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DE TOLSTÓI A CHISSANO: O LUTO DA INAUTENTICIDADE

Por Giverage do Amaral

Nota do editor: Neste ensaio, Giverage do Amaral parte de uma recente entrevista/conversa com o ex-presidente moçambicano Joaquim Chissano para refletir sobre a experiência de sua geração no Moçambique pós-independência, colocando-a em diálogo com A morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói.

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Numa dessas noites em que o silêncio da minha casa pesava mais que o barulho da cidade onde moro, a frase de Liev Tolstói atingiu-me a mente como um raio seco: “E se toda a minha vida tiver sido errada?”; “E se eu não tiver vivido como deveria?”

Esta indagação surgiu a propósito da escuta atenta de uma conversa que se pretendia “de tu para tu”, mas na qual paradoxalmente, ao convidado há muito que não se permite ser tratado por “tu”, o protocolo exige que seja “Sua Excelência ou Sr. Presidente”. 

Em meio aos devaneios desse diálogo,  a lembrança desta frase, lida em “A Morte de Ivan Ilitch”(1886) nos idos da minha adolescência, desta vez causou em mim uma sensação diferente. Desta vez, ao recordá-la, não vi à minha frente somente o juiz russo do século XIX (Ivan Ilitch); Eu vi o meu reflexo e a imagem dos rostos esfalfados dos moçambicanos da minha geração (nascidos entre 1980 e 1999), reflectidos na história do romance e nas afirmações tragicômicas de uma sociedade onde o “tu” foi banido em favor da lisonja, mas que em conversa pretendia tratar Sua Excelência por “tu”.

Nisto, uma espécie retrospectiva involuntária sucedeu e imediatamente ensaiei uma transposição da angústia individual, atribuída a Ivan Ilitch no romance, para uma leitura geracional e histórica do nosso contexto do Moçambique pós-independência. Sem dúvidas, imaginei ser este um exercício sociológico e existencial necessário, para um luto que ainda não foi devidamente superado pela minha geração.

O juiz Ivan Ilitch passou a maior parte de sua vida seguindo um roteiro social impecável: estudou com empenho, buscou promoções no trabalho, manteve as aparências, adornou sua casa com bom gosto e evitou qualquer conflito que pudesse manchar a sua reputação. No entanto, ao ficar gravemente doente e confrontar a morte, ele percebeu que toda essa vida correta, na verdade, foi uma farsa.

A minha geração nasceu no raiar de uma nova bandeira, e foi embalada pela grande euforia de um povo que havia derrubado estátuas e expulsado o jugo colonial das nossas terras para sempre. O nosso povo tinha aniquilado o capitalismo e o espírito de exploração, devolvendo-os para Portugal, donde nunca deveriam ter saído. Moçambique tornou-se independente e traçou para si promessas de prosperidade e glória. No Estádio da Machava tínhamos tudo que precisávamos: sonhos e utopias proclamadas alto e em bom tom. Tínhamos tudo, inclusive certeza sobre quais seriam os passos subsequentes para a consolidação total e completa da nossa independência, política e econômica.

Bom, concomitantemente à euforia da liberdade, percebemos rapidamente que a nossa esperança estava alicerçada no ideal do trabalho árduo e da igualdade de condições, porém, acompanhadas de um rígido manual de instruções socialistas, era quase uma liturgia ritualística de unidade e vigilância popular.

A regra do jogo social estava traçada, nós devíamos ser o “Homem Novo”, e para tal, tínhamos de abandonar as nossas línguas tradicionais, os velhos hábitos da palhota, a poligamia dos nossos pais, deviamos apagar o passado dos xiconhocas brancos e, acima de tudo, tínhamos que obedecer ao roteiro desenhado algures no mundo, como cartilha certa para alcançar um futuro melhor.

Nós éramos os continuadores, os filhos da revolução moçambicana, os arquitetos de um futuro de flores que jamais murchariam. A mensagem era cirúrgica: “Estude para seres alguém na vida”, diziam-nos os nossos pais e os nossos professores; “Quem não vai à escola é marginal”, diziam-nos a música e o Estado, e estas frases ecoavam nas ruas, nas salas de aula e nas nossas cabeças como uma sentença para os desviados e como uma bênção para os obedientes.

