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Diálogo com Calton Cadeado

A consciência de Moçambique como primeira forma de luta

Severino Ngoenha
26 de junho de 2026

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A dimensão internacional da luta por Moçambique

O Atelier Filosófico prossegue, em 2026, a sua convocatória em torno de uma pergunta que atravessa toda a nossa história: o que significa lutar por Moçambique hoje?

A escolha deste tema parte de uma convicção simples. A luta por Moçambique não terminou com a independência. Mudaram os contextos, mudaram os desafios, mudaram os adversários, mas permanece a exigência de continuar a construir, defender e aprofundar a liberdade conquistada.

Nos encontros anteriores, refletimos sobre a necessidade de um Estado forte, sobre a cidadania, sobre a justiça e sobre as instituições. Desta vez, porém, o Atelier quis deslocar o olhar para uma dimensão que muitas vezes esquecemos: a dimensão internacional da própria existência de Moçambique.

A história do nosso país mostra que a questão internacional nunca foi periférica. A luta de libertação nacional foi travada contra uma potência colonial estrangeira. A independência foi preparada a partir de redes internacionais de solidariedade e apoio. Logo após a independência, Moçambique teve de enfrentar a hostilidade da Rodésia do Sul e do regime do apartheid na África do Sul. Durante décadas, a Guerra Fria projetou-se sobre o nosso território e condicionou profundamente as nossas escolhas.

Hoje, a questão internacional regressa sob novas formas.

Assistimos à fragmentação de vários Estados africanos, à transformação de regiões inteiras em espaços de disputa entre grandes potências, à crescente competição pelos recursos naturais e à emergência de uma nova ordem internacional cuja configuração ainda está em aberto.

Durante décadas vivemos num sistema internacional cujas regras fundamentais foram definidas sem a nossa participação. Quando as instituições que hoje estruturam a ordem mundial nasceram, Moçambique ainda não existia como Estado independente. Fomos chamados a reconhecer normas cuja elaboração não contou com a nossa voz.

Mas o mundo está novamente em transformação. Muitas das regras que organizaram a ordem internacional após a Segunda Guerra Mundial estão a ser questionadas. E quando uma ordem internacional se desfaz, outra começa a nascer.

A pergunta torna-se então inevitável: estaremos sentados à mesa ou faremos parte do menu?

Calton Cadeado Nov 18 2024

Foi para refletir sobre esta questão que o Atelier convidou Calton Cadeado, especialista em Relações Internacionais. A sua intervenção trouxe uma perspetiva original e provocadora. Em vez de começar pelo sistema internacional, começou por uma pergunta mais radical: estaremos nós próprios suficientemente conscientes daquilo que queremos defender?

A voz de Calton Cadeado

Calton Cadeado

Quando falamos de relações internacionais, temos tendência para olhar de fora para dentro. Mas não podemos compreender o exterior sem compreender primeiro o interior.

Lutar por Moçambique hoje significa reconhecer uma verdade simples: estamos condenados a lutar para sempre. As lutas mudam, mas nunca desaparecem.

A primeira luta é garantir que Moçambique continue a existir.

Muitas pessoas assumem que o Estado moçambicano existe e existirá para sempre. Não é verdade. Os Estados nascem, crescem e desaparecem. A sobrevivência do Estado é o primeiro interesse nacional.

Quando olhamos para a nossa região, percebemos que não podemos dormir tranquilos. A existência do Estado nunca está definitivamente garantida.

Mas há algo ainda mais preocupante: muitas vezes somos nós próprios os primeiros a enfraquecer a consciência de Moçambique.

Olhem para os nossos documentos oficiais. Quantas vezes aparece a palavra Moçambique? Dá a impressão de que temos vergonha de pronunciar o nome do país.

Não se defende aquilo que não se nomeia.

Se os próprios agentes do Estado não colocam Moçambique no centro do seu discurso, como podemos esperar que os cidadãos desenvolvam uma consciência nacional forte?

Quando outros países defendem os seus interesses, fazem-no em nome da sua nação. Fazem-no em nome do seu Estado. Nós precisamos de desenvolver a mesma consciência.

