3 comentários

Sobre o tom de voz da filosofia

trecho de “anotação” em diálogo com o livro de Stanley Cavell Um tom de filosofia: exercícios autobiográficos:cavell2

Existe certa arrogância no tom de voz do filósofo; uma arrogância que se liga a pretensão de que aquilo que ele diz possui necessidade e validade universal. Como descreve Stanley Cavell, “a arrogância da filosofia se relaciona com sua ambivalência a respeito do autobiográfico”.

(Um exemplo desta ambivalência pode ser dramatizado nos ‘eventos’ filosóficos, em que, a principio, o autor da conferência ou comunicação, começa pronunciando algumas palavras diretamente para o público. De vez em quando, até mesmo, olhando para as pessoas que estão a sua volta. Na maioria dos casos, o tom desta fala é autobiográfico, explicando o que levou a escolha do tópico que pesquisa. Em verdade, este ‘prelúdio’ muitas vezes se torna algo balbuciado sem grande ênfase, já que, segundo o próprio “comunicador”, o que há de interessante e coerente para se dizer se encontra no texto: então vamos à leitura! Abaixando a cabeça e começando esta tarefa recitativa, a voz do filósofo dá um “salto transcendental” e sua dicção ganha o tom de quem arroga dizer algo que tem por pressuposto a pretensão de universalidade. Ora, neste caso, somos instruídos a não utilizar a “primeira pessoa do singular”, mas, sim, a “primeira pessoa do plural”, somos “nós”. Esta escolha, ou melhor, esta necessidade de deslocamento supõe um tipo de “acordo metafísico” entre o “falante” e a “plateia”? Ou seria um indicativo da posição hamletiana do intelectual moderno, que ouve sua própria voz como “outro” e tenta se criar a partir deste diálogo, ou melhor, desta escrita? Esta segunda explicação ajuda a entender porque algumas leituras são intercaladas com falas, que, ou tentam explicar oferecendo algum exemplo em relação ao que foi escrito, ou mostram a empolgação do “leitor” com o que disse o “autor” e sua relevância, ou retomam o tom autobiográfico para pedir desculpas por alguma discordância, dificuldade ou reticência em relação ao que esta escrito; o que serve como confissão de que a voz ainda não atingiu o tom do que deve ser universalmente aceito, ou seja, não é ainda o da Filosofia).
cavellÉ certo que os filósofos que negam a importância da dimensão autobiográfica encontram outro caminho para fundar a autoridade de sua voz, pelo a priori ou pela aplicação de um método ou pela lógica etc., justificam a necessidade e universalidade, assim como, a autoridade, densidade, profundidade, pressupostas na fala filosófica.

(Outra via, contextualmente mais utilizada, é pegar palavras emprestadas de uma – ou de algumas – autoridade autorizada estrangeira, ou quando muito, de um brasileiro – geralmente o orientador ou o orientador do orientador – que concorda com o que o estrangeiro disse, deixando a própria voz como um eco, um tipo de rima condenada por Platão por sua teatralidade, pela imitatividade (a imitação irrefletida de comportamentos), a aceitação inconteste de um simulacro. Mas, depois de Platão e de tantas palavras, haveria outra forma de falar que não a aceitação e multiplicação de ecos como rimas prosaicas e redundantes? Talvez, mas neste caso corre-se o risco de transformar o discurso crítico em discurso clínico. Quem quer, ou melhor, quem pode correr este risco (na Academia)? O contrário da arrogância da filosofia seria a cordialidade da desconversação, de uma fala sem rosto que condena como idiossincrática toda tentativa de ter voz?).

Marcos Carvalho Lopes

  • Aline Matos

    Obrigada pela partilha!!! Não conhecia Stanley Cavell, nem suas discussões. Busquei seu livro A pitch of philosophy, e já adicionei as leituras.

    • Marcos

      Que bom que gostou. Tem um livrinho dele em português chamado “Essa inabordável América” que só se acha em sebo, mas bem barato. De certa forma a questão é sobre como “herdamos” a filosofia, do caminho para o desenvolver a capacidade de pensar a partir do próprio cotidiano. Acho que, assim como os norte-americanos tiveram que desenvolver a auto-estima para se desviar do modo de pensar da Europa, desenvolvemos essa tarefa de outro modo, com outros instrumentos e meios… o rei-filósofo da USP, Bento Prado Júnior, no seu último livro “Erro, ilusão, loucura” estava dialogando com Cavell, usando Wittgenstein a partir dele “uniu” a “forma de vida” com o “plano de imanência” do Deleuze… faltou chegar ao cotidiano!

      • Aline Matos

        Obrigada Marcos!!!! Vou buscar esse livro que você mencionou. Esse é um esforço da filosofia, chegar ao cotidiano. Por isso considero tão importante o Filosofia Pop!!!!