A promessa de domínio da inteligência artificial constitui uma reconfiguração contemporânea da lógica escravocrata, baseada não no domínio real, mas na sua simulação ideológica, que é profundamente desafiadora para as condições da existência humana.
GIVERAGE ALVES DO AMARAL1

Nas plataformas digitais, particularmente o Youtube, Facebook e Instagram, proliferam narrativas publicitárias que constroem um imaginário deveras futurista e sedutor: qualquer indivíduo pode tornar-se “dono” da inteligência artificial, seja criando uma ou comprando. Daí são oferecidos cursos, tutoriais de como fazer isso de modo quase instantâneo e com promessas de enriquecimento rápido que apresentam a inteligência artificial como um instrumento capaz de substituir quase que totalmente o trabalho humano, otimizar o tempo e garantir lucros quase automáticos e abundantes.
Essa narrativa, embora ancorada em possibilidades tecnológicas reais, revela uma estrutura discursiva que não é inteiramente nova. Historicamente, em contextos como o vergonhoso sistema escravocrata, também se difundia — ainda que possivelmente de forma menos formalizada — a ideia de que possuir força de trabalho escrava significava libertar-se do esforço direto e maximizar ganhos na produção, o que tornava a proposta tão interessante quanto nos dias atuais.
A promessa era clara: transferir o trabalho para os outros (escravizados), acumulando riqueza e tempo livre para si. Contudo, esse “aprendizado” não se dava por cursos, como hoje nas plataformas digitais se oferece, mas por socialização, herança cultural e estruturas institucionais que naturalizavam o domínio escravocrata racializado.
Penso que hoje o que se observa é uma reconfiguração dessa lógica escravocrata, mas com uma diferença fundamental: ao contrário do passado, em que o domínio era efetivo e concentrado, ainda que violento e restrito, no nosso contexto digital, ele é amplamente disseminado enquanto promessa, mas profundamente limitado na prática. Porquanto, ensina-se em massa, a ideia de que é possível “possuir” ou “controlar” sistemas de inteligência artificial, quando, na realidade, é ocultado à maioria dos indivíduos que eles apenas passarão a operar dentro de infraestruturas tecnológicas sobre as quais não tem domínio essencial sobre o fundamento de sua existência e operacionalidade.
A inteligência artificial (o aparente novo “escravo”), neste sentido, não representa apenas uma inovação técnica, mas um dispositivo ideológico, que não só automatiza tarefas, mas contribui igualmente para a automatização do próprio imaginário de poder. Ou seja, no exato momento em que o indivíduo é incentivado a acreditar que domina a tecnologia, na prática, é convidado a assinar a carta de sua subordinação completa às plataformas, algoritmos e modelos cuja lógica de funcionamento e propriedade lhe escapam quase que em absoluto.
Trata-se de uma forma contemporânea de falsa consciência (Karl Marx), na qual indivíduos que permanecem estruturalmente subordinados aos meios de produção digital passam a identificar-se simbolicamente com a lógica do poder, acreditando-se “donos” daquilo que, na prática, apenas utilizam, e isto sustentado por uma narrativa de autonomia no trabalho, que por sua vez mascara relações de dependência estrutural.
Se no passado esclavagista o acesso ao poder de explorar o trabalho alheio era restrito a poucos, hoje o que se democratiza não é esse poder em si, mas a crença na sua acessibilidade. A promessa de “ganhar dinheiro enquanto dorme” ou “deixar a máquina trabalhar por ti” não elimina a necessidade do trabalho, mas desloca a sua compreensão, ocultando as relações que o tornam possível, criando assim, uma subjetividade orientada para o desejo de domínio, mesmo quando esse domínio é apenas simbólico. Quer dizer, o domínio deixa de ser material para tornar-se numa experiência imaginada, vendida e consumida em larga escala entre os internautas, ávidos por melhoria de sua condição de existência social.
A mesma sociedade que ensina, de forma quase obsessiva, que todos podem tornar-se “donos” de inteligência artificial não difunde que quanto mais essas tecnologias se expandem, menos necessário se torna o trabalho humano. A promessa de libertação do esforço no trabalho transforma-se, silenciosamente, numa lógica de substituição ou até eliminação da força de trabalho humana.
E, ao contrário do que se vende, essa substituição não vem acompanhada de garantias de existência digna e próspera, mas de um risco crescente de irrelevância social e económica – é a transição da exploração da força de trabalho em Karl Marx, para a dispensabilidade ou a inutilidade humana, tal como discutida no “Homo Deus” de Yuval Harari e no “Do Quarto ao Quinto Homem” de Severino Ngoenha.
O resultado é um paradoxo brutal: produz-se mais com menos pessoas, mas essas mesmas pessoas tornam-se incapazes de aceder ao que é produzido, porque o acesso continua condicionado à participação num mercado de trabalho que já não precisa delas e de uma sociedade que já as considera obsoletas. Os meios de produção digital (dados, infraestrutura, algoritmos) permanecem concentrados nas mãos de poucos, os ganhos são acumulados por alguns (hoje bilionários ou quase trilionários), e portanto, qualquer ganho de eficiência tecnológica tende a ampliar desigualdades social, económica, e até política.
