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A “Filosofia Bantu” de Placide Tempels em língua portuguesa

Luís Kandjimbo |*

Escritor

Com o pensamento no optimismo de muitas angolanas e angolanos, nas circunstâncias actuais, venho propor um tópico sobre a tradução em língua portuguesa de uma obra incontornável no domínio da Filosofia Africana, “La Philosophie Bantu” [A Filosofia Bantu] do padre franciscano belga Placide Tempels (1906-1977), escrito originalmente em flamengo e publicada na Bélgica.

  

No Congo, o seu centro de difusão é, a partir de 1945, a cidade de Elizabethville, actual Lubumbashi, um pólo da Universidade Louvanium de Kinshasa. Do ponto de vista crítico, a história da sua recepção está associada a fecundas controvérsias filosóficas em África, com lugar cativo na periodização histórica da filosofia africana.

Os temas tratados em “La Philosophie Bantu” [A Filosofia Bantu] constituem problemáticas do universo cultural e linguístico da comunidade étnica Luba que tem igualmente implantação no leste e norteste de Angola. O livro teve a sua edição em francês, quatro anos depois. Por sua vez, a versão em língua inglesa ocorreu em 1959, com a chancela da “Presénce Africaine”. Quanto julgo saber, em português existem duas traduções, nomeadamente, a da Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto, sete décadas após a sua primeira edição, e outra das Edições Paulinas. São,  provavelmente, as primeiras no espaço da CPLP.


Traduções e diálogos continentais

Em 2009, Hubert Mono Ndjana, professor e chefe de Departamento de Filosofia da Universidade de Yaoundé I, publicou o livro “Histoire de la Philosophie Africaine” [História da Filosofia Africana]. Afirmava, então, que nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa nada acontecia, em matéria de produção filosófica. Quanto a mim – já tive a oportunidade de manifestar o meu ponto de vista, a este respeito – semelhante opinião testemunhava a força dos efeitos da glossobalcanização do nosso continente. Ele parecia acreditar, e muitos ainda acreditam, que as artificiais barreiras linguísticas que separam os Africanos são intransponíveis.

Por essa razão, a melhor ilustração do contrário pode ser feita com o trabalho que alguns  académicos angolanos realizam e que, lamentavelmente, não tem merecido a atenção devida. Trata-se da actividade de ensino, investigação, transferência e divulgação do conhecimento científico. O que é revelador de uma frequente leitura do que se faz em outras partes do nosso continente.

A aparente escassez de diálogos entre escritores, intelectuais e académicos Africanos, ou ainda entre organizações científicas e instituições académicas, não permite chegar a conclusões definitivas acerca da impossibilidade de relações culturais, circulação de ideias, obras e publicações, à escala de todo o continente africano.

Como se sabe, apesar das crónicas crises económicas e financeiras que afectam os países africanos,  a actividade editorial continental mantém alguma vitalidade à altura da produção intelectual e das necessidades de consumo dos leitores. Mas o mercado do livro que em África devia beneficiar da protecção do Estado é, de um  modo geral, por este asfixiado com a ausência de políticas públicas específicas. Tal situação cria oportunidades de negócio para a entrada em cena dos cartéis editoriais europeus e americanos, especializados em “assuntos africanos”, que seleccionam autores e definem agendas de consumo e de leitura, de acordo com as necessidades dos mercados de origem e seus públicos-alvo.

Compreende-se assim que iniciativas editoriais angolanas, dignas de serem inscritas  nesse esforço de diálogo intra-africano, nomeadamente, a da Faculdade de Ciências Sociais, não tenham sobrevivido à fúria das referidas crónicas crises financeiras. Importa recordar que na colecção “Reler África” das edições universitárias desta unidade orgânica da Universidade Agostinho Neto foram publicados em língua portuguesa alguns dos mais renomados especialistas africanos das Humanidades e das Ciências Sociais, entre os quais alguns filósofos africanos, tais como Alphonse Elungu Pene Elungu, Jean-Marc Ela, Paulin Hountondji e V.Y. Mudimbe.

