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A ARQUITETURA DA PAZ

Dos fundamentos, das colunas e da luz – O que a arte de construir tem a ensinar à reconstrução política de Moçambique

ensaio de Severino Ngoenha
18 de agosto de 2026

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Há textos que escrevemos porque os escolhemos. E há outros que a vida, por caminhos que não previmos, nos impõe. Este pertence à segunda espécie, e a sua genealogia importa, porque nela já se anuncia a tese que quero defender.

No Atelier Filosófico da Beira, Maria Sá Pinto abriu uma perspectiva que, confesso, alterou o curso das nossas reflexões. Pela primeira vez, a arte surgia entre nós não como simples expressão cultural, mas como problema filosófico e político. A sua tese era simultaneamente simples e fecunda: lutar por Moçambique hoje implica convocar as artes – a literatura, a música, a pintura, a escultura, o teatro, a poesia, a dança – para participarem na reconstrução da nação. Não como lugares de divertimento ou de ornamento, mas como estruturas decisivas da formação de uma razão crítica e de uma cidadania adulta. E sobretudo por uma qualidade rara que a criação artística possui: a de conseguir imaginar o país antes de ele existir plenamente na realidade. Primeiro nascem as palavras, depois nasce a consciência, só mais tarde nasce a organização política. A nossa independência teve uma profunda pré-história artística – Craveirinha, Malangatana, Noémia de Sousa – e talvez nunca tenhamos reconhecido às artes esse lugar fundador.

Escrevi sobre isso. E foi então que recebi uma carta.

Escrevia-me David Melar, arquiteto espanhol que vive há catorze anos na cidade da Beira, onde coordenou cursos de Arquitetura e continua vinculado à vida universitária. A sua carta era longa, erudita e generosa – mas continha um reparo. Regozijava-se com a convocação das artes para a mesa do pensamento, mas lamentava que, entre elas, tivesse faltado uma: a arquitetura. E defendia-a com argumentos que me impressionaram. A arquitetura , dizia-me, fica quase sempre de fora quando pensamos na arte, talvez precisamente porque é útil – e justamente por isso a esquecemos. Contudo, sem ela seria impossível compreender a Pré-História ou o mundo antigo: a transformação intencional do espaço é um gesto conatural à humanidade, e o ser humano nunca deu um passo no seu processo de humanização sem que o acompanhasse uma reflexão sobre a transformação do espaço e do tempo. As outras artes podem tornar-se peças de museu; a arquitetura não cabe num museu, porque é inseparável do lugar e da vida que a atravessa. E terminava com uma frase que retive: a arquitetura não é apenas o belo, nem um jogo de formas e cores – a arquitetura é pensamento.

Respondi-lhe. E disse-lhe o que digo há muito: que das artes clássicas, a arquitetura é para mim a primeira. Quando chegamos a uma cidade, antes de procurarmos os museus, as galerias ou os teatros, aquilo que primeiro nos impressiona são as suas construções. Há edifícios contemporâneos que são verdadeiras obras de arte – pense-se no Guggenheim de Bilbao, cuja arquitetura comove mais do que muitas das exposições que alberga. Não tenho, evidentemente, o saber técnico de um arquiteto; mas tive a sorte de ter um amigo que me iniciou na leitura da arquitetura contemporânea, e aprendi com ele a descobrir a grandeza de certas construções que modificam completamente a maneira como vemos a cidade onde vivemos.

David Melar insistiu, numa segunda carta, levando o debate para o terreno concreto de Moçambique . O diálogo estava lançado.

Foi quando, pouco depois, fui convidado a participar num encontro dedicado às questões da paz, que decidi tomar a arquitetura a sério – não como tema, mas como método. Se a arquitetura é pensamento, como sustenta David Melar, então talvez ela possa pensar connosco aquilo que a nossa política, sozinha, já não consegue nomear. É essa a hipótese deste texto: que a arte de construir edifícios tem alguma coisa decisiva a ensinar à reconstrução do nosso edifício nacional.

I. Aquilo que a modernidade aprendeu

Deixemos, por um momento, a política, e olhemos para a história da construção.

A antiguidade legou-nos obras que ainda hoje nos interpelam. As pirâmides do Egipto. O Coliseu e o Panteão de Roma. Os anfiteatros do Norte de África. Alguns desses edifícios guardam segredos técnicos que a engenharia contemporânea ainda estuda – e todos eles revelam que aqueles construtores sabiam uma coisa fundamental: antes da parte visível, aquela por que todos passam e que todos admiram, é preciso cavar. Os alicerces têm de ser profundos, para que nenhum vento abale o edifício. A grandeza de uma construção mede-se por aquilo que não se vê.

