texto de Gonçalo Armijos Palácios*

Ao discutir as Lições sobre filosofia da história em sala de aula, especificamente a Introdução Geral, um estudante levanta o problema do livre-arbítrio. Se há uma razão absoluta que controla o rumo da história, como pensa Hegel, como poderíamos falar do livre-arbítrio humano? O paradoxal é que há estes conceitos fundamentais na história: liberdade e autoconsciência. A história é o processo de conquista da autoconsciência do Espírito Absoluto, em Hegel. Mas se esse processo é controlado, como ele diz, pela “astúcia da razão”, se é a razão que age por trás das ações humanas, como poderíamos falar verdadeiramente de liberdade humana?
Este é um problema filosófico que mais tarde ou mais cedo aparece na vida das pessoas e que, efetivamente, é um problema filosófico muito antigo. Particularmente com o aparecimento do cristianismo. Saindo momentaneamente do sistema hegeliano, e pensando na nossa concepção cristã, nos topamos com alguns problemas que resultam de nossa concepção de Deus como onisciente e criador de todas as coisas. Se Deus é onisciente, como poderíamos chegar a fazer coisas que já não estivessem na mente divina? Ou seja, como agir de maneira diferente daquela que Deus já sabe que vamos agir? Se não podemos agir de forma diferente daquela que Deus já sabe que vamos agir, como podemos considerar que somos livres? A onisciência divina não predeterminaria nosso agir?
No caso do sistema hegeliano, o problema não aparece nesses termos. Isto é, Hegel não afirma que o Espírito Absoluto sabe como vamos agir. Na filosofia da história hegeliana o problema aparece de outra forma, e desde o início. Por quê. Porque para chegar à autoconsciência, o Espírito Absoluto “escolhe” um povo no qual deve começar seu processo para chegar à autoconsciência final e total. Isto ocorre já na antiguidade e, primeiro, “escolhe” o povo chinês porque pelo menos um ali é livre, o déspota. O Espírito Absoluto precisa da liberdade para se afastar da mera naturalidade em que estava e aceder à sua realidade própria, à realidade espiritual, pois é por meio da razão, que é espírito, que chegará alguma vez à autoconsciência. Só que o fato de ser apenas um livre, o déspota, impede o desenvolvimento do espírito na medida em que nesse povo não se ampliará a liberdade. Por isso o Espírito Absoluto abandona o povo chinês e escolhe o povo grego, pois nele “alguns” são livres, a liberdade ampliou-se. E é aqui também, com os antigos gregos, que o Espírito Absoluto começa seu processo de autoconsciência, concretamente pela filosofia de Anaxágoras que teria sido o primeiro a descobrir que o “nous” (a razão, o pensamento) governa o mundo.
Esse processo, essa evolução, do Espírito Absoluto em direção ao fim último que seria o da total liberdade e da autoconsciência absoluta começa a soar paradoxal, e aqui se justifica a preocupação do estudante, pois a forma em que esse processo ocorre não deixa de levantar dúvidas. Ainda mais quando Hegel recorre à “astúcia da razão”. Para que a história avance, para Hegel, ela precisa de heróis, de grandes personalidades, como Alexandre, Júlio César, Napoleão. O Espírito Absoluto termina se aproveitando das ações dessas grandes figuras históricas para alcançar, não os fins que esses seres humanos se propuseram, mas o fim da própria razão universal. Aliás, esses heróis da história tiveram, sempre, um fim trágico ou um fim triste. Terminaram mortos, assassinados ou em desgraça.
E é aqui que está o nó da questão e que explica a preocupação do estudante. Para Hegel, essas grandes personalidades não agiram por caprichos pessoais nem levados por interesses estreitos. Nem procuravam sua própria felicidade. Iam atrás de fins superiores. Foram levados por motivos racionais e por um interesse maior, motivos e interesses que eram os que permitiriam a evolução do Espírito Absoluto e sua realização na história.
Para Hegel, o comum dos mortais, pelo contrário, age levado pelo interesse e pelo capricho pessoal. Eles fazem isso porque têm livre-arbítrio. O livre-arbítrio, para Hegel, não é a verdadeira liberdade. A liberdade está num plano superior da ação humana. Enquanto a pessoa que age procurando satisfazer suas paixões e interesses pequenos o faz por seu arbítrio, aqui se vê como o “arbítrio” está dentro do agir arbitrário e, portanto, do plano da arbitrariedade. “Arbitrariedade” tem, para nós, um sentido negativo. Esse é o sentido que livre-arbítrio tem em Hegel. O agir livre já é um obrar por motivações e fins superiores, motivações e fins que estão longe da estreiteza dos interesses e vontades pessoais e se situam no plano maior da vontade universal. De qualquer forma, a objeção do estudante se mantém: mas tinham Alexandre, Júlio César e Napoleão outra escolha que não agir como, no fundo, queria o Espírito Absoluto? Se não podiam, por razões superiores às suas vontades, foram, então, realmente livres?
*Gonçalo Armijos Palácios
José Gonzalo Armijos Palácios possui graduação e doutorado em Filosofia pela Pontificia Universidad Católica Del Ecuador (1978 e 1982, respectivamente) e doutorado em Filosofia pela Indiana University (1989). Realizaou estudos de pós-doutorado na Indiana University em 1996 e 1997. Desde1992 é professor titular da Universidade Federal de Goiás. Tem experiência na área de Filosofia, atuando principalmente nos seguintes temas: filosofia, metafilosofia, filosofia política e ensino de filosofia. Participou do Grupo de Sustentação para a criação do GT Filosofar e Ensinar a Filosofar, em 2006, do qual foi seu primeiro coordenador eleito. Foi o fundador do Curso de Pós-Graduação em Filosofia da UFG (1993), da revista Philósophos (1996), do Curso de Graduação em Filosofia da cidade de Goiás da UFG, em 2008, e participou da criação do Campus Cidade de Goiás da UFG em 2009.
