Nota editorial
Jane Addams (1860–1935) foi uma das principais intelectuais públicas do progressismo norte-americano e uma figura central na formação do pragmatismo social ligado à democracia, à experiência urbana e à reforma comunitária. Seu trabalho na Hull House articulou investigação empírica, ação política e reflexão ética, em diálogo direto com autores como John Dewey, William James e outros pensadores do pragmatismo clássico.
“A Consciência Feminina e a Reforma Social” é um dos textos mais importantes de Addams para compreender a relação entre democracia, experiência cotidiana e responsabilidade pública. O ensaio mostra como transformações urbanas e industriais exigiam uma ampliação da consciência moral feminina para além dos limites do lar, vinculando maternidade, educação, trabalho, imigração, higiene urbana e cultura popular a um horizonte mais amplo de reforma social democrática. O texto também revela um traço decisivo do pragmatismo social: a ideia de que problemas coletivos devem ser enfrentados por meio de investigação concreta, organização comunitária e experimentação institucional.
Palavras-chave: Jane Addams, pragmatismo, democracia, experiência, reforma social, Hull House, imigração, trabalho infantil, feminismo, progressismo, comunidade, educação, justiça social, vida urbana, experimentalismo social

A Consciência Feminina e a Reforma Social
de Jane Addams
Fomos acostumados, durante muitas gerações, a pensar que o lugar da mulher se encontra inteiramente dentro das paredes de seu próprio lar; e é, de fato, impossível imaginar um tempo em que seus deveres ali venham a terminar ou prever qualquer mudança social que possa libertá-la dessa obrigação primordial. Não há dúvida, entretanto, de que muitas mulheres hoje deixam de cumprir adequadamente seus deveres para com suas próprias famílias e lares justamente porque não percebem que, à medida que a sociedade se torna mais complexa, torna-se necessário que as mulheres ampliem seu senso de responsabilidade para muitas coisas situadas fora da própria casa, ainda que apenas para preservar o lar em sua integridade.
Poderíamos ilustrar isso de muitas maneiras. O dever mais simples de uma mulher, dir-se-ia, é manter sua casa limpa e saudável e alimentar adequadamente seus filhos. Contudo, se ela vive em um cortiço, como acontece com tantas de minhas vizinhas, não pode cumprir essas simples obrigações apenas por seus próprios esforços, porque depende inteiramente da administração municipal para as condições que tornam possível uma vida decente. Seu porão não permanecerá seco, suas escadas não serão resistentes ao fogo, sua casa não possuirá janelas suficientes para garantir luz e ventilação, nem será equipada com instalações sanitárias adequadas, a menos que o Departamento de Obras Públicas envie inspetores que insistam continuamente para que essas condições elementares sejam garantidas.
Essas mesmas mulheres que agora vivem em cortiços, quando moravam no campo, varriam os próprios quintais e alimentavam uma criação de galinhas com os restos da mesa ou simplesmente deixavam que eles se decompusessem inocentemente ao ar livre e sob o sol. Agora, porém, se as ruas não forem limpas pelas autoridades municipais, nenhuma quantidade de limpeza privada manterá a moradora livre da sujeira; se o lixo não for adequadamente recolhido e destruído, ela poderá ver seus filhos adoecerem e morrerem de enfermidades contra as quais, sozinha, é incapaz de protegê-los, embora sua ternura e devoção sejam ilimitadas. Ela sequer consegue assegurar leite limpo para seus filhos; não consegue oferecer frutas não contaminadas, a menos que o leite tenha sido adequadamente fiscalizado pelo Departamento Municipal de Saúde e que as frutas deterioradas — tão frequentemente vendidas nos distritos de cortiços — tenham sido prontamente destruídas em nome da saúde pública.
Em suma, se a mulher deseja continuar exercendo sua antiga tarefa de cuidar da casa e criar os filhos, precisará desenvolver alguma consciência em relação aos assuntos públicos situados muito além de seu lar imediato. A consciência individual e a devoção individual já não são suficientes. Nos bairros de cortiços de Chicago, lamento dizer que, na primavera passada, tivemos uma epidemia de escarlatina justamente quando as enfermeiras escolares haviam sido dispensadas por se considerar que já não eram necessárias. Se as mulheres que enviavam seus filhos para essas escolas tivessem espírito público suficiente, teriam insistido para que as escolas permanecessem equipadas com enfermeiras, de modo que seus próprios filhos fossem protegidos do contágio.