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Photo by Markus Gombocz on Unsplash

As catedrais góticas confirmam-no de outra maneira. A Catedral de Colónia, a de Lausana, a de Viena – continuam de pé, oito séculos depois, e continuam a congregar milhares de pessoas. Mas foi precisamente com elas que aconteceu uma das primeiras grandes revoluções da arte de construir. As igrejas românicas que as precederam sustentavam-se em muros espessos e em pesadas colunas interiores: o peso da pedra exigia-o. Essas colunas cumpriam a sua função de engenharia, mas tinham um preço – cortavam o espaço, interrompiam a vista, fragmentavam a assembleia. O celebrante no altar não conseguia ver todos os fiéis; entre ele e a comunidade erguiam-se obstáculos de pedra. Era preciso descer, deslocar-se, procurar o lugar onde a palavra podia enfim chegar a todos.

A resposta gótica foi engenhosa: tirar os apoios de dentro, lançá-los para fora. Os arcobotantes – aqueles arcos exteriores que parecem abraçar as naves de Notre-Dame – transferiram o peso do interior para o exterior do edifício. A arquitetura moderna consumou esse gesto: com o aço e o betão armado, a estrutura passou definitivamente para o esqueleto do edifício, e o espaço interior ficou livre. Temos em Maputo dois exemplos que qualquer um de nós pode confrontar. Na nossa Sé Catedral, as colunas interiores continuam a complicar a comunicação entre quem preside e quem participa. Na Igreja de Santo António da Polana – aquela obra notável de betão que todos reconhecemos à distância – a nave abre-se sem obstáculos: a estrutura foi para fora, e o espaço comum ganhou-se. Este foi o primeiro grande ganho: o espaço da comunicação.

O segundo foi a luz. Os edifícios antigos eram, na sua maioria, escuros por dentro: os muros que sustentavam o peso não podiam abrir-se em janelas. A modernidade inventou o vidro estrutural e a fachada envidraçada, e com isso a luz do dia entrou nos lugares de trabalho e de encontro. Ganhou o ambiente, que deixou de depender da luz elétrica durante o dia; ganharam os nossos olhos, feitos para a luz do sol.

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E há um terceiro elemento, que nos devolve ao princípio: os fundamentos. A nossa época constrói cada vez mais alto – temos em Maputo um edifício de trinta e três andares, o Burj Khalifa ergue-se sobre o deserto, a Arábia Saudita prepara uma torre ainda maior, a África do Sul orgulha-se do maior edifício africano. Há nesta competição uma desmedida que mereceria reflexão própria, como se a grandeza de um país se medisse pela altura a que chegam os seus prédios. Mas o que aqui interessa é o paradoxo técnico: construir mais alto não significa, como por vezes pensamos, que a modernidade tenha aprendido a subir. Significa que aprendeu a descer- estacas profundas, fundações que vão buscar o rochedo, núcleos estruturais que concentram as forças. A altura de um edifício é sempre proporcional à profundidade das suas fundações. Quando vemos uma torre, não devemos pensar que a época moderna construiu mais alto; devemos pensar que descobriu maneira de ir mais fundo.

Três lições, portanto: fundamentos profundos, colunas transferidas para fora do espaço comum, e a entrada da luz. Foi com elas na cabeça que cheguei ao encontro sobre a paz. E foi lá que a metáfora se impôs.

II. Os fundamentos: a paz não se decreta, constrói-se sobre consenso

A pergunta que nos ocupava era a da paz. E a primeira tentação, diante dela, é tratá-la como um estado que se proclama: declara-se a paz, assina-se a paz, decreta-se a paz. Mas a arquitetura ensina-nos outra coisa. Nenhum edifício começa pelo telhado. E nenhuma paz começa pela assinatura.

O fundamento de uma vida política comum não é a paz – é a estrutura que torna o consenso necessário. Olhemos para as constituições dos países que chamamos democráticos. O que nelas encontramos, por detrás das diferenças de regime e de tradição, é um esforço comum: fazer com que nenhum poder seja absoluto, que o equilíbrio esteja na separação dos poderes e que cada poder dependa necessariamente dos outros. Nos Estados Unidos, o Presidente não vota o orçamento sozinho: precisa do Congresso – e é por isso que, tantas vezes, a administração americana paralisa, como temos visto nos impasses sucessivos entre Trump e o Capitólio. Nas constituições francesas, desde a Revolução até à Quinta República, percorre-se a mesma obsessão: que nenhum partido, nenhum governo, nenhum presidente governe sozinho; que seja obrigado a dialogar, a ouvir a posição dos outros, a encontrar um ponto de convergência.