Em 2016, poucos anos antes do fim da segunda década do presente século, a Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto, hoje Faculdade de Humanidades, realizava igualmente uma experiência editorial com a tradução de “La Philosophie Bantu” [A Filosofia Bantu]. Como se pode calcular, trata-se de uma iniciativa importante da Faculdade de Humanidades. Com uma tiragem de três mil exemplares, a tradução foi levada a cabo por dois professores da referida instituição de ensino, designadamente, Amélia Mingas e Zavoni Ntondo, ambos doutorados em Linguística Bantu. A revisão contou com os préstimos dos colegas do Departamento de Língua Portuguesa. Mas, sem retirar-lhes o mérito, registam-se algumas gralhas. É o caso da omissão que se verifica na página 30,  capítulo I,  quando se tem memória da edição em francês. 

    
Recepção do livro e antecedentes

A obra de Placide Tempels foi publicada três décadas após a edição de “La Psychologie des Bantu”, livro dado à estampa em 1910. O seu autor é Kaoze Kiezi (1890-1951), o primeiro padre congolês [“le premier pretre noir du Haut-Congo”], conhecido por Stephano Kaoze, após o seu baptismo. Formado nos seminários católicos do Alto Kivu, pertencia à ordem dos Padres Brancos belgas.

Portanto, aquilo que parece ser a originalidade do livro publicado por Placide Tempels ficou a dever-se à falta de conhecimento desse trabalho de Stephano Kaoze, sacerdote originário da comunidade étnica Beni-Murungu, que tinha sido inicialmente publicado pelo padre jesuíta A.Vermeersch na “Revue Congolaise”.

Entre os europeus, o britânico Brelsford William Vernon antecipou-se em 1930, com a publicação do seu livro “Primitive Philosophy” [Filosofia Primitiva], tematizando problemas semelhantes da Rodésia do Norte, onde se encontrava a trabalhar como funcionário colonial.

Em todo o caso, “La Philosophie Bantu” [A Filosofia Bantu] de Placide Tempels, foi acolhida entusiasticamente. A sua edição em francês contou com o prefácio do proprietário da editora e livraria “Presénce Africaine”. Este texto de Alioune Diop, datado de 1947, revela bem o impacto produzido nos meios intelectuais africanos e franceses de Paris. Na época, o contexto intelectual do Panafricanismo tinha as suas placas giratórias nos Estados Unidos da América e na Europa.

A África Global na sua âncora europeia era já dominada pela Negritude, enquanto pensamento teórico. Por outro lado, Aimé Césaire e Léopold Senghor representavam a literatura e a ideologia, os dois vectores em que se desenvolveu a Negritude nos países de língua francesa. De resto, a capital francesa testemunhava a simpatia facciosa de intelectuais e escritores franceses pelas correntes que faziam a apologia das artes e das ideias panafricanistas. Era o caso de Jean-Paul Sartre. 

Há mais de meio século, nesse prefácio da primeira edição em língua francesa do livro  de Placide Tempels, Alioune Diop escrevia o seguinte: “Eis um livro essencial para o Negro, para a sua tomada de consciência e sede de se visualizar relativamente à Europa […] Para mim, este pequeno livro é o mais importante dos que li sobre a África: é o que vai ao encontro das minhas expectativas. Como eles me incitaram a desejar que Jean-Paul Sartre utilizasse o seu extraordinário talento e a sua rara independência moral para projectar a luz do seu espírito luminoso […]”.

O livro comporta sete capítulos: 1) A Rota de uma Filosofia Bantu; 2) A Ontologia dos Bantu; 3) A  Sabedoria e a Criteriologia dos Bantu; 4) A “Teoria do Muntu” ou a Psicologia Bantu; 5) Ética Bantu; 6) A Restauração da Vida; 7) A Filosofia Bantu e a Nossa Missão Civilizadora.
 
Etnofilosofia e historiografia

A história da recepção e leitura da obra  de Placide Tempels, onde perpassa virtualmente a língua Luba da região do Katanga,  suscitou uma polifonia de opiniões. As reacções críticas acabaram por dar origem a três correntes do pensamento filosófico africano, no século XX: 1) “crítica do tempelsianismo”; 2) “crítica da etnofilosofia”; 3) “crítica da crítica da etnofilosofia”. Entre os primeiros críticos destaca-se o poeta martinicano Aimé Césaire.