Eu poderia multiplicar os exemplos. As mulheres são empurradas para fora do lar precisamente para preservar o lar. Se desejam continuar exercendo eficazmente suas antigas ocupações, devem participar dos movimentos voltados para a melhoria social.
Por outro lado, essa mesma tese pode ser igualmente ilustrada por mulheres que não participam da vida pública para se dedicarem exclusivamente às próprias famílias, chegando por vezes a desprezar seus vizinhos e seus modos de vida, e até mesmo a sentir certo orgulho em manter-se separadas deles.
Nosso bairro sofreu certa vez uma epidemia de febre tifóide. Embora o Décimo Nono Distrito possuísse apenas um trigésimo sexto da população de Chicago, concentrava um sexto de todas as mortes da cidade causadas pela doença. Foi realizada uma investigação cuidadosa que nos permitiu estabelecer uma estreita relação entre a febre tifóide e um sistema de encanamento que tornava bastante provável a transmissão da infecção por moscas.
Entre as pessoas expostas à infecção estava uma viúva que havia vivido durante muitos anos naquele distrito, em uma pequena e confortável casa própria. Embora os imigrantes italianos se aproximassem cada vez mais de sua vizinhança, ela não desejava vender a propriedade nem mudar-se antes de concluir a educação dos filhos, porque considerava essa sua obrigação principal. Enquanto isso, mantinha-se completamente afastada de seus vizinhos italianos e de seus assuntos.
Suas duas filhas estudavam em uma faculdade da Costa Leste; uma já havia se formado e a outra ainda tinha dois anos de curso quando ambas retornaram para passar o verão naquela pequena casa impecável junto de sua mãe sacrificada e dedicada. Ambas adoeceram — não porque a própria casa não fosse limpa, não porque a mãe não fosse devotada, mas porque ao lado e nos fundos da residência existiam cortiços miseráveis e porque os maiores esforços da mãe não eram suficientes para impedir que a infecção penetrasse em sua própria casa. Uma das filhas morreu; a outra sobreviveu, mas permaneceu inválida durante os dois anos seguintes.
Esse talvez seja um exemplo eloquente da inutilidade da consciência individual quando a mulher insiste em isolar sua família do restante da comunidade e de seus interesses. O resultado dificilmente deixa de ser um fracasso doloroso.
No processo de socialização de suas responsabilidades, as mulheres poderiam ter aprendido muito com as mudanças ocorridas na organização da indústria ao longo do último século. Desde que a energia a vapor foi aplicada aos processos de fiar e tecer, o antigo trabalho tradicional da mulher vem lentamente — mas inevitavelmente — saindo do lar e migrando para a fábrica. As roupas não apenas são fiadas e tecidas, mas também largamente costuradas por máquinas; os tecidos domésticos, o preparo de grãos, a manteiga e o queijo também passaram para a fábrica e, inevitavelmente, certo número de mulheres foi obrigado a seguir seu trabalho até lá, embora seja duvidoso, apesar do grande número de operárias, que as mulheres atualmente realizem uma parcela tão grande do trabalho mundial quanto realizavam antigamente.
Se contemplarmos as muitas milhares de mulheres que ingressam na indústria e trabalham em fábricas e oficinas, reconheceremos imediatamente a enorme necessidade de que mulheres mais velhas se interessem pelas condições industriais. Segundo os relatórios do censo, existem nos Estados Unidos mais de cinco milhões de mulheres economicamente independentes. A maioria delas tem entre dezesseis e vinte e quatro anos, de modo que, quando falamos de mulheres trabalhadoras, estamos realmente falando de moças trabalhadoras.
É a primeira vez na história que tamanhos contingentes de jovens mulheres foram autorizados a caminhar desacompanhados pelas ruas das cidades e a trabalhar sob tetos estranhos. O próprio fato de que essas jovens não permanecerão permanentemente na indústria torna ainda mais importante que alguém zele para que não sejam incapacitadas para sua futura vida familiar devido a jornadas exaustivas e condições insalubres.