Construction site with workers on the concrete bottom, fixing the steel wire construction ground of the excavation site;. Then the concrete can be poured. This becomes an underground parking place for circa 8000 bicycles in front of Central Station, Amsterdam. The rusty pile sheeting wall is necessary to keep the construction pite safe and dry, because of the wet soggy bottom of Amsterdam city. Free urban photo of Amsterdam constructions - Dutch city photography of work by Fons Heijnsbroek, Netherlands.

Photo by Fons Heijnsbroek on Unsplash

Essa dependência pode parecer fraqueza. É o contrário: é o fundamento. Um edifício que assenta sobre a vontade de um só homem é um edifício sem estacas – o primeiro vento o derruba. Um edifício que assenta sobre a obrigação institucional do consenso tem fundações: ninguém pode governar sem os outros, e é essa impossibilidade que segura a construção. O consenso não é, note-se, a unanimidade – e a paralisia americana mostra o que acontece quando o bloqueio de uma minoria se substitui à deliberação de todos. O consenso de que falo é procedimental: a regra segundo a qual nenhuma decisão fundamental se toma sem passar pelo confronto das posições e pela procura de um ponto comum. A paz que nasce dessa regra não é um sentimento; é uma consequência. Como na arquitetura: a estabilidade não se decreta, constrói-se.

III. As colunas: os representantes devem responder perante quem os elegeu, não perante os partidos

A segunda lição vem das colunas.

Dissemos que a arquitetura aprendeu a tirar os apoios do meio do espaço comum e a lançá-los para o exterior, libertando a comunicação. O que são, na nossa catedral política, as colunas que obstruem a nave? São os partidos entendidos como mundos fechados, e a disciplina de bancada que os protege.

Assistimos entre nós a um fenómeno que de tão habitual parece natural: os grupos parlamentares correspondem aos partidos políticos, e nenhum deputado vota contra a sua bancada – mesmo quando os interesses das populações que o elegeram estão directamente em jogo. Em nenhum momento da nossa história parlamentar vimos um deputado atravessar a sala, associar-se a outra bancada e votar segundo a consciência do mandato que recebeu. A coluna partidária está no meio da assembleia, e entre o representante e os representados ergue-se a parede do aparelho.

Há sistemas em que isso não é assim. Quando Barack Obama apresentou a reforma da saúde, os republicanos opuseram-se em bloco; mas quando certos congressistas foram pressionados pelos seus eleitores – que lhes diziam que aquela proteção lhes era vital -, tiveram de escolher entre a fidelidade ao partido e a fidelidade a quem os tinha eleito. E vários escolheram os eleitores. Isto não acontece por virtude pessoal: acontece porque a arquitetura do sistema os obriga a prestar contas às pessoas, e não ao aparelho. É essa a coluna que é preciso deslocar.

A beautiful church built out of something like 5 million yellow bricks — all the houses surrounding the church are made out of these same bricks so it’s really ties the community together. I love visiting churches and cathedrals in Europe because they’re all are so old and beautifully built. You can’t find such amazing structures like this in America (obviously, the country is just not old enough). They’re engineering marvels but they also represent a fading belief in religious architecture that could awe and inspire. Basically, they just don’t build them like they used to.

Photo by JOHN TOWNER on Unsplash

Façamos a experiência mental. Se os deputados de Cabo Delgado prestassem contas a Cabo Delgado, o que diriam das decisões que sobre a província se tomam? Se os parlamentares de Nampula, de Gaza, de Inhambane tivessem de responder perante as suas populações pela saída dos minerais críticos e das riquezas dos seus solos, assinariam os mesmos acordos? Dificilmente. As populações diriam o que já dizem em privado: que não estão de acordo com uma extração que as empobrece, que lhes polui os rios e os campos, que as obriga a abandonar as terras onde nasceram. Mas como a prestação de contas se faz aos partidos e não às populações, os acordos assinam-se nos escritórios de Maputo, e os representantes do povo nunca têm de responder, perante o povo, pelo que assinaram.

Tirar as colunas do meio da catedral política significa isto: criar as condições institucionais para que o debate atravesse os partidos e prevaleça o interesse das pessoas. Não se trata de abolir os partidos – eles são tão necessários à democracia como a estrutura o é ao edifício. Trata-se de os pôr no lugar certo: fora do espaço da comunicação entre o povo e os seus representantes, sustentando o edifício sem obstruir a nave.

