Ícone do site filosofia pop

FERÉCIDES, a ponte entre “míthos” e “lógos”

texto de Gonçalo Armijos Palácios*

Muito do que temos recebido da tradição filosófica “menor”, digamos, foi, principal e decididamente, através do filtro de Platão e, do Aristóteles. A ojeriza de Platão contra a poesia homérica e hesiódica, a proibição de os poetas entrarem na sua República, diálogos como Eutífron, levaram a tradição acadêmica, por exemplo, a retirar ou negar qualquer valor racional, e filosófico, do que Hesíodo escreveu. Mas não só isso, levou-se a que se atribua a Hesíodo uma defesa das atitudes de Uranos contra seus filhos, a quem os enterrava apenas nasciam, ou de Cronos, que devora os seus quando saiam do ventre da mãe. Uma leitura serena e imparcial da Teogonia e dos Trabalhos e os Dias mostra, além de qualquer dúvida, a defesa, por parte de Hesíodo, de uma concepção não relativista,  à la Trasímaco (“justiça é o interesse do governante”, de quem esteja no poder, ou seja), muito próxima da concepção absolutista do próprio Platão, segundo a qual, haveria uma justiça em si, que está por cima dos interesses dos poderosos ou, como diríamos hoje, dos interesses de classe em geral.

Quando digo “menor” me refiro a pensadores fundamentais, como Tales, Anaximandro, Anaxímenes, ou o próprio Melisso. A tradição historiográfica destaca Heráclito e Parmênides – com justiça aliás – mais pelo fato de Platão e Aristóteles terem declarado sua admiração por eles, e menos pelo real valor, pelo valor intrínseco do seu pensamento e de suas contribuições.

Assim, Hesíodo é olimpicamente dispensado como pensador. É “apenas” um grande recolector de mitos que ele mesmo não criou. Portanto, não haveria nada de filosoficamente importante ou de interesse na obra do poeta. Como já tenho dito em outro ensaio, não é bem assim, ao contrário, há uma coincidência profunda sobre a concepção de justiça entre Hesíodo e Platão.

E Ferécides? Bom, é uma ponte de transição entre Hesíodo e Tales. Podemos ignorá-lo completamente. Mas o que ele escreveu, sem dúvida, influenciou Tales. Lamentavelmente as historiografias academicistas, oficiais, da filosofia, e sua origem, falam, sem mais nem menos, numa ruptura entre a mitologia e a filosofia, como se Tales representasse um salto brusco do mito para a filosofia. Ou em outras palavras, de Homero e Hesíodo para o próprio trabalho dele, Tales, de seu discípulo, Anaximandro, e do discípulo deste último, Anaxímenes.

Como é que Ferécides fez isso, ou, em outras palavras como preparou o terreno de Tales ou como o influenciou. Em poucas palavras, retirou o caráter antropomórfico do que seriam os princípios impessoais da realidade. Que seriam três, o princípio da vida, Zas, cuja etimologia está atrelada a viver; o tempo impessoal, Χρόνος, com a letra Χ e não com a letra kappa, como em  Κρόνος, deus do tempo. Χρόνος, é um princípio, um princípio temporal, não é Κρόνος, uma entidade divina, uma pessoa. Há em Ferécides uma abstração, uma separação do mito-antropomórfico para o lógico metafísico. Separação que vai, inclusive, além do que Tales e seus seguidores imediatos fizeram. Pois Tales, Anaximandro e Anaxímenes propuseram um princípio não antropomórfico, ao propor em seu lugar um princípio material, o que Ferécides não fez. Ferécides foi além, deu um passo além, propondo uma abstração, isto é, uma separação racional, tanto do mítico quanto do físico, do natural e material. Ferécides foi mais ousado filosoficamente, e ao propor princípios materiais, Tales, Anaximandro e Anaxímenes deram um passo atrás respeito da proposta imaterial, metafísica nesse sentido, de Ferécides.

De qualquer forma, a forma em que Ferécides expôs sua doutrina é ambígua, na medida em que considera esses princípios de tudo abstratos, mas também divinos. Daí Aristóteles se referir a eles como um pensador “misto”, que fica entre o mitológico e o racional, o que não faz Tales, por exemplo. O que temos com esses princípios, na verdade, é três formas de ser, não ‘coisas’, como ar, terra, fogo, água. Isso certamente o aproxima de Parmênides e o afasta de Tales, Anaximandro e Anaxímenes.

Em síntese, Ferécides “corrige” Hesíodo, ‘desantropomorfizando’ o teogônico, retirando-o do plano mito-antropomórfico para um plano racional e, o que é extremamente interessante e importante, não apenas para um plano racional, mas, o que resulta mais filosófico ainda,, abstracto-onto-lógico. 

*Gonçalo Armijos Palácios
José Gonzalo Armijos Palácios possui graduação e doutorado em Filosofia pela Pontificia Universidad Católica Del Ecuador (1978 e 1982, respectivamente) e doutorado em Filosofia pela Indiana University (1989). Realizaou estudos de pós-doutorado na Indiana University em 1996 e 1997. Desde1992 é professor titular da Universidade Federal de Goiás. Tem experiência na área de Filosofia, atuando principalmente nos seguintes temas: filosofia, metafilosofia, filosofia política e ensino de filosofia. Participou do Grupo de Sustentação para a criação do GT Filosofar e Ensinar a Filosofar, em 2006, do qual foi seu primeiro coordenador eleito. Foi o fundador do Curso de Pós-Graduação em Filosofia da UFG (1993), da revista Philósophos (1996), do Curso de Graduação em Filosofia da cidade de Goiás da UFG, em 2008, e participou da criação do Campus Cidade de Goiás da UFG em 2009.

Sair da versão mobile