Seria de imaginar que, assim como nossas avós protegiam a saúde e a moral das jovens que fiavam, teciam e costuravam em seus próprios lares, também as mulheres de hoje se sentiriam igualmente responsáveis pelas jovens que realizam esse mesmo trabalho sob condições transformadas. Isso aconteceria se o senso de obrigação feminina tivesse se ampliado e modificado à medida que as condições sociais mudavam, de modo que as mulheres quase naturalmente e quase imperceptivelmente tivessem inaugurado os movimentos de melhoria social ligados à legislação trabalhista e à higiene das oficinas.
O fato de isso não ter acontecido deve-se, sem dúvida, à lentidão da consciência feminina em reconhecer obrigações para além do círculo familiar e ao fato de que as mulheres permaneceram tão absorvidas por seus próprios assuntos que deixaram de perceber as reais condições existentes fora de casa.
À medida que uma indústria após outra deixou o espaço doméstico; à medida que a educação das crianças foi cada vez mais transferida para a escola — de tal forma que hoje crianças de quatro anos começam a frequentar o jardim de infância — a mulher foi sendo deixada em um lar de interesses progressivamente mais estreitos.
Talvez o primeiro passo rumo à restauração seja a publicidade das questões industriais, pois só conseguimos perceber aquilo para o que levamos uma mente preparada. Permitam-me ilustrar isso por meio de um grupo de mulheres dedicadas ao lar que se interessou pelo problema do trabalho infantil.
Certa vez fui membro do Comitê Industrial da Federação Geral dos Clubes Femininos [2], associação que, como sabem, reunia clubes de mulheres de várias partes dos Estados Unidos. Estávamos muito interessadas em descobrir até que ponto o trabalho infantil prevalecia nos diversos estados onde ainda não existia legislação protetiva para as crianças. Enviamos questionários para todos os clubes femininos e, entre as respostas recebidas, houve uma particularmente interessante vinda de um clube feminino da Flórida.
Pedimos que as integrantes contabilizassem todas as crianças menores de quatorze anos trabalhando em fábricas e usinas nas proximidades dos clubes. As mulheres da Flórida responderam dizendo ter encontrado três mil crianças trabalhando nas fábricas de açúcar e acrescentaram lamentar que não tivéssemos perguntado antes sobre o trabalho infantil, porque a legislatura estadual só se reuniria novamente dali a dois anos e, até lá, não haveria possibilidade de aprovar legislação protetiva.
Evidentemente, acreditavam que a negligência fora do próprio comitê, que não lhes chamara atenção antes para as condições do trabalho infantil. Todo o episódio ilustra perfeitamente o ponto que desejo defender. Essas mulheres viviam no mesmo lugar havia anos. As crianças certamente iam e vinham do trabalho bem diante de suas janelas, mas elas jamais haviam olhado para contá-las e sequer sabiam que estavam ali.
O Comitê Industrial enviou um questionário que, em essência, dizia: “Por favor, olhem pela janela e contem as crianças trabalhadoras.” As mulheres dos clubes despertaram subitamente e se mobilizaram para proteger as crianças que acabavam de descobrir.
Algo semelhante ocorre em todas as comunidades. Vemos as coisas para as quais nossa atenção foi despertada; sentimos responsabilidade por aquilo que nos é apresentado como objeto de responsabilidade.
Em que direção, então, deveriam as mulheres voltar seu olhar neste momento para alcançar uma melhoria mais efetiva dos muitos males sociais que nos cercam?
Se seguirem apenas as linhas de suas atividades tradicionais, há certamente três deveres primordiais que todos admitiríamos pertencer até mesmo às mulheres mais conservadoras e que nenhuma mulher — nem mesmo um grupo de mulheres — pode cumprir adequadamente sem se unir aos movimentos mais amplos voltados para a melhoria social.
O primeiro desses deveres é a responsabilidade pelos membros do próprio lar, para que sejam adequadamente alimentados, vestidos e cercados por condições higiênicas.
