texto de Gonçalo Armijos Palácios*

Quem já viu as cenas da avenida Kensington, na Filadélfia, deve ter ficado chocado com aqueles mortos-vivos, zumbis imóveis, dobrados sobre si mesmos, mas sem cair no chão, ou jogados na calçada nas posições mais grotescas. Já outros, deambulando como bêbados, cambaleantes, gesticulando, falando sozinhos, chorando, rindo, berrando, se queixando. É um espetáculo dantesco, um prenúncio do fim de um modo de vida que desvirtuou ou destruiu todos os valores que algum dia pareciam ser majoritários e perenes. São quadros de um mundo de indivíduos isolados em si mesmos e preocupados apenas com seus próprios prazeres, por mais discutíveis e destrutivos que estes sejam, que passam a viver um verdadeiro inferno na Terra.
Todos esses seres humanos sem esperança que se arrastram pela avenida Kensington, como em tantos outros lugares, são usuários, basicamente, do fentanil. O fentanil é aproximadamente 50 vezes mais forte que a heroína, 100 vezes mais forte que a morfina e se tornou a substância mais letal da história dos Estados Unidos. Possui um altíssimo poder de dependência, pois o cérebro desenvolve tolerância e dependência com extrema rapidez. Apenas dois miligramas (o equivalente a alguns grãos de sal) podem ser fatais. Ao fentanil aliou-se outra droga, a xilazina, ou “tranq”, um sedativo, analgésico e relaxante muscular de uso estritamente veterinário usado em cavalos e bois. O efeito desta droga é, talvez, muito pior, porque produz necrose. Por ser um vasoconstritor reduz a oxigenação das células. Sem oxigenação, as células morrem levando à necrose cutânea. E como se não bastasse, apareceu mais uma. A desomorfina, ou Krokodil. Diferentemente da xilazina, a desomorfina, por seu efeito ácido de alta toxicidade, corrói os tecidos imediatamente. Leio em algum lugar: “A pele do usuário fica esverdeada, escamosa e endurecida (daí o nome “crocodilo”). Rapidamente, o tecido sofre necrose e gangrena, descolando-se do corpo e destruindo os vasos sanguíneos e músculos por onde a substância passa”.
Vemos nesses casos como um organismo, por mais forte e sadio que fosse ou tenha sido, começa a ser destruído de todos os lados e por todas as partes. Seu centro mais importante, seu cérebro, é arrancado de sua base, de seu eixo, e jogado para um mundo de demônios e sofrimento sem fim; seu corpo, que um dia podia ter sido sadio e forte, é carcomido por dentro e por fora, tudo em virtude de um desejo desmedido por ter mais prazer do que aquele que naturalmente um ser humano pode ter, ou mesmo para aliviar uma dor insuportável.
Agora, a sociedade que abriga esses miseráveis é como outro grande e complexo corpo, a comunidade politica, que está sendo atacada no seu centro de equilíbrio e decisão por causa de um tipo de seres, que podemos chamar de democratófagos. Estes na sua ambição desmedida, conseguem comprar aqueles que estão nos altos centros de poder e decisão econômica, política e jurídica, para conseguir seus fins de riqueza ilimitada. Enquanto milhões e milhões, a grande maioria da população, devem batalhar hora após hora para mal sobreviver e pagar suas contas, manter seus filhos na escola, mantê-los saudáveis com remédios cada vez mais caros, pagando aluguéis que não param de subir, e outros gastos sem fim, estes conseguem desviar bilhões do dinheiro público, daquele que vem dessa maioria de sacrificados, para conseguir seus objetivos de riqueza e poder desmedidos. Estes podem pagar viagens em jatos privados, helicópteros para políticos e magistrados, pagam jantares, festas com “romance incluído” para os mesmos políticos e magistrados – muito cristãos, aliás, e defensores da família. E, assim, todos ficam contentes, estes últimos com o que para os grandes não é mais que uma mísera gorjeta, e os outros com dinheiro público, que chega a bilhões, que enche suas contas bancárias e permite suas vidas nababescas.
Enquanto isso, a grande maioria não é mais do que uma massa de manobra a qual se passa a impressão de que é ela que governa por meio de seus representantes, representantes eleitos para defender os interesses majoritários e que, como vemos, com gorjetas, viagens, jantares e prostitutas, terminam tomando decisões que favorecem aqueles que, governe quem governar, têm o meio para comprá-los, por muito pouca coisa, destruindo o tecido social. E assim como os fitófagos comem as folhas, os democratófagos são aqueles que vão devorando o tecido social da democracia, destruindo-a pouco a pouco, de dentro para fora, sem que ninguém perceba o que estão fazendo, porque, externamente, a crosta social envolve tudo isso e o esconde, e os que poderiam trazer tudo isso à tona, os grandes e poderosos meios de comunicação, são comprados por muito pouco para ocultar o que não devem mostrar.
A necrose política provocada pelos democratófagos não é um acidente, mas um projeto de poder alimentado pelo suborno e pelo silêncio cúmplice. Enquanto a crosta social continuar escondendo o banquete nababesco daqueles que compram leis e sentenças a preço de gorjetas, o tecido democrático continuará apodrecendo. Não há diferença real entre o veneno que esverdeia e endurece a pele do usuário na Filadélfia e a ganância dissimulada que desvia bilhões da saúde, da educação e da dignidade de um povo. Arrancar a máscara que oculta essa podridão já é um primeiro passo para a cura. Por isso, uma sociedade só eliminará seus parasitas quando decida enxergar a ferida aberta e recuperar o controle de seu próprio destino, recusando-se a ser mera massa de manobra nas mãos dos que a devoram por dentro.
*Gonçalo Armijos Palácios
José Gonzalo Armijos Palácios possui graduação e doutorado em Filosofia pela Pontificia Universidad Católica Del Ecuador (1978 e 1982, respectivamente) e doutorado em Filosofia pela Indiana University (1989). Realizaou estudos de pós-doutorado na Indiana University em 1996 e 1997. Desde1992 é professor titular da Universidade Federal de Goiás. Tem experiência na área de Filosofia, atuando principalmente nos seguintes temas: filosofia, metafilosofia, filosofia política e ensino de filosofia. Participou do Grupo de Sustentação para a criação do GT Filosofar e Ensinar a Filosofar, em 2006, do qual foi seu primeiro coordenador eleito. Foi o fundador do Curso de Pós-Graduação em Filosofia da UFG (1993), da revista Philósophos (1996), do Curso de Graduação em Filosofia da cidade de Goiás da UFG, em 2008, e participou da criação do Campus Cidade de Goiás da UFG em 2009.