Sem hesitar vestimos os uniformes, decorámos as lições e fizemos os TPCs, tirámos dezanoves e vintes nas provas, fizemos cursos de inglês e francês, alinhámos nas bichas (filas) burocráticas das exigências de papel almaço de 25 linhas e dos carimbos para reconhecimento dos certificados. Nós acreditámos piamente que o diploma era o único passaporte para a dignidade e que um cargo público, o título acadêmico e o salário no final do mês seriam a materialização do nosso valor social. Com exceção de alguns nequinhas das katana boys, Gotcha e Ronil maphandza, etc., a nossa geração cumpriu o contrato social proposto, nós obedecemos.

Entretanto, sem muitas explicações, sob a liderança de Sua Excelência, o convidado, Moçambique seguiu um novo roteiro. Passou a fazer tudo que a comunidade internacional mandava, casou com o FMI, amantizou oficialmente com os conselhos do Banco Mundial, passou a ser democrático e multipartidário, mesmo que fosse só para o inglês ver, adequou a sua politica e economia ao liberalismo e, aos poucos, abdicou da sua capacidade pensante e passou a negligenciar as expectativas do seu próprio povo.

Hoje, escutando Sua Excelência falar na conversa “de tu para tu”, a mesma angústia de Ivan Ilitch apertou-me o peito. É que, durante a conversa, foi-nos dito que a nossa geração não entendeu bem a mensagem do Estado. Afinal a recomendação era “estudar para criar autoempregos”, para “adquirir conhecimento e transformá-lo em trabalho”. Afinal, fizemos foi tudo errado! Chiça!

Esse tempo todo, nós estivemos cercados por uma conspiração de aparências que engordavam os discursos oficiais? As estatísticas das iniciativas governamentais de criação de empregos eram maquilhadas? Os noticiários ufanistas não cessavam de dizer-nos que o país ia bem, que o progresso era inevitável e que o futuro melhor ficava mais próximo a cada eleição ganha? Afinal, entendemos tudo errado!?

 É certo que alguns dentre nós conseguiram bons empregos. Alguns sentámo-nos às secretárias como diretores de qualquer coisa, tornámo-nos “alguém” nas folhas salariais das repartições do Estado. No entanto, nesse processo, a alma da nação adoeceu, juntamente com a nossa, pois, tal como Ivan Ilitch, descobrimos que a nossa vida de mocinhos continuadores era uma farsa, e a mensagem do nosso Estado era equivocada.

O que sobrou é esta sensação de terem trocado as fechaduras das portas das oportunidades a cada diploma que conquistávamos, e que o acesso às chaves passou a obedecer a novos critérios onde, “ir à escola” não fazia parte da lista. Os princípios que aprendemos mandavam amar a pátria e edificar a nação; porém, os novos critérios idolatravam o nepotismo e o amor aos partidos. E nisto, a pertença aos partidos políticos passou a ser mais importante que a pertença ao Estado e a nação. Assim, fomos divididos em grupelhos de cores, cujo único critério para o sucesso é a eximia verificação do “ser ou não ser nosso”.

Para sobreviver a este golpe, a nossa geração inventou novas formas de ser e estar no desespero, criamos os chapeiros, os modjeiros, os cobradores, viramos muqueristas, e hoje somos nhonguistas, para não falar das ocupações menos lícitas e dignas que surgiram por aqui. Fizemos o que nos disseram para fazer, quisemos o que todos queriam, e nisso, esquecemo-nos de verdadeiramente criar e viver a nossa utopia moçambicana que aprenderamos a amar. Nós adotamos performances sociais de sobrevivência que nos permitiram fingir que estava tudo bem, e que, de alguma forma, este era o futuro melhor que tanto esperávamos e que nos foi prometido. Fugimos constantemente dos nossos reais problemas, massacrámos os anseios colectivos e exaltámos o individualismo, e hoje vivemos na dor da inautenticidade de que fala Heidegger em “Ser e Tempo”.

A dor da minha geração é perceber que a promessa que nos fizeram era oca. O ditame de “ser alguém na vida” foi a maior armadilha da nossa história geracional, que, por fim, nos tornou, ironicamente, naquilo que nos disseram para não ser: uma burguesia de frontispício, apegada ao dinheiro e aos títulos acadêmicos, ao mesmo tempo sufocada pelo medo de perder o pouco que conquistou em meio ao “salve-se quem puder”de uma economia de escassez e uma governação que somente obedece à lei do mais forte.

O trágico do protagonista de Tolstói não foi ter seguido um roteiro falso; creio que o trágico foi ele somente ter percebido isso quando os seus pés já tocavam a tampa do caixão, no leito de morte, quando já não havia tempo para respostas. E é neste momento que me lembrei dos jovens da nossa geração que já pereceram nesta luta selvagem da sobrevivência diária e pelo reconhecimento social individualizado. Acredito ser esta a mesma angústia de muitos da minha geração que ainda sobrevivem por aí.