O segundo é a responsabilidade pela educação das crianças, para que disponham de boas escolas ou sejam protegidas das influências nocivas das ruas; e, como consequência natural dessa preocupação, para que, quando começarem a trabalhar, estejam protegidas contra máquinas perigosas e jornadas exaustivas.
O terceiro é a responsabilidade pelos padrões sociais da comunidade, o que implica certa compreensão das dificuldades e perplexidades do imigrante recém-chegado, bem como condições adequadas para o cultivo da música e de outras fontes artísticas que possam existir entre o povo comum.
Já abordamos a primeira linha de obrigação e a dificuldade de garantir alimentos puros sem o auxílio de leis sanitárias estaduais e federais, assim como a impossibilidade de manter uma família de cortiço em condições higiênicas sem regulamentação constante por parte das autoridades municipais. Se os poderes públicos permanecem indiferentes às condições miseráveis — como frequentemente acontece —, a única maneira efetiva de obter reformas é por meio de um esforço concertado das mulheres responsáveis pelos lares.
Permitam-me ilustrar isso com um exemplo do Clube Feminino da Hull House [1]. Certo verão, quinze anos atrás, descobrimos que a taxa de mortalidade de crianças menores de cinco anos em nosso distrito estava muito acima da média, sendo a segunda mais alta da cidade. Uma investigação revelou, entre outras coisas, que o lixo não estava sendo adequadamente recolhido.
O clube feminino dividiu o distrito em seções e, três vezes por semana, determinadas mulheres percorriam cada uma delas para descobrir o que poderia ser feito para manter o território limpo. Naturalmente, não é muito agradável caminhar pelos becos e entrar em conflito com as pessoas a respeito das condições do lixo; é necessária grande energia moral e determinação cívica para realizar isso de modo eficaz.
Ainda assim, as integrantes do clube fizeram esse trabalho dia após dia até reunirem material suficiente para afastar três inspetores de seus cargos e finalmente conseguir a nomeação de um inspetor competente. Quando o distrito se tornou mais limpo, quando a taxa de mortalidade caiu mês após mês e cada boletim sanitário era lido no Clube Feminino, todas as integrantes ouviam com ansiedade intensa.
Jamais esquecerei o dia, três anos depois, em que o clube rompeu em aplausos porque a taxa de mortalidade de nosso distrito havia finalmente caído para a média da cidade. Elas sentiam que haviam sido responsáveis por aquele resultado, que a vizinhança havia sido conduzida a uma condição razoável graças à sua iniciativa e ao seu esforço coletivo.
Naturalmente, o lar de cada mulher foi beneficiado pelo resultado, mas ele jamais poderia ter sido alcançado pelos esforços isolados de uma única família.
Poderíamos usar como outro exemplo a impossibilidade de conhecer as condições sanitárias sob as quais as roupas são produzidas, a menos que as mulheres se unam em associações como a Liga dos Consumidores [Consumers’ League] [3], que mantém funcionários encarregados de informar aos membros da organização quais roupas são produzidas em sweatshops [oficinas de trabalho exploratório e insalubre] [4] e de identificar, por meio de selos, aquelas fabricadas em condições sanitárias adequadas.
Médicos do interior testemunham o surgimento de surtos de escarlatina em regiões rurais a cada outono, depois que as crianças começam a usar casacos e sobretudos de inverno enviados de sweatshops infectados das grandes cidades. O fato de as mães remendarem as meias dos filhos e protegê-los para que “não peguem friagem” não constitui proteção suficiente quando as roupas da família são produzidas em cidades distantes sob condições que a mãe não tem qualquer possibilidade de controlar.
A legislação contra sweatshops e a organização das ligas de consumidores constituem as linhas mais evidentes de melhoria desses males sociais flagrantes que afetam diretamente a vida familiar.
O dever da mãe em relação às escolas frequentadas por seus filhos é tão evidente que não há necessidade de insistir muito nele, mas mesmo essa obrigação simples não pode ser efetivamente cumprida sem alguma forma de organização social, como testemunham os clubes escolares de mães e os congressos de mães.
