ensaio de Manuel Cochole Paulo Gomane

Recentemente, a propósito das urgências moçambicanas em tempos de violência e injustiça, li o seguinte: “Se assim fosse, mesmo que todo o povo dissesse entregue-nos as armas que nós vamos combater os novos inimigos de Moçambique — e se, ao mesmo tempo, aparecesse um único homem que estivesse contra todos, sozinho, contra esta entrega de armas, eu apoiaria (no sentido de servir de suporte) a este único e ‘último homem’ que optasse pela não-violência.” (Castiano, 2025).
Na semana passada, após a morte de Luísa Diogo, recebi de uma intelectual e ativista por causa da mulher moçambicana — lutadora incansável pelo ativismo epistêmico e pela reparação histórica do lugar da mulher na estória de Moçambique — uma mensagem. Refiro-me a D.P., autora de “Joana Semião, Homo Œconomicus e Homo Politicus: Urdindo uma Epistemologia ‘Tolerante’ Moçambicana”. A propósito das reações à morte de Luíza Diogo nas redes sociais, ela escreveu-me no WhatsApp: “Tempos difíceis, irmão. Txa. As pessoas estão a exagerar.” (DP).
Naquele momento, eu estava mergulhado na leitura do livro de Miranda Fricker, Injustiça Epistêmica: o poder e a ética do conhecimento (2023). Era uma daquelas leituras rápidas, em busca de uma citação que escapara das minhas notas de leitura. Se não me engano, era esta: “Alguns tipos de justiça, a sua própria existência pode não vir à luz, nem mesmo como uma ideia coerente, até que se olhe primeiro para casos típicos de fracasso.” (Fricker, 2023).
As injustiças refletem, em sua maioria, sociedades desiguais. Rousseau distingue duas formas de desigualdade na espécie humana: a natural ou física estabelecida pela natureza — como as águas que afetam Moçambique e provocam inundações (como ocorreu antes e está ocorrendo neste janeiro de 2026) — e a desigualdade moral ou política, que depende de convenções estabelecidas ou autorizadas pelo consentimento dos homens. Neste caso, o resultado das cheias pode ser avaliado pelo juízo de valor e pela responsabilidade material dos que deveriam prevenir apoiar e gerir as zonas inundadas, minimizando o sofrimento humano. Assim, o resultado é medido pelas ações políticas e morais na gestão das pessoas e da coisa pública. Estou afirmando que os políticos, em última instância, são responsáveis pelas desigualdades sociais, e não pelas naturais.
Estamos, portanto, em sociedades caracterizadas por desigualdades, enquanto buscamos um estatuto democrático igualitário. Rousseau (2017) alerta: “Outros poderão facilmente ir mais longe ao mesmo caminho, sem que seja fácil para ninguém chegar ao fim, porque não é empresa leve discernir o que há de original e de artificial na natureza atual do homem e conhecer bem um estado [igualitário] que não existe mais, que talvez não tenha existido, que provavelmente não existirá nunca e do qual, no entanto, é necessário ter noções justas para bem julgar nossos estados presentes.”
Como humanos, procuramos uma justiça como equidade, segundo Rawls, mas o caminho ainda é longo. Os eventos recentes mostram que parece caminharmos na direção contrária: na política (temos o caso da Venezuela), passando pelo quotidiano (onde uma turista argentina consegue chamar um negro de “macaco”, no Brasil em pleno 2026), até os desastres naturais agravados, muitas vezes, pela incompetência humana (Moçambique), e, no desporto, o futebol, objeto da minha reflexão, vimos o caso polemico da final do CAN-2025.
É da final da Taça das Nações Africanas de 2025 (CAN-2025) sob a perspectiva do Ubuntu que quero falar, “um pouquinho”, como se diria na linguagem corriqueira de parte de Moçambique.
Os eventos, quaisquer que sejam, oferecem lições. “Tive o tempo que o tempo me deu” para assistir ao jogo da final da CAN. Ando afastado do futebol atual, que muitas vezes significa mais números do que espetáculo em campo. Mas, estando na diáspora, o CAN-2025 foi a oportunidade de ligar-me emocionalmente à nação, reacender o fogo da paixão pelo futebol e pela pátria. O futebol é isto: une ao mesmo tempo em que separa, mas, sobretudo une.
Acompanhei os jogos de Moçambique e, como qualquer adepto comum oscilou entre alegrias e tristezas, expectativas e decepções, vibrando e amando a minha mátria, terra que cuida de mim e dos meus, apesar dos traços soteropolitanos atualmente visíveis em mim. O saldo foi positivo para Moçambique no CAN-2025.
Depois, acompanhei os jogos, torcendo pela Nigéria e pelo Senegal, acompanhando as notícias dos estágios e das condições em que estas seleções eram tratadas. Vi quase todos os jogos da fase seguinte, exceto dois ou três. Após a classificação do Senegal, fiz uma longa chamada a um amigo (Píer), e falamos das estrelas senegalesas como El Hadji Diouf e outros, antigas glórias que ainda não vi igualadas. Foi fantástico.
Tudo indicava que Marrocos seria o campeão, por mérito acumulado nos últimos anos. Contudo, a forma como a copa transcorria fora de campo deixava um sentimento de injustiça — desigualdades não naturais, como diria Rousseau. Exemplo: Senegal critica tratamento recebido no Marrocos na véspera da final da Copa Africana – Estadão (Estadão, 17/01/2026).
