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Entre o tempo e as circunstâncias

O mundo é um tabuleiro de xadrez, e a tentação é olhar só para reis e rainhas.

ensaio Severino Ngoenha

Há uma frase de Hegel que atravessou a modernidade como programa: a filosofia é o seu tempo apreendido por conceitos. A imagem de Napoleão atravessando Jena – o “espírito do tempo montado a cavalo” – diz, em linguagem quase teológica, que o sentido do mundo se concentra em grandes figuras e grandes instituições: nelas o universal ganha forma, nelas o tempo parece encontrar direção. Mas Ortega y Gasset, com a sobriedade de quem recusa qualquer providencialismo, responde com a sua frase axial: “eu sou eu e as minhas circunstâncias”. Ninguém pensa fora do lugar onde está; ninguém interpreta o tempo sem o filtro da vida concreta. Entre estas duas perspectivas, abre-se uma tensão que é mais do que teórica: é um problema de orientação. Subordinar as circunstâncias ao tempo, como se o mundo fosse uma marcha racional; ou subordinar o tempo às circunstâncias, como se todo universal fosse apenas um eco da nossa posição particular.

Composicao dividida

O nosso drama é que, hoje, qualquer que seja o caminho escolhido, chegamos à mesma sensação: perdeu-se o Norte. E é crucial dizê-lo com rigor: perdeu-se o Norte quer olhemos de cima para baixo, quer olhemos de baixo para cima. Se olharmos “hegelianamente”, a partir do topo – das instituições do multilateralismo e da gramática internacional construída depois de 1945 – a perda do Norte aparece como decomposição do eixo normativo. A promessa de uma ordem regulada por regras, por direitos, por equilíbrios, por previsibilidade, cedeu lugar à recomposição permanente, a uma política mundial onde a força, a dissuasão e a desconfiança ocupam o centro da cena. A arquitetura do mundo parece intacta, mas o seu fundamento moral está fissurado. A “casa das nações” mantém-se de pé, mas o seu interior tornou-se menos habitável.

Se, ao contrário, olharmos a partir do Sul, a partir das nossas circunstâncias -Moçambique como exemplo emblemático, mas não exclusivo – a perda do Norte não é menos evidente. Um país pode nascer como projecto ético, como promessa de justiça, como vocação de dignidade, e ainda assim perder, pouco a pouco, os valores que o fundaram. O que se dissolve não é apenas um programa político; dissolve-se um horizonte. A gramática do comum enfraquece, o individualismo substitui o projeto colectivo, a desigualdade devora a legitimidade, a cidadania transforma-se em sobrevivência. Perder o Norte, aqui, não é apenas perder orientação internacional; é perder a fidelidade às razões que tornaram uma nação possível.

Entre o topo hegeliano e o chão orteguiano, há ainda camadas intermediárias que confirmam a mesma tese. A África Austral construiu-se como esperança política contra o apartheid e contra a lógica de discriminação; mas essa esperança trazia implicitamente outra exigência: não apenas reconhecimento político-racial, mas redistribuição económica e cidadania social. A SADC, herdeira dessa vontade histórica, perdeu o foco, tornou-se frequentemente um espaço onde a cooperação cede à competição, e onde as assimetrias estruturais se traduzem em desigualdades persistentes, tensões sociais e relações de dependência interna. A potência regional (RSA) convive com a periferização dos vizinhos; o sonho de uma comunidade de destino comum transforma-se em uma geografia de hierarquias.

Se subirmos mais, o continente confirma a mesma perplexidade. O ideal pan-africano sonhou os Estados Unidos da África: unidade para que a África se tornasse sujeito da história e não objecto das agendas alheias. A OUA nasceu já como compromisso, com o handicap de uma unidade desejada mas não assumida integralmente. Sessenta anos depois, a metamorfose institucional em União Africana não resolveu o essencial: a organização é capaz de cimeiras, declarações e intenções; mas raramente consegue traduzir isso em integração efectiva, em democratização consistente, em bem-estar social, em capacidade de pesar no mundo. É como se o continente se reunisse para reconhecer a sua própria dispersão. E, no topo final, o cenário internacional fecha o círculo: quer caminhemos das Nações Unidas para África, para a região, para o país, quer invertamos o percurso – do país para a região, para o continente, para o mundo – encontramos, em toda parte, a mesma frase silenciosa: estamos sem bússola.

É preciso, então, formular a consequência filosófica: não pode haver Norte global se não houver Norte nos particulares; mas também não pode haver Norte nos particulares se eles não estiverem em diálogo com um Norte global. Um país não se orienta sozinho no vazio; mas uma ordem mundial não se orienta se as suas partes internas forem laboratórios de desigualdade e de desumanização. A tarefa de reconstrução é simultânea: local, regional, continental e universal. E é aqui que Ortega volta a impor a sua verdade: nós pensamos o mundo a partir de nós; mas, mais do que isso, pelas nossas ações, participamos na sua configuração. O mundo não é apenas o que nos acontece; é também o que fazemos acontecer.

É neste ponto que a metáfora de Stefan Zweig, em O Jogador de Xadrez, se torna decisiva. O mundo é um tabuleiro e a tentação é olhar apenas para reis e rainhas: os grandes Estados, as grandes economias, os grandes líderes, os grandes fóruns. Mas o bom jogador sabe que reis e rainhas não ganham sem peões. São os peões que abrem o caminho; são eles que criam o possível. O que parece fraco, quando se move com inteligência, determina o espaço de manobra do que parece invencível. A ousadia do nosso tempo consiste em compreender que os “peões” – países periféricos, regiões subalternizadas, povos invisibilizados – podem organizar-se, articular-se e, assim, condicionar as grandes decisões. Não é preciso transformar isso num slogan marxiano, embora valha a pena recordar Marx para delimitar o que não se pretende: não se trata de repetir “proletários do mundo inteiro, uni-vos” como fórmula de uma guerra geral de classes. Trata-se de reconhecer, sem romantismo, que a união estratégica dos pequenos pode abrir a possibilidade de um universal menos assimétrico.