As mulheres começam também a perceber que as crianças necessitam de atenção fora do horário escolar; que grande parte dos pequenos vícios urbanos nada mais é do que o amor pelo prazer desviado de seu caminho — meninos e meninas excessivamente reprimidos buscando recreação e formas inadequadas de excitação.
Recentemente foi elaborado em Chicago um mapa demonstrando que a criminalidade juvenil vem diminuindo nas regiões próximas aos playgrounds e campos esportivos que o Conselho de Parques do Sul instalou, três anos atrás, em treze pequenos parques.
Sabemos, em Chicago, a partir de dez anos de experiência em um tribunal de menores, que muitos meninos são presos simplesmente por excesso de energia e vitalidade, porque não sabem o que fazer consigo mesmos depois da escola. A coisa mais ousada que o líder de uma gangue de garotos pode fazer é invadir uma casa vazia, roubar instalações hidráulicas e vendê-las para conseguir dinheiro com o qual oferecer algum agrado à gangue.
Naturalmente, esse tipo de comportamento coloca o menino em sérios problemas e quase certamente o levará ao reformatório. É evidente que um pequeno estudo coletivo das necessidades desses garotos, aliado a uma compreensão empática das condições sob as quais se desviam, poderia salvar centenas deles.
Tradicionalmente, as mulheres tiveram oportunidade de observar as brincadeiras infantis e as necessidades dos meninos em crescimento; ainda assim, fizeram singularmente pouco diante desse difícil problema da delinquência juvenil até ajudarem a inaugurar, cerca de doze anos atrás, o movimento dos tribunais de menores. Desde então, porém, realizaram um trabalho valioso e finalmente começam a tentar minimizar alguns dos perigos da vida urbana encontrados por meninos e meninas; começam a perceber a relação entre recreação pública e moralidade social.
As mulheres de Chicago estudam atualmente os efeitos desses centros recreativos, criados pelo Conselho de Parques do Sul, sobre a vida social dos adultos que os frequentam. Uma das coisas que eles conseguiram fazer foi reduzir enormemente a frequência aos saloons [bares associados ao consumo de álcool].
Antes da criação dessas casas de parque, os salões ligados aos bares eram alugados para casamentos, batizados e qualquer tipo de evento que, no imaginário dos imigrantes, estivesse associado a celebrações coletivas, porque os únicos espaços disponíveis para aluguel eram precisamente os salões anexos aos bares.
Como sabem, o salão do bar é alugado gratuitamente sob o entendimento de que determinada quantia será consumida no balcão; isto é, o aluguel deve ser compensado de outras maneiras. O salão do parque, evidentemente, não opera sob essa lógica e, por isso, o consumo de bebidas praticamente desapareceu nas festas realizadas nesses espaços.
Se um homem precisa caminhar dois ou três quarteirões para conseguir uma bebida alcoólica, mas pode simplesmente descer as escadas para obter outros refrescos, é evidente que, na maioria dos casos, escolherá a segunda opção.
Os salões dos parques fecham rigorosamente às onze horas da noite. A cidade, portanto, aproxima-se do problema da temperança [5] a partir da ideia de substituição, perspectiva que parece a alguns de nós mais razoável do que métodos puramente restritivos.
Muitos dos grandes movimentos de melhoria social nos quais as mulheres atuam surgiram do interesse feminino pelos assuntos do tribunal de menores [6], mas isso não significa que o esforço coletivo minimize a preocupação individual. Pelo contrário, frequentemente vemos uma mulher ser levada à ação individual somente depois de entrar em contato com um movimento mais amplo.
Recordo-me de uma mulher da vizinhança da Hull House que, embora tivesse uma família numerosa, passou a cuidar todas as noites de um garoto cuja mãe limpava escritórios no centro da cidade diariamente, das cinco da tarde às onze da noite. Essa mulher bondosa oferecia jantar ao menino junto de seus próprios filhos, cuidava para que ele não se envolvesse em problemas durante a noite e permitia que dormisse no sofá de sua sala até que sua mãe viesse buscá-lo.