O que me marcou, porém, foi um episódio simples: o gesto de Sadio Mané após o pênalti assinalado e reclamado efusivamente por Brahim Díaz, jogador do Marrocos. Quando quase todos queriam desistir, Mané persistiu. Mostrou que estar só não significa estar errado, mas ter a fé que os outros não têm, ver a luz onde os outros não veem, acreditar que o grupo também se fortalece no isolamento. Uma lição individual pensada para o coletivo: comunitarismo.
Mané mostrou que, diante das injustiças, é necessário perseverar, acreditar em proteção — seja divina ou ancestral. Ele é testemunho de um isolamento que fortalece o grupo: Ubuntu. Como explica Ramose (2009), “Ubu- como ser-sendo encoberto está sempre orientado em direção ao descobrimento, isto é, manifestação concreta, contínua e incessante por meio de formas particulares e modos de ser. Neste sentido, ubu- está sempre orientado em direção a –ntu.”
Ubuntu não é apenas o coletivo acrítico. Como lembra Ngomane (2022), “Ubuntu não pode ser confundido com gentileza. Gentileza é algo que podemos tentar demonstrar de um modo melhor, mas o ubuntu é algo muito mais profundo.” Mané deixou a lição de que Ubuntu é também acreditar nos valores comunitários mesmo na solidão, nas travessias que nos fazem refletir individualmente sobre nossas ações dentro da coletividade.
Ubuntu é também reconciliação, no sentido em que Castiano (2023) define Inter-Munthu: o sujeito da era da reconciliação. O Inter-Munthu é o indivíduo moldado por valores comunitários que toma decisões individuais em benefício do coletivo.
Mané não estava sozinho em campo: perseguia valores coletivos e comunitários, no sentido da ubuntuidade. “Ele era todos eles, sozinho em campo” — um Inter-Munthu. A humanidade deles estava nele. Correu o risco de ser conotado negativamente, pois se o resultado fosse outro, diferente da vitória do Senegal, Mané seria visto como vilão, assim como Brahim Díaz, que, se tivesse marcado o pênalti, teria mudado a história.
Neste sentido, a mensagem de Dulce — “Tempos difíceis, irmãos. (…) As pessoas estão a exagerar” — coloca-nos em reflexão e alerta constante para sabermos diferenciar os “manés” e o “Mané” da vida real. Mané é, para mim, exemplo de uma vida eticamente e comunitariamente válida.
Contudo, é necessário não esquecer o dilema: se a seleção do Senegal tivesse perdido, Mané seria visto como rosto da submissão, e não da coragem. É nisso que penso hoje: nas lições de lutar sozinho para que a vitória seja coletiva. Isso também é Ubuntu.
A postura de Mané é uma mensagem profunda que reflete a necessidade de continuarmos a lutar pela não-violência, pela redução das desigualdades humanas, sem medo de caminhar só, mesmo que isso implique ser o “último homem em campo”.
Por : Manuel Cochole Paulo Gomane 19/01/2016
Referencias bibliográficas
CASTIANO, José. O Inter-munthu: Em Busca do Sujeito da Reconciliação, Ed. Fundza, Maputo, 2023
CASTIANO, José. As urgências da moçambicanização não cabem no debate “refundar o Estado”. Revista Soletras, n. especial, novembro, Beira, 2025.
FRICKER, Miranda. Injustiça Epistêmica: o poder e a ética do conhecimento. Tradução Breno R. G. Santos. Editora EduUSP. São Paulo, 2023.
RAMOSE, Mogobe B. (1999). Globalização e o Ubuntu. In: Boaventura de Sousa Santos e Maria Paula Meneses. Epistemologias do Sul. Edições Almedina, Coimbra – Portugal, 2009.
NGOMANE, Mungi. Ubuntu Todos os Dias: Eu sou porque nós somos. Tradução de Sandra Martha Dolinsky. 1º edição, Editora BestSeller. Rio de Janeiro, 2022.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. 1755. Tradução brasileira: São Paulo: Martins Fontes, 1999.

O caminho da justiça sempre parece injusto quando caminhamos sozinhos. É preciso ter a convicção e estar seguro de que os passos que damos embora por vezes contrariados pela maioria, são os passos certos.
De facto Mané, como sempre, tomou a actitude certa, mesmo que o resultado final não viesse a lhes favorecer, o colectivo e da equipa e a nação inteira o julgaria por tal actitude.
O tempo e a sua perseverança na prática da justiça e no exercício diário de fazer a coisa certa lhes favoreceu a todos.
Fazendo uma ponte com a realidade institucional da nossa pátria amada, humanamente falando é muito difícil e talvez quase impossível ser um Mané, olhando a forma como o sistema está organizado, o funcionamento das instituições, etc etc.
Há sem dúvida vários Mané ‘s por aqui, uns caindo no erro de pensar que o que a maioria faz e o correto, acabam sendo desviados e outros (muito poucos), contra todos os riscos, vivem esse sacrifício diário da luta pela justiça e justiça para todos.
Como diz o ditado “a justiça tarda mas nunca falha”, certamente que a semelhança do S Mané, um dia estes Mané ‘s irão sentir o sabor da justiça que tanto buscam.
Obrigado pela sábia e inspiradora reflexão Doutor Cochol.