IV. A luz: a transparência como condição da confiança

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Photo by Chad Greiter on Unsplash

A terceira lição é a da luz.

Os edifícios escuros não são apenas desconfortáveis; são lugares onde não se vê o que se passa. A nossa vida pública tem sido, em demasiados domínios, um edifício escuro. E a escuridão, em política como em arquitetura, não é um acidente de desenho: é uma escolha.

Comecemos pelo mais simples. Entre nós existe uma lei que obriga os titulares de cargos públicos a declarar os seus bens antes de tomar posse. Não está a ser respeitada – e todos o sabemos, e nada acontece. Os acordos que o país celebra, os contractos que o Estado assina, as nomeações que se fazem, as decisões fundamentais que nos comprometem a todos: quem os conhece? Quem os discutiu? Quem responde por eles? A falta de transparência nos acordos e nos contractos já nos custou aquilo que sabemos: as dívidas ocultas, contraídas à margem do parlamento e do conhecimento público, cujo peso continuarão a pagar gerações que não foram consultadas. A opacidade trouxe-nos também presenças que ninguém explicou cabalmente – sabemos que forças ruandesas operam em território nacional, mas nenhum cidadão foi informado dos termos dessa presença. E sobre a guerra em Cabo Delgado, que mata gente há tantos anos, aquilo que o país sabe continua a ser escandalosamente inferior àquilo que o país sofre.

A luz não é um luxo estético. Na arquitetura, a entrada do sol transformou os edifícios em lugares sãos; na política, a transparência é a condição higiénica da vida comum. Um povo que não sabe o que se passa dentro do edifício não pode vigiá-lo, não pode corrigi-lo, não pode confiar nele. E um governo que decide na escuridão acabará sempre por confundir o Estado consigo mesmo.

V. A questão é a arquitetura

Chego assim ao ponto que motivou este texto. Moçambique vive, neste momento, um processo de diálogo nacional inclusivo que toca em aspectos importantes da Constituição. E tenho acompanhado esse debate com uma inquietação crescente.

Não me parece que o essencial seja saber se juntamos as eleições de 2028 e 2029. Nem se o mandato presidencial deve ser de cinco ou de sete anos. Nem mesmo se deve ser criminalizado o partido que se proclame vencedor antes dos resultados validados pelo Conselho Constitucional. Estas questões têm a sua importância, mas são epifenómenos: mexem na fachada, não na Estrutura . Podemos alterar todas elas e continuar com o mesmo edifício -o edifício em que um partido governa sozinho, em que os deputados respondem perante as bancadas e não perante os eleitores, e em que as decisões fundamentais se tomam às escuras.

O essencial é a arquitetura. É o fundamento que torna o consenso institucionalmente necessário, porque só a decisão em que todos participaram garante a paz que todos respeitarão. É a retirada das colunas do interior da catedral, para que os representantes do povo representem o povo e não os aparelhos. É a abertura das janelas, para que entre luz sobre os acordos, os contractos , as nomeações e as decisões – porque a transparência não é uma concessão do poder, é a condição da democracia e o único antídoto conhecido contra os dramas que temos vivido.

Continuo a pensar o que já escrevi: a maneira como este processo de diálogo está a ser conduzido não é a melhor. Mas continuo igualmente a pensar que ele é uma possibilidade que temos o dever de aproveitar – desde que o aproveitemos para aquilo que importa. Por isso, o meu apelo, sobretudo à sociedade civil e às organizações não-governamentais: não nos contentemos com encontros paralelos, com declarações de princípio, com a proclamação genérica de que queremos a paz. Participemos neste momento de mudança da arquitetura. Tragamos para o centro do debate as três perguntas estruturais: o consenso é obrigatório? os representantes respondem perante os eleitores? as decisões são transparentes?

David Melar escreveu-me que a arquitetura é pensamento, e que lamenta que a sociedade tenha prescindido do pensamento arquitectónico. Eu acrescentaria: a nossa política prescindiu dele também – e é tempo de o convocar de volta. Um edifício não se habita pela fachada; habita-se pela estrutura . E uma nação não se constrói proclamando a paz; constrói-se cavando os fundamentos do consenso, retirando as colunas que separam o poder do povo, e abrindo as janelas à luz.

O nosso edifício nacional pode ser democrático, pacífico e capaz de engendrar um viver comum melhor do que aquele que temos. Mas só se tivermos a coragem de perguntar, antes de tudo o mais, como está desenhada a sua arquitetura.

Marcos Carvalho Lopes

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