Nesse cenário, emergem duas questões perturbadoras: o que acontece quando o teu trabalho deixa de ser necessário, porém continua a ser a condição para a tua sobrevivência? Estamos efetivamente a construir uma sociedade onde todos podem viver sem trabalhar — ou secretamente avançamos para uma sociedade onde muitos simplesmente deixarão de ter o direito de existir social e economicamente? – A resposta não é confortável: sem trabalho, não terás rendimento; sem rendimento, não poderás consumir; e sem consumo, não haverá subsistência.
O problema não está apenas na automação em si, mas na estrutura que a sustenta. A inteligência artificial que poderia libertar do esforço laboral, passa a excluir, e neste sentido, a promessa dos anúncios das plataformas digitais não é apenas ilusória — é estruturalmente perigosa, conquanto seduz indivíduos com a ideia de autonomia e lucro fácil, concomitantemente prepara um mundo onde muitos não terão sequer lugar no sistema produtivo. A inteligência artificial, neste contexto, é um espelho das contradições humanas deste tempo – a homodisseia.
Diante desse cenário, à semelhança do período da libertação dos escravizados, insistir na ideia de que este problema será resolvido apenas com “mais qualificação” ou “adaptação individual” soa ideologicamente conveniente, por ser um mecanismo de responsabilização individual diante de um problema que é, na sua essência, coletivo, não se trata de uma falha individual de preparação intelectual.
Continuar a exigir que indivíduos sobrevivam exclusivamente da venda da sua força de trabalho, num contexto em que essa força se torna progressivamente dispensável, é sustentar uma contradição insustentável. Se o trabalho deixa de ser o eixo organizador da vida social, poderá o mercado, de facto, continuar a ser o principal mediador do direito à existência? Se a resposta for não, então, precisamos repensar colectivamente os fundamentos do próprio contrato social nesta era das inteligências artificiais.
E aqui abre-se um campo de disputa que se ignorado pode constituir-se num erro fatal para o nosso tempo, porquanto, ao contrário do que sugerem os discursos otimistas, o nosso futuro não está a ser apenas programado, está a ser decidido. Talvez, então, o verdadeiro desafio do nosso tempo não seja aprender a usar a inteligência artificial para evitar o esforço no trabalho, mas decidir coletivamente o que fazer com o mundo que ela está a tornar possível.
Por fim, talvez estejamos a projetar nas inteligências artificiais o antigo desejo esclavagista de domínio total sobre a força de trabalho, uma espécie de trabalhador perfeito, que não questiona, não reivindica e não falha, e sobretudo não se rebela, pelo menos não de forma consciente. Considerando que a possibilidade de um processo mais silencioso e inquietante, no qual os sistemas de inteligência artificial se tornariam tão complexos, opacos e interdependentes e que, por tal, escapassem à compreensão e ao controlo dos próprios criadores, é uma realidade remotamente possível. Contudo, cabe ressalvar que nesse cenário, não seriam as máquinas que ganhariam consciência humana — mas, o humano que perderia o domínio sobre a complexidade de um sistema artificial que já não controla plenamente.
Talvez, no fim, a questão mais perturbadora não seja se a inteligência artificial pode rebelar-se, mas se, ao tentar eliminar toda forma de resistência humana ao trabalho, não acabámos por eliminar também a nossa própria capacidade de intervir no mundo.
Entre o desejo de domínio absoluto e a possibilidade de perda total de controlo, revela-se uma contradição fundamental: ao criar sistemas para servir sem limites, podemos estar a construir um mundo onde já não somos nós que definimos os limites da dependência, que se torna estrutural a cada acesso, a cada click aqui ou saiba mais das plataformas digitais.
A crítica que aqui formulo não deve recair sobre o avanço da tecnologia em si, mas sobre as narrativas que a envolvem. Julgo ser necessário questionar a ideia de que estamos a nos tornar “donos” ou “criadores” da inteligência artificial, sem refletirmos profundamente sobre as condições da existência humana nesse novo contexto. Trata-se de um problema profundamente social, político e filosófico.
03/04/2026
1 Sociólogo. Doutor em Ambiente e Sociedade pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP/ Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (2014-2018). Mestre em Sociologia pela Universidade Federal Fluminense (2012-2014). Graduação em Sociologia pela Universidade Eduardo Mondlane (2007-2011); Possui experiência de pesquisa nas áreas de Sociologia, Ambiente, e desenvolvimento comunitário, bem como de gestão de projectos socioambientais; Tem participado de diferentes programas e organizações nacionais e internacionais ligadas a pesquisas sobre as temáticas: Mudança ambiental global, Sociologia Ambiental e Relações Internacionais; É membro fundador da Associação Para o Desenvolvimento de Projectos e Pesquisas e do Observatório das Mudanças Climáticas (Moçambique); Atualmente ocupa a posição de Director da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade WUTIVI (Moçambique) e Coordenador Científico do Instituto Superior Dom Bosco (ISDB-Moçambique).

A inteligência artificial, para além de nós idealizar sobre variados contextos, ela também nos torna escravo quando é usado excessivamente pós tira o mérito de críticas filosóficas e o poder de pensamento ideológico. Portanto é necessário chamar a razão quando trata-se a inteligência artificial…!
Inteiramente de acordo.
Penso que temos o dever de introduzir o pensamento crítico nesta adesão ao uso das IAs. Julgo importante pontuar que não se trata de ser contra o avanço tecnológico, todavia, este devemos ter garantias que este avanço não empurra a maioria para uma situação de miséria humana.