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Sala de aula, um momento filosófico

texto de Gonçalo Armijos Palácios*

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Apesar de que a maioria de professores de filosofia, treinados e acostumados a se limitar a apenas comentar as grandes obras filosóficas, não enxerguem ou não queiram enxergar em seus discentes futuras mentes filosóficas, há momentos, e não são poucos, em que isso ocorre. E acontece já nas aulas com calouros, assim como em qualquer um dos níveis mais avançados.

Lembro, por exemplo, de um caso que aconteceu há muitos anos, talvez quase trinta, numa aula de Filosofia Antiga, com uma caloura. Desde o início do semestre, ela já se destacou pela sua capacidade intelectual e sua perspicácia filosófica. E foi talvez na primeira aula na qual ia introduzir os primeiros filósofos ocidentais, os pré-socráticos, Tales, Anaximandro e Anaxímenes. Falava eu sobre o início da filosofia, apenas “filosofia”, sem mencionar se ocidentais ou orientais, e ela levantou a mão e me perguntou se no curso os estudantes não iriam estudar, também, filosofia oriental. Se ela tivesse estado frente a outro professor, com certeza teria ouvido a costumeira resposta de que “propriamente” não existe filosofia “oriental”, pois haveria apenas uma, e ela é a ocidental. Que a “chamada filosofia oriental” é apenas uma forma de nos referirmos a um tipo de pensamento “que não chega ao nível do que já foi feito em Ocidente”. Lembro que a minha resposta foi diferente. Disse que, apesar de haver, efetivamente, filosofia oriental, nenhum dos docentes do curso a conhecíamos. Nenhum de nós teria passado algum tempo no Oriente, feito estudos na Índia, ou na China, para citar dois casos, e que, para meu conhecimento, não havia ninguém que tivesse alguma linha de pesquisa ou interesse nessa área. Mas adverti que isso não diminuía o valor do pensamento oriental em geral nem da filosofia oriental em particular, mas que era uma característica da maioria de cursos de filosofia que eu conhecia em, pelo menos, três países. Mas disse também que, quem tivessse interesse, devia procurar meios para se aprofundar no pensamento filosófico oriental que, para mim, tinha tanto valor como o ocidental, o que acontece com sua literatura e todas as outras formas de pensamento criativo, seja literário, artístico ou científico. Aquela discente continuou e terminou o curso de forma brilhante, mas nunca esquecerei essa pergunta que a levou a se aprofundar no pensamento oriental.

Mas este artigo teve outra motivação que tem a ver com o problema das formas de avaliação nos cursos, qualquer curso, e nos cursos de filosofia concretamente. Pois nós todos temos determinadas inclinações teóricas, que podem ser fruto de verdadeiras paixões que nos acompanham desde muito cedo. Perguntas que ficam em volta de nós o tempo todo, e de maneira angustiante, especialmente na adolescência e na primeira juventude, o que nos leva, de fato, a este ou àquele curso, e aos cursos de filosofia, que o meu assunto.

Como todo mundo, nós, docentes, temos estas ou essas motivações, e estes e esses gostos filosóficos. Mas considero que esses gostos e interesses estão relacionados com determinadas habilidades e competências que são só nossas. Eu nunca tive, por exemplo, habilidades e competências para desenhar ou pintar, como outras pessoas demonstram ter desde crianças. Na música era outra coisa. Meu ouvido musical sempre foi privilegiado. E, segundo meu pai, minha mãe me ouvindo cantar, desde muito pequeno, teria lhe dito que eu iria ser violinista. Bom, nunca peguei um violino, mas adolescente aprendi violão e piano que me acompanham até hoje. E penso que, sem ser um gênio, sou um bom músico, mesmo que nunca tenha estudado formalmente. Só que digo isto, porque, por exemplo, quando tinha uns seis anos escutava uma canção que tinha um, digamos, “som” particular numa parte da música. Na época não sabia nem podia saber, mas o que me chamava a atenção, e me fascinava, era o som produzido por um acorde ao que se lhe aumenta uma nota, no caso, uma segunda. E termos técnicos, seira um “Sus 2”. Então, eu tinha essa habilidade que poderia tê-la desenvolvido e aprofundado se tivesse me tornado um músico profissional.