Depois de ela ter feito isso durante cerca de seis meses, conversei com ela um dia e a felicitei pelo sucesso obtido com o garoto, que anteriormente havia sido tutelado pelo tribunal de menores. Ela respondeu que resolvera ajudá-lo porque um funcionário do tribunal juvenil lhe falara sobre o menino e dissera acreditar que ela estaria disposta a ajudar, já que observara seu interesse pelas questões do tribunal de menores.
Embora a mãe do garoto fosse sua vizinha, ela aparentemente não havia percebido sua obrigação em relação ao menino até que essa responsabilidade lhe fosse apresentada de maneira um tanto indireta.
Esse é outro exemplo de nossa incapacidade de perceber o dever “mais próximo à mão” até que nos tornemos atentos por meio do conhecimento das condições sociais ligadas a deveres mais amplos.
Todos concordaríamos que a melhoria social deve surgir dos esforços de muitas pessoas movidas pelo impulso e pela inquietação da consciência individual; mas estamos apenas começando a compreender que a consciência individual responderá ao desafio concreto e ouvirá esse chamado em grande medida na proporção em que o indivíduo for capaz de perceber as condições sociais e compreender inteligentemente a necessidade mais ampla.
Por isso, investigação cuidadosa e discussão mútua talvez constituam o primeiro passo para garantir legislação adequada e melhoria cívica diante dos males sociais mais evidentes.
A terceira linha de esforço precisa ser desenvolvida por toda comunidade que deseje possuir uma vida social em qualquer sentido verdadeiro. Talvez eu possa ilustrar isso a partir de experiências realizadas na Hull House, não porque tenham sido especialmente bem-sucedidas, mas porque ali se tentou desenvolver os recursos sociais de uma comunidade de imigrantes.
Se um historiador, daqui a cem anos, escrevesse a história social da América, provavelmente diria que uma das características marcantes de nosso tempo foi a chegada de imigrantes à razão de um milhão por ano e o fato de que o povo americano mantinha poucas relações sociais com eles.
Se esse historiador utilizasse as mesmas expressões hoje empregadas pelos psicólogos — talvez até lá já tenham abandonado tais termos — diria que nossas mentes pareciam “inibidas” por certos conceitos mentais que aparentemente nos impediam de estabelecer relações sociais com as populações imigrantes.
Quais são esses conceitos mentais, esse estado de espírito que nos mantém separados das populações imigrantes? A diferença de língua, religião, história e tradição sempre torna o convívio social mais difícil e, no entanto, todos os anos pessoas viajam à Europa justamente com o objetivo de superar essas diferenças e conhecer a vida de outras nações. Descobrem que as pessoas podem diferir em língua e educação e ainda assim possuir interesses semelhantes. Diríamos que alguém que viajasse à Europa e retornasse sem adquirir esse ponto de vista teria fracassado em sua viagem.
No interior das cidades americanas existem diversas colônias de imigrantes que representam formas de vida e condições europeias [7]; e o fato de nós, que permanecemos em casa, sabermos tão pouco sobre elas deve-se apenas à ausência de um esforço adequado de nossa parte.
Temos nas proximidades da Hull House uma colônia de cerca de cinco mil gregos que certa vez apresentou no teatro da instituição a peça clássica “Ajax”, escrita por Sófocles. Os gregos ficaram muito surpresos quando professores de várias universidades compareceram para acompanhar a peça em grego, lendo-a em exemplares do texto original que haviam levado consigo.
Os gregos se surpreenderam porque desconheciam a existência de tantas pessoas em Chicago interessadas na Grécia antiga. Os professores, por sua vez, ficaram admirados ao descobrir que os gregos modernos eram capazes de oferecer uma interpretação tão encantadora de Sófocles. Houve uma revelação mútua dos dois lados.
Por um lado, os gregos passaram a sentir-se mais próximos da América; por outro, os professores perceberam que talvez as tradições gregas não tivessem sido tão completamente rompidas quanto imaginavam. Teria sido difícil para os gregos organizar sozinhos todos os preparativos necessários para a encenação; precisavam de alguém que atuasse, por assim dizer, como intermediário cultural. Ao mesmo tempo, eram eles próprios os portadores daquela tradição, daquele fundo histórico e daquela beleza clássica de que nossas cidades americanas tanto necessitam e que eles eram capazes de oferecer.
