Até quando aceitaremos viver contra o que dizemos defender?
ensaio de Severino Ngoenha

«Há algo de podre no Estado da Dinamarca», diz Marcelo em Hamlet, de Shakespeare.
Leio a frase e já não consigo deixá-la naquele reino. A minha Dinamarca chama-se Moçambique.
Mas receio que o leitor pense imediatamente nos governantes e se prepare para uma acusação que o deixe de fora.
Pensemos numa mãe a quem exigem dinheiro para atenderem o filho num hospital público. Protesta, paga, a criança é atendida. A culpa da extorsão não se reparte com quem a sofreu. Mas, da próxima vez, talvez leve o dinheiro separado e aconselhe alguém a fazer o mesmo. Condena o abuso; já organiza a vida contando com ele.
É a normalização do anormal. Quem exige os seus direitos parece não compreender a vida. Ainda distinguimos o bem do mal, mas aprendemos a chamar ingenuidade à tentativa de viver segundo essa distinção.
Em Hamlet, o príncipe fala à mãe do poder do hábito para alterar o que parece natural. É por aí que a peça entra no nosso quotidiano. Aquilo a que nos adaptamos pode acabar por nos ensinar a viver. E podemos transmitir como sabedoria aos nossos filhos o que ainda sentimos como humilhação. Que espécie de educação lhes damos quando lhes ensinamos a honestidade e, logo a seguir, as precauções necessárias para que não a levem demasiado a sério?
Posso sair humilhado de um balcão e decidir depois sobre a oportunidade de outra pessoa. Poupo-lhe a humilhação ou mostro-lhe que também terá de passar por mim? Ter sofrido uma injustiça não me torna justo.
Em Nós matámos o Cão-Tinhoso!, Luís Bernardo Honwana mostra Ginho a querer poupar o cão, pressionado pelos companheiros a participar na sua morte. O conto tem o chão da dominação colonial. A pergunta que lhe faço hoje é esta: quem sofre aquilo que fazemos para sermos aceites? O cão não sofre menos porque o rapaz tem medo de ficar sozinho.
Quem controla o Estado ou concentra poder económico tem responsabilidade acrescida. Precisamos de justiça, diálogo, reconhecimento do adversário como participante legítimo e possibilidade efectiva de alternância, decidida pelos cidadãos. Mas mudar governantes pode apenas mudar os beneficiários do mesmo privilégio. Que democracia construiremos se o cidadão continuar a precisar de um protector para exercer um direito?
Cláudio reconhece o crime e tenta rezar, mas conserva aquilo por que matou. Quer ser perdoado sem perder os benefícios que o prendem à culpa. Essa cena de Hamlet não permite uma leitura tranquila: até onde vai a nossa vontade de mudar quando a mudança deixa de ameaçar apenas as vantagens dos outros? Talvez algumas das nossas indignações terminem precisamente no ponto em que começaria uma renúncia nossa.
Nem tudo é fingimento. Há quem já não acredite nos valores que proclama, quem acredite mas duvide de poder vivê-los, e quem reserve para si uma excepção. As responsabilidades diferem. A norma permanece suficientemente viva para nos julgar, mas não suficientemente forte para organizar a nossa vida comum.
A corrupção corrói também o ethos: a maneira aprendida de viver com os outros, de admirar, tolerar e recompensar. Não basta constatar que o abuso compensa para o aprovar. O ethos altera-se quando começamos a admirar quem dele beneficia e a desprezar quem o recusa. Um concurso que favorece o protegido ensina essa inversão. Assim se descose a vida comum. As instituições formam hábitos; estes podem reproduzir os seus vícios. Não esperemos pela virtude de todos para exigir instituições justas.
Em A Aventura Ambígua, Cheikh Hamidou Kane põe a Grande Royale a defender a escola dos conquistadores para os filhos dos Diallobé: aprender «a arte de vencer sem ter razão». Reconhece a derrota, não a justiça da conquista. Sabe que os filhos podem deixar de reconhecer o que o povo procura preservar. A decisão nasce da dominação, não se reduz a cobardia.
Também nós podemos ensinar o justo e recear que os filhos nos levem à letra. Na Genealogia da Moral, Nietzsche interroga o valor dos valores. Essa interrogação obriga-nos a examinar a própria lealdade quando exige cumplicidade, o respeito quando exige silêncio. Mas não adopto a sua crítica da igualdade moral: é pela igual dignidade de cada pessoa que julgo a transformação necessária.
A violência contra crianças e a exploração sexual expõem esta escolha. Quando a vítima denuncia alguém de quem dependemos, protegemos a pessoa ferida ou a reputação do grupo? Quem agride responde pelos seus actos; quem encobre ou desacredita a vítima não fica inocente.
«Estas palavras entram-me nos ouvidos como punhais», diz Gertrudes ao filho. Pouco antes, Hamlet matou Polónio. O homem que obriga a mãe a olhar para dentro de si não está fora da violência daquela casa. Também o professor, o filósofo, o cidadão não estão fora desta fractura, a descrevê-la de longe. De que vale a honestidade que ensino se, quando ela me contraria, a primeira coisa que procuro é uma excepção? Preciso de saber o que as minhas palavras ainda me impedem de fazer.
O cinismo não resolveria a contradição; apenas nos ensinaria a suportá-la sem vergonha. A reconstrução do ethos não procura um passado puro nem um modelo único de moçambicano. Exige que poder e riqueza respondam perante o comum e aceitem limites. Quem é vulnerável deve poder participar e reclamar direitos, sem depender de um benfeitor. Há quem recuse, proteja e cuide; a sua existência impede-nos de declarar a derrota moral de um povo. A quem arrisca o sustento para recusar devemos protecção, não apenas admiração.
Deixo a pergunta aos moçambicanos, sem me retirar de entre eles: que estamos dispostos a mudar, desde já, nas nossas decisões e nas nossas instituições, para que a dignidade que exigimos para nós não continue a faltar a quem depende de nós?