Lutar por Moçambique começa por afirmar Moçambique.

Mas não basta afirmar Moçambique. É preciso criar as condições para que ele sobreviva.

E a principal condição para isso é o capital humano.

Temos hoje mais escolas, mais universidades e mais licenciados do que tínhamos no passado. Mas quantidade não significa necessariamente capital humano.

O nosso sistema educativo continua demasiado dependente de teorias produzidas noutros contextos. Muitas vezes ensinamos os nossos estudantes a compreender os problemas dos outros antes de compreenderem os seus próprios problemas.

Como vamos lutar por Moçambique se não conseguimos pensar Moçambique?

Como vamos defender os nossos interesses se não produzimos conhecimento sobre a nossa própria realidade?

O grande desafio não é apenas formar pessoas. É formar cidadãos capazes de pensar Moçambique e de agir em função de Moçambique.

Lutar por Moçambique é aprender a nomeá-lo

A intervenção de Calton Cadeado introduz uma dimensão nova no percurso do Atelier Filosófico.

Enquanto Luís Bernardo Honwana insistia na força do Estado, Elísio Macamo na cidadania e na palavra, e Carlos Martins na justiça e nas instituições, Calton Cadeado desloca a reflexão para um plano ainda mais elementar: a consciência nacional.

A sua pergunta é aparentemente simples, mas profundamente perturbadora.

Será que estamos verdadeiramente conscientes de Moçambique?

A força da sua intervenção reside precisamente no facto de recusar começar pela geopolítica. Ele não começa pelas grandes potências, nem pelos conflitos internacionais, nem pela nova ordem mundial. Começa pelo nome.

Poderia parecer um detalhe. Não é.

Toda a tradição filosófica sabe que nomear é reconhecer existência. Aquilo que não é nomeado tende a desaparecer do horizonte da consciência. Aquilo que deixa de ocupar a linguagem acaba por deixar de ocupar também a imaginação política.

Quando Calton Cadeado observa que os próprios documentos do Estado evitam frequentemente pronunciar o nome de Moçambique, ele não está a fazer uma crítica linguística. Está a fazer uma crítica civilizacional.

Calton Cadeado 1

A sua tese pode ser resumida numa fórmula simples: não se defende aquilo que não se pensa; não se pensa aquilo que não se nomeia.

Por isso, a sua intervenção aproxima-se de uma questão que atravessa toda a filosofia política moderna: a relação entre comunidade e consciência.

Nenhuma comunidade política sobrevive apenas através das suas fronteiras. Nenhum Estado existe apenas porque possui território, forças armadas ou instituições. Os Estados sobrevivem porque existe uma comunidade de destino que se reconhece a si própria como tal.

É precisamente por isso que a questão do capital humano ocupa um lugar central na sua reflexão.

Não basta ter escolas. Não basta ter universidades. Não basta produzir diplomas.

A verdadeira questão é saber se estamos a produzir cidadãos capazes de pensar a realidade moçambicana a partir dos seus próprios problemas, das suas próprias experiências e dos seus próprios desafios.

Esta preocupação aproxima-se de uma questão que percorre grande parte da filosofia africana contemporânea: a soberania cognitiva.

Tal como a independência política procurou garantir a capacidade de decidir sobre o nosso destino, a soberania cognitiva procura garantir a capacidade de pensar esse destino.

Talvez seja precisamente aqui que a intervenção de Calton Cadeado ganha a sua maior profundidade.

A sobrevivência de Moçambique não depende apenas das suas fronteiras.

Depende da existência de moçambicanos capazes de imaginar Moçambique, de pensar Moçambique, de estudar Moçambique e de agir em nome de Moçambique.

Porque um país começa a desaparecer muito antes de desaparecer do mapa.

Começa a desaparecer quando deixa de ocupar a consciência dos seus próprios cidadãos.

E talvez a primeira forma de lutar por Moçambique hoje seja precisamente esta: recusar o esquecimento de Moçambique.

Nomeá-lo.

Pensá-lo.

Conhecê-lo.

E, a partir daí, defendê-lo.

Marcos Carvalho Lopes

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