E aqui emerge um ponto essencial que dá gravidade ao texto: a reorganização do mundo não pode ser uma competição por hegemonias. O Norte que se perdeu não deve ser substituído por um Sul triunfante, nem por um novo centro que repita a velha lógica sob nova bandeira. A ascensão da China, o discurso dos BRICS, as recomposições geopolíticas actuais não são, por si, uma utopia humanista; são rearranjos de interesses. A grande questão não é “quem manda”, mas “para quê manda”. É nesta inflexão que Glissant se torna indispensável: o “universal do Todo-Mundo” não é a generalização de uma cultura particular; é um universal relacional, tecido pela dignidade de todas as diferenças. A modernidade proclamou direitos universais – e a Declaração de 1948 permanece um marco moral – mas falhou largamente na sua materialização porque o universalismo permaneceu, muitas vezes, etnocentrado e selectivo: reconhecia em teoria, hierarquizava na prática.

Um tabuleiro de

Dar corpo político e institucional ao universal do Todo-Mundo significa reconverter a própria ideia de potência. A potência não deve ser medida pela lista da Forbes, nem pela capacidade de dominar mercados e territórios, nem pela eficácia de humilhar o adversário. A potência, se quiser ser humanista, deve medir-se pela capacidade de retirar a miséria aos miseráveis sem precisar “roubar” a vida aos ricos; pela capacidade de garantir a cada ser humano as condições mínimas que fazem do homem um verdadeiro homem. E aqui o texto precisa ser severo: não há reconhecimento sem pão. Não há dignidade sem escola. Não há liberdade sem saúde. Não há democracia efectiva se a desigualdade transforma a cidadania em ficção. A gramática dos direitos humanos não é apenas uma gramática de discursos; é uma gramática de necessidades básicas satisfeitas, de participação real, de horizonte de futuro.

Mas esta gramática não pode ser exigida apenas no exterior. Não podemos reivindicar nas Nações Unidas aquilo que traímos no interior. A legitimidade de um país para exigir redistribuição e reconhecimento no mundo nasce da sua capacidade de praticar redistribuição e reconhecimento em casa. O mesmo vale para a região, para o continente. Em outras palavras: realizar democracia, participação e redistribuição em Moçambique dá a Moçambique a autoridade para exigir isso na SADC; uma SADC coerente dá à África Austral força para exigir isso na União Africana; uma União Africana efetiva dá ao continente legitimidade para exigir uma reforma real da economia mundial. Sem esse percurso, corremos o risco de um anticolonialismo meramente externo, que denuncia o dominador lá fora enquanto reproduz, cá dentro, as mesmas gramáticas de exclusão, apenas com outras máscaras.

O novo mundo que precisamos não é “America First”, nem “China First”, nem “Europe First”, nem “blocos first”. A utopia que deveria reemergir – e aqui vale a pena ser deliberadamente antitrumpiano no sentido filosófico, não no sentido partidário – é outra: a condição humana first. Não significa que todos sentem numa mesa como iguais em Nova Iorque ou Genebra; significa corresponsabilização: agir de tal modo que nenhuma criança seja descartável, que nenhuma comunidade seja considerada resto, que nenhum território seja tratado como zona de sacrifício. E isso exige uma mudança de civilização, uma metanoia: menos competição, mais cooperação; menos culto do ranking, mais disciplina do cuidado; menos soberania como domínio, mais soberania como capacidade de garantir vida digna.

A crise climática torna esta metanoia ainda mais inadiável. Não é possível continuar a imaginar o mundo como arena infinita de disputa quando o próprio lugar que nos habita se fragiliza. Heidegger lembrava: somos seres-no-mundo e somos seres-com-os-outros. Ser-no-mundo implica preservar a habitabilidade; ser-com-os-outros implica reconhecer o outro não como competidor absoluto, mas como condição da nossa própria humanidade. E, sem fatalismo, há ainda aquela sombra comum que atravessa todos: o ser-para-a-morte. Não para produzir apocalipses, mas para recordar que a morte dá urgência à vida, e que o sentido da política não pode ser a exibição de potência – tem de ser a construção de condições para que a vida valha a pena, para todos, em toda latitude.

Se o Norte se perdeu em toda parte, então o verdadeiro desafio do nosso tempo não é escolher um novo Norte para dominar o mapa. É reconstruir lugares de sentido – no país, na região, no continente e no mundo – onde democracia, participação, reconhecimento e redistribuição se tornem práticas, e não promessas. É aprender a jogar o xadrez histórico com ousadia: mover os peões com inteligência, unir o que está disperso, abrir caminhos para que o universal deixe de ser um privilégio e se torne uma casa habitável. O mundo é possível. Produzimos já recursos suficientes para retirar a pobreza extrema sem destruir a riqueza legítima. A pergunta não é de capacidade; é de vontade e de organização. A grande utopia humanista do século XXI deverá, portanto, deslocar o centro do jogo: menos hegemonias, mais humanidade; menos competição, mais cooperação; menos “primeiros” e “últimos”, mais corresponsabilidade pela vida. Esta é a tarefa. E é nela que os nossos valores – locais, regionais, continentais – devem aprender a tornar-se universais, não por conquista, mas por reconhecimento e justiça.

Marcos Carvalho Lopes

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