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Um problema filosófico: a primeira aula de filosofia

texto de Gonçalo Armijos Palácios*

194. Direito dos animais 97

Há tantas formas de começar uma primeira aula de filosofia como docentes que as ministrem. Ante isso, poder-se-ia dizer que todas podem estar corretas. Isto é, que podemos e até devemos aceitar que todas as possíveis formas de iniciar um grupo de discentes com a primeira aula de filosofia estão corretas. Com a minha experiência de várias décadas nesta área me inclino a ver alguns problemas nessa resposta. Por quê? Pela própria natureza do pensamento filosófico.

Um problema com a resposta de que todas as formas de se ministrar a primeira aula, ou qualquer aula, de filosofia estariam corretas reside no fato de que há uma tendência a se assumir uma atitude autoritária e dogmática. Autoritária porque se parte de apenas uma concepção do que é filosofia e se dispensa o resto como não filosóficas ou, o que é muito comum, “pré-filosóficas”.

Assim, se parte do que se considera “a” concepção de filosofia e se organizam as aulas em virtude dessa decisão, o que implica na desvalorização, ou até negação, de tudo aquilo que não coincide com aquela concepção, “a” concepção.

Posições autoritárias as encontramos em grandes filósofos e importantes escolas e correntes filosóficas. É o caso, por exemplo, da filosofia analítica da linguagem, na sua fase inicial, finais do século XIX e início do século XX. Wittgenstein, por exemplo, dispensava tudo aquilo que não coubesse na sua concepção de filosofia como “metafísico”, identificando o “metafísico” como absolutamente carente de valor filosófico e, ainda mais, até de sentido e significado. A “metafísica”, praticamente toda a filosofia tradicional dos gregos até ele, seria um acúmulo de disparates ou de afirmações sem sentido algum.

Em geral, algo semelhante podemos dizer sobre todos aqueles, filósofos e docentes, que assumem determinadas posições de forma dogmática. Para um essencialista, a filosofia é o estudo e busca de essências, e, portanto, de verdades universais absolutas e necessárias, o que é contestado por muitos, como pelos empiristas e nominalistas.

O anterior não significa que não devamos assumir posições firmes no fazer e pensar filosóficos, pois, de fato, isso é impossível e não é desejável que não assumamos posições firmes. Devemos fazê-lo e não podemos evitar fazê-lo.

E nisso está uma das belas características do pensar filosófico, sua pluralidade real, a existência de tantas concepções filosóficas opostas, diferentes e incomensuráveis entre si.

Voltando ao assunto que nos ocupa: a primeira aula de filosofia. Ocorre que a tendência é que quase todas as pessoas que se matriculam em um curso de filosofia, ao assistirem à primeira aula, já tenham alguma ideia do que seja “a” filosofia ou esperem que os docentes lhes definam, desde o início, o que seria “a” filosofia. Assim, no singular. E essa é uma expectativa comum e natural. Nós lidamos com tudo que é de uma forma ou de outra. Tudo aquilo que nos rodeia ou é uma coisa ou é outra. E quando entramos na escola, também, há uma disciplina e há outra completamente diferente, Aritmética é uma e gramática é outra. Assim, se a Química estuda os elementos, a Física os corpos materiais, a Biologia os seres vivos, a Filosofia, concretamente, algo específico deverá estudar, algo que a defina como uma disciplina diferente das outras, definidas, cada uma, por seus respectivos objetos. Qual, então, é o “objeto” da Filosofia? Pois, assim como, em geral, a Aritmética lida com números, e a Astronomia com os corpos celestes, com que lida, concretamente, a Filosofia?

A vantagem de quem ministra Filosofia Antiga consiste, entre outras coisas, em que já o início mesmo da filosofia nos dá dicas sobre sua natureza. Uma natureza, numa palavra, aberta e pluralista.

Pois, apesar de os considerados três primeiros filósofos ocidentais, Tales, Anaximandro e Anaxímenes, terem tratado de resolver o mesmo problema: a origem de tudo, seu elemento primordial, suas respostas foram completamente diferentes. E, mesmo assim, e apesar de o grande Aristóteles ter lidado com outros problemas, eles os chamou de “filósofos”, filósofos “físicos”, na verdade, mas “filósofos”.

Depois irão aparecendo outros pensadores também considerados “filósofos”, que lidaram com questões completamente diferentes, como são: Xenófanes, Heráclito e Parmênides.

Já desse início, se fizermos uma inferência correta e não formos dogmáticos, podemos inferir que o pensamento filosófico não pode ser definido nem por seu objeto nem pelo modo em que esse pensamento é feito, ou seja, se é feito baseado na experiência ou, ao contrário, baseado em raciocínios tão peculiares que em princípio parecem refutar e ser refutados pela experiência. Assim, já pelo que o início da filosofia mostra, ela não é nada específico e pode ser tudo, sempre dentro do pensamento que busca sair de suas trevas.

*Gonçalo Armijos Palácios
José Gonzalo Armijos Palácios possui graduação e doutorado em Filosofia pela Pontificia Universidad Católica Del Ecuador (1978 e 1982, respectivamente) e doutorado em Filosofia pela Indiana University (1989). Realizaou estudos de pós-doutorado na Indiana University em 1996 e 1997. Desde1992 é professor titular da Universidade Federal de Goiás. Tem experiência na área de Filosofia, atuando principalmente nos seguintes temas: filosofia, metafilosofia, filosofia política e ensino de filosofia. Participou do Grupo de Sustentação para a criação do GT Filosofar e Ensinar a Filosofar, em 2006, do qual foi seu primeiro coordenador eleito. Foi o fundador do Curso de Pós-Graduação em Filosofia da UFG (1993), da revista Philósophos (1996), do Curso de Graduação em Filosofia da cidade de Goiás da UFG, em 2008, e participou da criação do Campus Cidade de Goiás da UFG em 2009.

Marcos Carvalho Lopes

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