Contudo, seja como for, penso que nós temos a sorte de nos colocarmos esta pergunta em plena vida. E, porque estamos vivos, acredito que temos o poder de rasgar o roteiro da enganação na qual caímos, e perceber que o “Homem Novo” não estava nos discursos políticos e nem nas molduras dos diplomas por nós adquiridos.  

O verdadeiro “Homem Novo” sempre esteve nas ruas, naqueles que sem status e título académicos, sustentavam a economia nacional e a sua família com uma resiliência que nenhum burocrata possui. O homem novo está no operário e no camponês que mantiveram a fábrica operacional e a terra fértil produtiva, muito antes de virarem marcas de humildade dos novos políticos. O homem novo está na mulher do mercado informal, nas redes de solidariedade que tanto nos salvaram quando o Estado falhou, e hoje diz que nós é que não entendemos bem a mensagem, ao invés de nos pedir desculpas.

Com efeito, a frase do Tolstói não pode querer significar uma paralisia ou arrependimento por termos feito o certo, “dzarascar”. Auguro que não façamos da nossa frustração o nosso túmulo, mas, pelo contrário, que seja um alicerce para garantir que isto jamais volte a acontecer com as futuras gerações de moçambicanos. A história de Moçambique não pode continuar a ser escrita por pessoas que têm medo de não ser “alguém”, como nós fizemos, pensando fazer o certo.

Hoje, Já passamos dos 40 anos e podemos escolher não ser “alguém” nos termos que nos foram impostos pelas circunstâncias históricas da época em que nascemos. Que a vida que nos resta nos faça entender que ainda podemos construir junto aos nossos filhos uma utopia da autenticidade, e que possamos, finalmente, superar de uma vez por todas este luto da inautenticidade no qual nos encontramos tombados, e sem esperança de amparo.

Espero que a nossa geração tenha a coragem para descer do pedestal dos títulos acadêmicos e políticos, e voltar a pisar o chão da nossa terra com identidade e amor,  e assim garantamos que o nosso legado geracional não sejam os cargos que lutámos para ocupar, mas sim a verdade que sempre tivemos a coragem de defender: a prosperidade virá do trabalho honesto, da união fraterna e da fidelidade às nossas utopias colectivas.

Marcos Carvalho Lopes

3 Comentários

  1. Primeiro, parabéns pela ousadia e pela coragem da escrita. É um texto que nos convida à reflexão e traz perguntas que talvez não precisem de respostas imediatas, mas de tempo para serem digeridas e pensadas.

    Éramos todos, de certa forma, marionetes de uma determinada lógica geracional que o ensaio resgata nesse retorno temporal, tomando como referência os nascidos entre 1980 e 1999. E, ainda hoje, muitos de nós parecem não querer acordar para compreender as agendas que orientam os nossos governantes. Mas talvez seja importante dizer que não foi apenas a nossa geração. Os nossos mais velhos também passaram grande parte das suas vidas sob discursos semelhantes, e muitos ainda têm dificuldade em questionar determinadas narrativas, presos a um lema que repete sempre o mesmo nome como garantia eterna, como se questionar fosse traição, e não uma forma de amor à pátria.

    É curioso notar que o próprio programa se propunha “de tu para tu”, mas o entrevistado não conseguiu tratar o Presidente por “tu”, já que o protocolo impôs “Sua Excelência”. Essa contradição não me é estranha, porque é algo que fomos condicionados a carregar nas nossas próprias mentes, a capacidade de olhar para uma figura de autoridade e, mesmo fora do lugar que exigiria tal protocolo, sentirmos que ele deve ser seguido de qualquer forma. Normalizámos isto a tal ponto que já não perguntamos de onde vem, nem por que continua a fazer sentido reproduzi-lo fora do seu contexto original. É um dos muitos gestos pequenos, quase invisíveis, que compõem essa farsa maior de que fala o autor, a de seguirmos um roteiro sem nunca o questionarmos, porque nos foi ensinado que questionar é que seria o desvio.