Seguem-se o democrata-congolês Alphonse Elungu Pene Elungu, os camaroneses Fabian-Eboussi Boulaga, Marcien Towa e o beninense Paulin Hountondji. Os três últimos são os mais importantes oponentes que atacam ferozmente a abordagem desenvolvida por Placide Tempels, classificada como “etnofilosofia”. 

Para Paulin Hountondji, a etnofilosofia tempelsiana apresenta as seguintes características: a) Posição política considerada como altamente subversiva pela administração colonial belga; b) Natureza conservadora e reaccionária, na perspectiva dos Africanos; c) Incorporação  de conceitos Bantu para adaptar a mensagem cristã e a linguagem da evangelização; d) Elaboração do pressuposto segundo o qual uma síntese filosófica do pensamento Bantu garante coerência e inteligibilidade aos diferentes ramos das Ciências Sociais e das Humanidades.

Numa perspectiva historiográfica, inscrevo-me na longa lista daqueles, que, para todos os efeitos, situam a obra do padre belga no seu devido lugar. Apesar das suas irrecusáveis lacunas, no contexto institucional académico africano e europeu, “La Philosophie Bantu” [A Filosofia Bantu] de Placide Tempels inaugura um debate académico que até aí era desenvolvido sob os auspícios da antropologia colonial e missionária cristã.

Como pode essa obra ser lida, hoje, em língua portuguesa? Requer algum conhecimento prévio. Volvidos setenta e seis anos, “A Filosofia Bantu” do padre belga Placide Tempels continua a ser revisitada. A razão não é apenas de ordem historiográfica. Além do conceito de filosofia com que opera, uma das suas forças reside no facto de ter chamado a atenção para a necessidade de um sólido conhecimento das línguas Bantu com as quais se pode filosofar.

A argumentação da crítica da etnofilosofia tempelsiana de Paulin Hountondji, por exemplo, revela-se inconsistente, quando se avalia os contributos do filósofo rwandês Alexis Kagamé cujo mérito reside exactamente na exploração das virtualidades filosóficas do conhecimento linguístico. Nos países africanos de língua inglesa, tais experências emanam do método que caracteriza a filosofia analítica que consiste em filosofar, recorrendo ao uso ordinário das línguas naturais.

Em conclusão, o capítulo IV “A “Teoria do Muntu” ou a Psicologia Bantu” é um daqueles que justificam a leitura dos capítulos precedentes, sob pena de não se compreender o sentido do debate que Tempels trava sobre o “Muntu”, em Luba, (“Muthu”, em Cokwe; “Omunu”, em Umbundu; “Mutu”, em Kimbundu; “Muntu”, em Kikongo), o Homem, com um dos seus respeitáveis oponentes, o filósofo camaronês Fabian-Eboussi Boulaga, autor de “La Crise du Muntu.

Authenticité Africaine et Philosophie” [A Crise do Muntu. Autenticidade Africana e Filosofia]  um dos mais verrinosos libelos da crítica contra a etnofilosofia tempelsiana. No referido capítulo, é possível determinar o alcance do que pode ser uma argumentação sobre o esquema conceptual de pessoa e os nomes próprios na filosofia africana.
*Ensaísta e professor universitário

Publicado originalmente no Jornal de Angola em 09/01/2022 <https://www.jornaldeangola.ao/ao/noticias/a-filosofia-bantu-de-placide-tempels-em-lingua-portuguesa/>

https://www.jornaldeangola.ao/ao/noticias/a-filosofia-bantu-de-placide-tempels-em-lingua-portuguesa/

Marcos Carvalho Lopes

Um Comentário

  1. Esplêndido, ilustre Professor Doutor Luís Kandjimbo! É extremamente fundamental que se continue a refontalizar a nossa Filosofia Bantu associada à nossa Linguística. Pois, é o espírito contido na língua bantu que nos levará ao nosso pensamento filosófico bantu. Aliás, o casamento tridimensional entre a Linguística, a Psicologia e a Filosofia Bantu fortificam-nos e enraizam-nos, tornando a nossa cultura um fascínio. Almejo que a nossa Faculdade de Humanidades continue a rumar para este caminho frutífero para o engrandecimento intelectual da comunidade académica conhecendo do mais fundo o pensamento do grande Placide Tempels e não só! Gostei do trabalho, ilustre Professor Doutor, Luís Kandjimbo!

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