Tomemos a Itália como outro exemplo, se quiserem — aquela mesma palavra que tanto nos encanta quando a ouvimos do outro lado do Atlântico e que, entretanto, significa tão pouco para nós em nosso próprio país. Essas colônias italianas poderiam oferecer algo extremamente valioso à vida americana caso seus recursos fossem inteligentemente estudados e desenvolvidos.
Elas possuem toda sorte de sensibilidade artística e até mesmo formas refinadas de trabalho artesanal que jamais são recuperadas ou utilizadas aqui. Costumo contar a história de um italiano ameaçado de prisão pelo proprietário do prédio porque ornamentara a porta de seu cortiço com um belo trabalho em madeira entalhada.
O italiano ficou profundamente surpreso com a reação provocada por sua tentativa de tornar sua moradia mais bonita. Não conseguia compreender por que o proprietário desaprovava aquilo; dizia ter entalhado um retábulo em uma igreja de Nápoles que os americanos visitavam e consideravam muito belo. O homem estava naturalmente perplexo diante do contraste entre o reconhecimento de seu trabalho em Nápoles e em Chicago.
E, no entanto, nada nos falta mais na América do que precisamente essa tendência de tornar belos os ambientes da vida comum. A habilidade daquele homem era algo precioso e deveria ter sido preservada e incorporada à vida americana.
Os italianos de nossa vizinhança ocasionalmente reivindicam a construção de lavanderias públicas. Não gostam de lavar roupas em seus próprios cortiços; jamais haviam visto uma tina de lavar antes de chegar à América e consideram extremamente difícil utilizá-la no espaço restrito de suas pequenas cozinhas e pendurar roupas para secar dentro de casa.
Dizem que, na Itália, lavar roupas é uma atividade agradável. Nas aldeias, as mulheres vão juntas ao riacho; nas cidades, às lavanderias públicas; e o trabalho de lavar, em vez de ser solitário e desagradável, torna-se agradável graças à conversa animada.
É pedir demais dessas mulheres que alterem subitamente todos os seus hábitos de vida, e sua argumentação de que a cozinha do cortiço é pequena demais para trabalhos de lavanderia é perfeitamente razoável.
Se as mulheres de Chicago conhecessem as necessidades da colônia italiana e estivessem familiarizadas com seus modos de vida na Itália, elas próprias defenderiam a construção de lavanderias públicas para uso das mulheres italianas. Tudo aquilo que pudesse trazer limpeza e roupas frescas para os lares italianos constituiria uma medida sensata e higiênica.
Talvez seja exigir muito que os membros do conselho municipal compreendam isso, mas certamente a compreensão das necessidades dessas mulheres e os esforços para melhorar suas condições de vida deveriam ser considerados um dever de consciência por parte das mulheres americanas.
Também se percebe constantemente, nas colônias italianas, aquela dolorosa ruptura entre os costumes dos mais velhos e os de seus filhos, que, por terem aprendido inglês e certos hábitos americanos, acabam se tornando parcialmente envergonhados de seus próprios pais.
Não contribui para a formação de bons americanos o fato de que as crianças se desliguem dessa maneira do passado europeu. Se o movimento contrário pudesse ocorrer — se as crianças, por meio de certa compreensão do passado, pudessem auxiliar os pais na transição para os hábitos e costumes americanos — isso seria extremamente valioso sob ambos os pontos de vista.
Uma jovem italiana que frequentou a escola pública e teve aulas de culinária e artes domésticas ajudará muito mais sua mãe e facilitará a adaptação de toda a família aos alimentos e hábitos domésticos americanos se compreender as experiências italianas da mãe.
O fato de que a mãe jamais tenha assado pão na Itália — limitando-se a preparar a massa em casa e levá-la ao forno comunitário da aldeia — torna ainda mais necessário que a filha compreenda o funcionamento complicado de um fogão e a introduza em seus mistérios.
Ao mesmo tempo, a filha e sua professora americana poderiam adquirir algo do sentido histórico e do pano de fundo da longa tradição do trabalho doméstico feminino ao conhecer essa mulher simples e aprender com ela antigas receitas e métodos preservados entre os mais pobres justamente por seu valor.
