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Você não vai me entender

Quando a exibição do curta-metragem de Murilo Ferraz Você não vai me entender terminou, houve uma pausa que não estava prevista pela organização do Festival de Cinema Curtas Que eu Curto. O apresentador tentou improvisar algumas palavras sobre a importância do cinema para abordar temas que… nessa parte ele não conseguiu desenvolver muito bem. Mas acho que essa incapacidade foi o melhor de sua fala. Porque o filme de Murilo trabalhou justamente com a diferença entre dizer e mostrar. O melhor resultado é retirar as palavras gastas e trazer a necessidade do silêncio para digerir o impacto emocional calculado.

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O cálculo é que a história poderia muito bem ser ampliada e ficar perfeitamente didática, como filmes feitos para gerar empatia por meio de uma emoção que produz identificação e, de certo modo, anula a alteridade. Afinal, você se emocionou! Não, o curta tem a medida certa para que este não seja o seu efeito. Ele problematiza justamente a diferença entre dizer e mostrar, e com ela, os limites daquilo que conseguimos comunicar com sentido. O que só o cinema poderia mostrar?

Na tela da mente, cada imagem é um instante e, quando elas se sucedem, temos movimento; mas, para isso, elas já precisam ganhar duração, desdobrar-se no tempo. A filosofia moderna fez desse pequeno cinema interior um problema. Em Descartes, nem mesmo a existência de uma coisa num instante garante por si só sua existência no instante seguinte: Deus precisa conservar continuamente o mundo. Em Locke, o problema se desloca para nossa experiência da duração: se Adão e Eva dormissem durante determinado intervalo, quanto desse intervalo existiria para eles como experiência? Mas talvez seja justamente desse cinema solipsista que precisemos sair quando tentamos compreender alguém que não somos nós. Presos à tela da própria mente, só conseguimos projetar o outro com as imagens que já possuímos.

Se para me compreender você precisa transformar minha experiência nas categorias que já possui, então você não vai me entender.

O cinema não é o abraço da mãe no filho; não é o abraço do filho na mãe, nem o se colocar no papel de um ou de outro, mas tornar sensível o entre e mobilizar o espectador, de-mostrando essa terceira margem do rio.

Pois é: o Murilo faz cinema! Agora você vai ter que ir atrás para ver!

Marcos Carvalho Lopes

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