal é este curso evolutivo e realização do espírito, sob o mutante espetáculo de seus acontecimentos, tal é a verdadeira teodiceia, a justificação de Deus na história. Desenvolver […] esta marcha do espírito universal tem sido minha aspiração.” […] “O único que pode reconciliar ao espírito com a história universal e a realidade é o conhecimento de que quanto tem acontecido e acontece todos os dias não só provém de Deus e não só não acontece sem Deus, mas que é essencialmente a obra do próprio Deus”. (G. W. F. Hegel. Lecciones sobre la filosofía de la historia universal. Trad. de José Gaos. Madrid : Revista de Occidente, p. 701.)

Claramente, havia em Hegel, naquela época, esse otimismo de que a história ia de menos a mais, do pior ao melhor, num processo em que cada momento era necessário. E em cada grande momento da história havia o trabalho de uma grande personalidade, de um Alexandre, o Grande, Júlio César, de um Bonaparte. E…, que diríamos hoje. Será que a história atual não contradiz tragicamente esse optimismo hegeliano? Diríamos que a grande personalidade que está controlando o rumo da história atual e definindo o futuro próximo da humanidade é… Donald Trump!?

*Gonçalo Armijos Palácios
José Gonzalo Armijos Palácios possui graduação e doutorado em Filosofia pela Pontificia Universidad Católica Del Ecuador (1978 e 1982, respectivamente) e doutorado em Filosofia pela Indiana University (1989). Realizaou estudos de pós-doutorado na Indiana University em 1996 e 1997. Desde1992 é professor titular da Universidade Federal de Goiás. Tem experiência na área de Filosofia, atuando principalmente nos seguintes temas: filosofia, metafilosofia, filosofia política e ensino de filosofia. Participou do Grupo de Sustentação para a criação do GT Filosofar e Ensinar a Filosofar, em 2006, do qual foi seu primeiro coordenador eleito. Foi o fundador do Curso de Pós-Graduação em Filosofia da UFG (1993), da revista Philósophos (1996), do Curso de Graduação em Filosofia da cidade de Goiás da UFG, em 2008, e participou da criação do Campus Cidade de Goiás da UFG em 2009.

Marcos Carvalho Lopes

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