Tomemos o exemplo da jovem que aprende costura na escola pública e cuja mãe italiana ainda sabe fiar com o antigo fuso manual, remontando ao período de Homero e do rei Davi; que sabe tecer e fabricar o próprio tear. A mãe dessa jovem poderia oferecer um fundo cultural extremamente valioso a uma sala de aula repleta de produtos industrializados, muitas vezes inferiores e desprovidos de significado.
Assim como os antigos ofícios podem ser recuperados das colônias estrangeiras e utilizados para enriquecer nossas cidades modernas, também é possível recuperar algo das artes.
Temos na Hull House uma escola de música na qual algumas crianças nascidas no exterior estudam há doze anos. Frequentemente essas crianças descobrem, nas colônias imigrantes vizinhas, antigas canções folclóricas jamais registradas por escrito. A escola de música reproduz essas canções e convida os mais velhos para ouvi-las; a emoção deles durante esses concertos é profundamente comovente, ao ouvirem melodias familiares que os reconectam às experiências mais antigas de suas vidas, talvez evocando pais e avós.
Afinal, qual é a função da arte senão preservar em forma permanente e bela aquelas emoções e consolos que tornam a vida mais suave e compreensível, elevam o espírito do trabalhador acima da dureza de sua tarefa e, ao conectá-lo com aquilo que veio antes, libertam-no do sentimento de isolamento e sofrimento?
Muitas mulheres americanas instruídas começam a sentir um senso de obrigação em relação a trabalhos desse tipo. Se as mulheres foram responsáveis, em algum sentido, por aquele lado mais delicado da vida que suaviza certas durezas da existência, então certamente possuem um dever a cumprir nas grandes colônias estrangeiras que compõem parcela tão significativa das cidades americanas.
Tenho certeza de que todos vocês conseguem imaginar exemplos do que poderia ser feito nessa terceira linha de responsabilidade; pois, qualquer que seja nossa opinião sobre a capacidade feminina de promover melhorias por meio de legislação, devemos concordar que a responsabilidade pelos padrões sociais sempre lhes pertenceu.
Para concluir, permitam-me recapitular: se a mulher deseja cumprir sua responsabilidade tradicional para com seus próprios filhos; se deseja educar e proteger dos perigos as crianças da comunidade, que hoje trabalham nas fábricas embora anteriormente trabalhassem nos lares; se deseja enfrentar, em algum sentido, as dificuldades trazidas pela imigração moderna; então ela deve empurrar sua consciência para dentro dos movimentos gerais de melhoria social.
Notas
[1] A Hull House foi fundada por Jane Addams em Chicago, em 1889. Integrava o movimento dos settlement houses, centros comunitários voltados para educação popular, assistência social, investigação urbana e integração de imigrantes.
[2] A Federação Geral dos Clubes Femininos (General Federation of Women’s Clubs) foi uma importante organização do movimento feminino progressista norte-americano do final do século XIX e início do XX, articulando campanhas por educação, saúde pública, legislação trabalhista e reforma urbana.
[3] A Liga dos Consumidores (Consumers’ League) foi um movimento reformista criado para pressionar empresas a melhorar as condições de trabalho e higiene nas fábricas e oficinas, especialmente na indústria têxtil.
[4] O termo sweatshop designa oficinas marcadas por jornadas exaustivas, baixos salários, superlotação e condições sanitárias precárias, muito comuns nas grandes cidades industriais norte-americanas do período.
[5] O movimento da “temperança” (temperance movement) defendia a redução ou proibição do consumo de álcool, sendo uma das grandes campanhas morais e sociais do progressismo norte-americano.
[6] O tribunal de menores mencionado por Addams refere-se às primeiras experiências modernas de justiça juvenil nos Estados Unidos, fortemente influenciadas por ideias reformistas e pedagógicas em vez de perspectivas puramente punitivas.
[7] O uso de expressões como “raças”, “imigrantes” e “civilização” deve ser compreendido dentro do contexto histórico do início do século XX. Embora Addams critique diversas formas de preconceito e exclusão, o texto ainda mobiliza categorias típicas do vocabulário social e antropológico de sua época.
