Ícone do site filosofia pop

Filosofia em Angola: Lições sobre o Edifício da Existência, do Pensar e do Agir

por Mwandishi Aliyefichwa

O estigma persistente da filosofia como uma abstração impraticável, uma ciência “estranha” ou um exercício intelectual que “não lucra” é um mito que o contexto angolano desmantela de forma decisiva. Para muitos, a disciplina é vista como um corpo estranho à cultura, muitas vezes por ser julgada sob métricas europeias que ignoram a densidade da realidade local. No entanto, como propõe a pensadora Mambo Teresa Mwanza, a filosofia em Angola não é um distanciamento da realidade, mas mergulho nas “águas profundas da experiência cultural”. O objetivo deste ensaio é revelar como o pensamento angolano, longe de ser um luxo teórico, é uma ferramenta vital que redefine nossa visão sobre comunidade, humanismo e a própria eficácia da ação humana.

O Despertar da Sensibilidade: O Olhar Além do Preconceito

A tarefa do filósofo angolano começa com o que Mwanza define como uma “faculdade fundamental”: a sensibilidade filosófica. Não se trata de um mero interesse acadêmico, mas de um “afinar do sentido” extraordinário que reside no ser humano. É este refinamento que permite ao pensador debruçar-se sobre a sabedoria africana sem as lentes distorcidas de ideias pré-fabricadas ou estereótipos étnicos.

Essa sensibilidade exige uma limpeza intelectual. Para colher a riqueza presente nos mitos, lendas, provérbios e danças, o filósofo deve primeiro eliminar as imagens negativas e os preconceitos que nublam a compreensão dos povos. É um exercício de liberdade e independência ideológica necessário para que a filosofia seja uma expressão autêntica da alma. Conforme pontua Mwanza:

“O filósofo deve contar a filosofia em Angola de forma livre e independente de ideologia. Naturalmente, quem sabe nem sempre é aquele que conhece — pois o verdadeiro conhecimento exige a profundidade da experiência viva.”

Contra o “Copia e Cola”: A Autenticidade do Ser e do Agir

Um dos pilares do edifício filosófico angolano é a rejeição veemente aos modelos “copia e cola”. Mwanza argumenta que adotar cegamente os paradigmas ocidentais, americanos ou asiáticos como medidas universais condenaria o pensador angolano à condição de mero “reprodutor de ideias”. A originalidade nasce da diferença, e o objeto primordial de estudo deve ser o modos vivendi: a forma única como o angolano pensa, sente e existe.

Nesta perspectiva, o pensamento, o ser e o agir formam uma tríade inseparável. O pensador não é um “robô” comandado mecanicamente por teorias externas; sua forma de pensar deve determinar diretamente sua forma de ser e de agir na sociedade. É essa integração que impede o pensamento de se tornar um vazio teórico e o transforma em uma expressão da identidade nacional.

O Humanismo como Praxis: Uma Estratégia de Presença

Embora a filosofia seja frequentemente acusada de inutilidade econômica, Mwanza apresenta uma visão contraintuitiva e poderosa: o humanismo como estratégia fundamental de desenvolvimento. Em um mundo obcecado por técnica e lucro imediato, a filosofia ensina que o sucesso de qualquer empresa ou empreendimento depende, fundamentalmente, da qualidade humana.

O filósofo é, por natureza, uma força criativa e dinâmica que recusa a acomodação. Ele traz para o mundo do trabalho um olhar crítico e uma compreensão profunda da realidade social. O argumento é pragmático: “onde houver muito humanismo, haverá muita gente”. No contexto angolano, os serviços e negócios prosperam onde o humano é valorizado acima da ferramenta técnica. A filosofia, portanto, não é um adorno, mas o alicerce para tornar as organizações “mais humanas” e, consequentemente, mais bem-sucedidas.

O Princípio da Complementaridade: A Teia do Edifício Filosófico

Dentro do “edifício filosófico” africano, a característica mais marcante é o Princípio da Complementaridade. Em oposição ao mito ocidental do self-made man, a filosofia angolana é intrinsecamente comunitária. É uma “filosofia do agir” que reconhece que ninguém se realiza no vácuo.

Para ilustrar essa “corrente de ação”, Mwanza utiliza o exemplo vívido de um estudante de licenciatura. O sucesso deste indivíduo não é um mérito isolado, mas o resultado de uma rede invisível de suporte:

Essa percepção da existência como uma teia de mútua dependência transforma a ação individual em um compromisso coletivo. A vitória de um é, ontologicamente, a vitória da corrente que o sustenta.

A Escrita nos Braços da Oralidade

A sistematização do pensamento angolano exige o registro escrito, mas este nunca deve se desconectar de seu alicerce indispensável: a oralidade. A escrita, para ser fiel à realidade africana, deve servir como suporte para a experiência vivida e transmitida através das gerações.

Há um convite urgente aos jovens investigadores para que não se fechem em gabinetes, mas se aproximem dos “símbolos vivos” — os mais velhos. São os anciãos que guardam a substância que dá alma ao papel. Sem essa consulta à fonte oral e aos símbolos da tradição, a filosofia corre o risco de se tornar uma letra morta, desprovida da seiva da experiência.

Conclusão: Um Convite à Vida Consciente

Contar a filosofia em Angola é, em última análise, contar a vida do homem em sua plenitude social. Pensar, ser e agir são fios do mesmo tecido; se removermos o elemento “vida” da reflexão intelectual, restará apenas um vácuo de niilismo, um deserto de significados.

A filosofia africana nos ensina que a consciência não é um retiro solitário, mas uma prática de engajamento com o outro. Diante da profundidade dessa “filosofia do agir”, resta-nos uma provocação necessária: de que maneira a sua forma de viver e as suas ações de hoje estão fortalecendo a complementaridade e o tecido da comunidade que o rodeia?

Sair da versão mobile