Mas o que tem tudo isso a ver com filosofia e avaliação? Bom, nisto: você, docente, diz alguma coisa em sala de aula, e esse “som” bate no “ouvido racional” de alguém e provoca uma reação. Provoca uma cadeia de pensamentos e raciocínios que levam o discente, a estudante, a levantar a mão e fazer alguma pergunta ou, então, dizer algo, se manifestar. Foi isso que aconteceu no final do semestre passado precisamente numa disciplina de Filosofia Antiga. Na última aula estava discutindo com os estudantes a solução que Platão dá na República ao problema central, a definição de justiça, e um estudante levantou a mão para se pronunciar. A solução está no Livro IV e, resumidamente, é uma reelaboração da definição de justiça do poeta Simônides. Para o poeta, “justiça é dar a cada um o que é seu”, ou “o que lhe corresponde”. Para Platão, “justiça é dar a cada um a função que lhe corresponde”. Ela é o que é “seu”, o que é da pessoa, desde seu nascimento. Platão antes recorre ao mito das almas, segundo o qual cada um nasce com uma alma diferente, de um metal específico, ouro, prata, bronze ou ferro, e nasce para mandar, lutar ou defender militarmente, ser artífice, médico, matemático, escultor, ou agricultor. Nesse momento um estudante, Guilherme1 levantou a mão e chamou a atenção sobre o caráter autoritário, ou mesmo determinista, da proposta platônica. Eu não tinha feito essa leitura da solução platônica, apesar de tê-la lido há décadas, todo início de semestre. Mas concordei com o que ele disse, e até comentei: de fato, Platão propõe uma ditadura, a dos melhores. Além de haver outras possíveis críticas: será que, de fato, só nascemos bons para apenas uma coisa? Quantas pessoas demonstram habilidades para mais de uma? E até nos surpreendemos quando, digamos, um gari, ou uma gari, numa situação determinada, começa a cantar no meio da rua, e do seu trabalho, e o faz com a voz de um tenor ou deuma soprano, sem nunca ter estudado, que surpreenderia e daria inveja aos melhores e mais famosos tenores ou sopranos. Lembro que, na hora, disse ao estudante, e aos presentes: “Guilherme, a filosofia acontece aí, este é um momento filosófico, porque você viu e não gostou, discordou. E aí, você pode escrever um ensaio, uma tese, um livro e fazer sua obra em torno desse problema”.

E que tem tudo isto a ver com avaliação? Na verdade, tem tudo a ver. Essa aula me ensinou algo, esse estudante me ensinou algo, no sentido de que me levou a aprender, porque me levou a pensar. Assim como eu não ensino filosofia, mas estimulo os discentes a pensarem filosoficamente, por cuja razão não sou eu que ensino e, sim, eles que aprendem, eu fui levado a refletir e aprender. O problema é: como avaliar, “no atacado” pessoas que nascem “no varejo”, cada um com sua especificidade própria. Como usar um e apenas um critério igual para mentes e capacidades diferentes. Temos as provas, as benditas provas que consistem nas mesmas perguntas para pessoas essencialmente diferentes, com visões, inclinações, gostos e capacidades diferentes. Aprendi, a partir daí, que apenas uma pergunta pode “valer” um semestre. Que uma prova perfeita pode não ser tão valiosa, e, claro, pode não ter nenhum valor filosófico intrínseco, o que pode ser o caso de apenas uma pergunta ou uma reflexão, que nem precisa ser longa e demorada. Penso que nem preciso dizer mais nada.

1Guilherme Freitas Campos.


*Gonçalo Armijos Palácios
José Gonzalo Armijos Palácios possui graduação e doutorado em Filosofia pela Pontificia Universidad Católica Del Ecuador (1978 e 1982, respectivamente) e doutorado em Filosofia pela Indiana University (1989). Realizaou estudos de pós-doutorado na Indiana University em 1996 e 1997. Desde1992 é professor titular da Universidade Federal de Goiás. Tem experiência na área de Filosofia, atuando principalmente nos seguintes temas: filosofia, metafilosofia, filosofia política e ensino de filosofia. Participou do Grupo de Sustentação para a criação do GT Filosofar e Ensinar a Filosofar, em 2006, do qual foi seu primeiro coordenador eleito. Foi o fundador do Curso de Pós-Graduação em Filosofia da UFG (1993), da revista Philósophos (1996), do Curso de Graduação em Filosofia da cidade de Goiás da UFG, em 2008, e participou da criação do Campus Cidade de Goiás da UFG em 2009.

Marcos Carvalho Lopes

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