O desafio do comum num debate aberto do Atelier Filosófico
Severino Ngoenha
9 de maio de 2026
O imprevisto que abriu o essencial

O Atelier Filosófico prossegue, em 2026, a sua convocatória: lutar por Moçambique hoje. A cada sessão, uma voz é convidada para iluminar, a partir de uma perspetiva própria, os desafios que se colocam à continuidade da liberdade conquistada. No entanto, desta vez, por razões imprevistas, o orador convidado não pôde estar presente.
À primeira vista, tratou-se de uma ausência. Mas aquilo que parecia um vazio transformou-se rapidamente numa presença inesperada. Sem uma voz única a estruturar o debate, abriu-se um espaço mais amplo, mais livre e, paradoxalmente, mais exigente: o espaço de uma palavra plural.
Várias intervenções emergiram, cruzaram-se, confrontaram-se. Não havia um centro, mas havia um eixo comum: a inquietação em torno do que significa hoje lutar por Moçambique. E talvez tenha sido precisamente essa ausência que revelou algo essencial. A reflexão deixou de ser mediada por uma autoridade discursiva única e passou a emergir directamente da experiência vivida, das preocupações concretas, das tensões reais.
Ao ponto de se poder afirmar, com alguma ironia séria, que o Atelier sem orador deve repetir-se. Não para substituir o modelo anterior, mas para o completar. Porque, afinal, pensar o comum exige também momentos em que o comum fala por si.
A voz plural: quatro inquietações centrais
Do conjunto das intervenções, marcadas por uma intensidade por vezes abrupta e por um tom frequentemente peremptório, emergiram quatro grandes eixos que estruturam a inquietação colectiva.
O primeiro eixo foi o da crise de confiança no Estado. Várias vozes convergiram numa constatação simples e dura: os cidadãos não contribuem, não participam, não se envolvem plenamente porque não confiam. O Estado deixou de ser percebido como guardião do bem comum. Existe formalmente, mas não mobiliza. Está presente, mas não cobre. Esta percepção, longe de ser apenas emocional, traduz uma ruptura profunda entre instituições e sociedade.
O segundo eixo foi o da soberania económica fragilizada. Num país rico em recursos, permanece a sensação de que a decisão sobre esses recursos não pertence plenamente à comunidade nacional. A comparação com outros contextos – onde o subsolo pertence ao Estado e é protegido como património colectivo – serviu para evidenciar uma inquietação mais funda: Moçambique existe politicamente, mas ainda não decide plenamente sobre si economicamente. A dependência externa, histórica e persistente, surge aqui como uma limitação estrutural da própria soberania.
O terceiro eixo incidiu sobre a captura do Estado por elites. A emergência de uma classe económica ligada ao poder político, muitas vezes formada no contexto pós-guerra, foi identificada como um dos factores centrais de desvio do projecto nacional. O Estado, que deveria distribuir e organizar o comum, aparece frequentemente como instrumento de acumulação privada. O problema já não é apenas a desigualdade, mas a origem dessa desigualdade: um sistema que privilegia proximidades ao poder em detrimento da produção e do mérito.
O quarto eixo, talvez o mais profundo, foi o da crise da cidadania. Reivindicam-se direitos, mas raramente se assumem deveres. Critica-se o Estado, mas não se constrói o espaço comum. Falta uma educação cívica que vá além da denúncia e que se traduza em participação responsável. O cidadão surge, muitas vezes, como sujeito passivo ou reactivo, e não como agente activo da construção social.
A atravessar estes quatro eixos, uma inquietação transversal tornou-se evidente: a dificuldade em criar um verdadeiro espaço de deliberação. Fala-se, mas não se escuta. Debate-se, mas não se constrói. A palavra, em vez de aproximar, tende a polarizar. E quando isso acontece, a política perde a sua função essencial.
Reconstruir o comum: uma exigência filosófica
O que emergiu deste debate não foi apenas um conjunto de críticas. Foi a revelação de um problema mais profundo, que não é apenas político nem económico. É um problema filosófico no sentido mais exigente do termo: a fragilidade do comum.
Nos encontros anteriores do Atelier, essa questão já havia sido abordada por vozes como Luís Bernardo Honwana e Elísio Macamo. O primeiro insistia na necessidade de um Estado forte, capaz de proteger e integrar. O segundo deslocava a questão para a ética da palavra, sublinhando, com recurso a Jürgen Habermas, que a legitimidade do poder depende da sua capacidade de se justificar perante os cidadãos.
O debate agora realizado, sem orador, veio confirmar e radicalizar essas intuições.
Um Estado que não é reconhecido como comum deixa de ser Estado no sentido pleno. Uma economia que não serve o colectivo deixa de ser desenvolvimento. Uma cidadania que se limita à reivindicação perde a sua dimensão ética. E uma palavra que não constrói entendimento deixa de ser política.
A questão central torna-se então esta: como reconstruir o comum?
A filosofia contemporânea oferece aqui algumas pistas importantes. Em Jean-Luc Nancy, o comum não é algo dado, mas algo que se constrói na coexistência. Em Hannah Arendt, o espaço público é o lugar onde os homens aparecem uns aos outros através da palavra e da ação. E em Jean-Godefroy Bidima, a palavra não é apenas expressão, mas caminho para o consenso.
Estas três linhas convergem num ponto essencial: o comum não existe sem prática.
Não basta invocá-lo. É preciso construí-lo.
E essa construção exige uma dupla transformação.
Por um lado, o Estado deve recuperar a sua função de proteção e organização, tornando-se novamente um espaço de confiança. Isso implica transparência, justiça na distribuição e capacidade de negociação externa que preserve os interesses nacionais.
Por outro lado, os cidadãos devem reconhecer que a sua condição não se esgota em direitos. A cidadania implica deveres: dever de participação, dever de escuta, dever de contribuição para o bem coletivo. Sem essa reciprocidade, não há comunidade política possível.
Talvez seja este o ponto mais exigente da reflexão: a luta por Moçambique hoje já não pode ser pensada apenas em termos de oposição, mas em termos de construção.
Não se trata de identificar um inimigo, mas de assumir uma responsabilidade.
E essa responsabilidade é partilhada.
Conclusão: a tarefa infinita do comum
O debate aberto deste Atelier mostrou, com uma clareza quase brutal, que a questão central de Moçambique hoje não é apenas a pobreza, nem apenas a corrupção, nem apenas a dependência externa.
É a fragilidade do comum.
Sem comum, o Estado fragmenta-se.
Sem comum, a economia desvia-se.
Sem comum, a cidadania esvazia-se.
Lutar por Moçambique hoje significa, portanto, algo mais exigente do que no passado. Significa reconstruir as condições de possibilidade da vida colectiva.
Essa tarefa não tem fim. Não tem solução rápida. Não tem um único protagonista.
Mas talvez seja precisamente isso que o Atelier Filosófico descobriu neste encontro inesperado: o comum não nasce de uma voz única – nasce da capacidade de muitas vozes permanecerem no mesmo espaço sem se destruírem.
E é aí, talvez, que começa verdadeiramente a luta do presente.