    O ensaio aborda também a perda das nossas línguas, tradições e espiritualidades em nome de um modelo importado de “Homem Novo”. E essa perda estende-se também à forma como nos dirigimos à autoridade. Pergunto-me se, nos nossos próprios reinos, como o de Gaza, sob figuras como Ngungunhane, a relação entre autoridade e linguagem política se organizava segundo esta mesma gramática de “Sua Excelência”. Os títulos e formas de tratamento presentes nas nossas tradições, como “Nkosi”, remetem a outras formas de organização da autoridade. Não se trata de simplesmente recuperar títulos dos antigos reinos, que já não existem, mas de perguntar se precisamos continuar reproduzindo, sem reflexão, formas de formalidade herdadas de outras experiências históricas. Talvez seja também esse um dos papéis que nos cabem enquanto académicos: pensar e repensar, construir formas próprias de nos dirigirmos aos nossos líderes, algo que nos identifique de facto. Não falo isto apenas como quem observa e analisa de fora; é um caminho de desconstrução que já venho percorrendo há algum tempo, e que esta reflexão agora me devolve com ainda mais urgência.

    Há ainda pontos absolutamente necessários quando se fala do sistema de ensino e da promessa de que “estudar” seria garantia de dignidade e emprego. A promessa revelou-se, tal como Ivan Ilitch descobre tarde demais, uma espécie de farsa bem construída. E como estudar, quando o ensino se diz gratuito e público, mas tantas vezes não consegue ser plenamente nem uma coisa nem outra? O próprio ensaio oferece-nos uma imagem dessa contradição, a de termos hoje “marginais” estudados, os tais nhonguistas, sinal de que o diploma nunca foi a garantia de dignidade que nos prometeram.

    O nepotismo fala alto, e a corrupção dispensa apresentações. Em diversos setores, a competência parece muitas vezes perder espaço para relações, pertenças e interesses, enquanto aqueles que estudaram e se prepararam continuam sem encontrar espaço para transformar conhecimento em trabalho e contribuição social. O sistema de ensino fracassa, sobretudo, quando deixa de cumprir a promessa de oferecer uma formação capaz de produzir não apenas diplomas, mas possibilidades reais de vida.

    Temos um país com tudo para dar certo, mas fomos perdendo a esperança. Como bem se aponta nesta reflexão, cada ida às urnas renova a expectativa de que alguma coisa irá mudar, e, tantas vezes, a frustração permanece. Falo também a partir da diáspora, onde muitos de nós já não se veem regressando para dar o seu contributo, porque sentem que o país não lhes oferece condições para permanecer ou retornar. E aqui faço uma leitura que nasce da minha própria experiência, e da de tantos outros da minha geração que passaram por esse mesmo percurso de formação, a de que temos ideias, temos formação, temos vontade de empreender, mas tantas vezes encontramos um sistema que nos limita, nos empurra para fora e depois nos cobra o contributo que não criou condições para receber.

    O mesmo Estado que nos disse para estudar acaba, paradoxalmente, por exportar quem estuda.

    Também me interroga a forma como importamos modelos de governação e de desenvolvimento, enquanto continuamos com dificuldades em consolidar aquilo que poderia produzir transformações mais profundas para a maioria, como uma educação de base de qualidade, saúde digna, capacidade industrial própria e mecanismos capazes de fazer com que os nossos recursos naturais se convertam efetivamente em desenvolvimento social. Temos riqueza no subsolo; a questão é saber por que essa riqueza ainda não se traduz, na mesma proporção, em bem-estar para o nosso povo.

    Chorei Porque é uma escrita que me atravessa enquanto filho desta nação. E talvez o que mais doa seja perceber que essa sensação de inautenticidade continua a reaparecer no presente, inclusive nas políticas de ensino superior que tenho estudado, e que revelam o mesmo padrão, o de que se promete acesso, mas na prática cria-se exclusão, onde “público” já não significa necessariamente acessível a todos.

    Talvez seja justamente essa a pergunta que fica: quanto daquilo que chamamos de fracasso individual é, na verdade, resultado de uma promessa social que nunca foi plenamente cumprida?

  2. Muito fantástico, professor Giveraz, a sua locução é extremamente forte, pelo facto da mesma estar a mexer com o problema central. Uma dependência externa coloca o país em maus lençóis, ademais a educação entendida como o garante do sucesso e de desenvolvimento social e económico ficou aquém, colocando todos como nhonguistas. O diploma já não é um elemento essencial no desenvolvimento da sociedade apenas um requisito que cumpre o desiderato externo.

  3. Quanta lucidez!
    Ah, como era bom que atendéssemos a tal apelo antes das próximas eleições. Aliás, nem devíamos tê-las antes de atendermos a este apelo.

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