Diálogo com Luís Bernardo Honwana sobre o que significa lutar por Moçambique hoje
Severino Ngoenha
29 de março de 2026

I. Uma convocatória: por que falar hoje de “lutar por Moçambique”
O Atelier Filosófico decidiu consagrar o ano de 2026 a um tema que é simultaneamente memória histórica e convocatória política: lutar por Moçambique hoje.
A expressão não é nova. Ela pertence à linguagem da própria história nacional e remete imediatamente para o livro de Eduardo Mondlane, Lutar por Moçambique, escrito no momento em que a tarefa histórica da geração da independência era clara: enfrentar o colonialismo português e conquistar a liberdade.
Essa missão foi cumprida. A independência foi conquistada. O Estado moçambicano nasceu.
Mas a história não termina com a independência. Como lembrava Frantz Fanon, cada geração deve descobrir a sua missão, cumpri-la ou traí-la. A geração da libertação cumpriu a sua missão ao enfrentar o colonialismo. A geração de hoje encontra-se perante uma tarefa diferente: continuar a luta para que a liberdade conquistada se consolide e produza uma comunidade política justa, soberana e capaz de garantir dignidade aos seus cidadãos.
Foi neste espírito que o Atelier Filosófico decidiu escolher este tema para orientar os seus debates ao longo de todo o ano. Não se trata de repetir o passado, mas de reencontrar a energia moral que animou a luta de libertação e de a dirigir para os desafios do presente.
Hoje o desafio tornou-se mais complexo. No passado existia um inimigo claramente identificado: o sistema colonial. Hoje, a luta não se dirige contra um único adversário visível. Ela exige que sejamos capazes de identificar onde devemos concentrar as nossas energias colectivas para preservar e aprofundar a liberdade conquistada.
É precisamente para ajudar a iluminar esses desafios que o Atelier Filosófico decidiu convidar diferentes personalidades ao longo do ano.
O primeiro convidado foi Luís Bernardo Honwana.
A escolha tem um significado evidente para qualquer moçambicano. Honwana pertence à geração que participou na luta pela libertação. Mas a razão essencial do convite não reside apenas nesse passado. Convidá-lo significa reconhecer que ele continua a ser um intelectual que pensa Moçambique e que permanece empenhado na luta pelo seu futuro.
E talvez por isso seja particularmente sugestivo recordar aqui o título da sua obra literária mais conhecida, Nós Matámos o Cão Tinhoso. A metáfora é inevitável: matámos o cão tinhoso – mas não eliminámos a contagiosa tinha.
A luta contra o colonialismo derrotou o sistema que dominava o país. Mas as doenças que podem corroer uma comunidade política não desaparecem automaticamente com a independência. Elas podem assumir novas formas, espalhar-se silenciosamente, contagiar instituições e relações sociais.
É nesse sentido que o diálogo com Luís Bernardo Honwana nos ajuda a compreender um ponto essencial: a luta por Moçambique não terminou; ela mudou de natureza.
II. A voz de Luís Bernardo Honwana
Quando olhamos para a história do país, devemos reconhecer que o colonialismo reuniu no mesmo território povos de diferentes línguas, culturas e tradições. No entanto, o próprio exercício do poder colonial – com a sua violência e a sua injustiça – acabou por criar entre nós um elo poderoso: a consciência de um sofrimento comum.
Foi essa consciência que permitiu mobilizar os moçambicanos para a luta de libertação. Foi através dessa luta que se tornou possível a criação do Estado que proclamámos a 25 de Junho de 1975.
Mas esse Estado não é o ponto final da nossa história. Ele é apenas o ponto de partida para a construção da nação.
A verdade é que essa construção se revelou mais difícil do que muitos imaginavam. O país enfrentou guerras, pressões externas e crises que fragilizaram o processo de consolidação do Estado.
Por isso devemos reconhecer uma realidade simples: lutar por Moçambique hoje significa compreender que ainda estamos na fase de consolidação do Estado.
Se queremos garantir o futuro do país, precisamos antes de tudo de um Estado forte. O Estado é o principal instrumento de que dispomos para organizar o desenvolvimento, proteger o território e garantir a coesão nacional.
Mas um Estado não pode cumprir essa missão se for capturado por interesses particulares. A corrupção e a apropriação privada do bem público enfraquecem as instituições e afastam o Estado da população.
Também não podemos falar de unidade nacional quando o país se torna cada vez mais desigual. As desigualdades corroem a confiança colectiva e criam fracturas na comunidade política.
E existe ainda um outro desafio que não podemos ignorar. Moçambique possui recursos naturais importantes. Esses recursos podem ser uma oportunidade extraordinária para o desenvolvimento. Mas também podem tornar-se um perigo se não soubermos posicionar o país na conjuntura internacional.
Lutar por Moçambique hoje significa garantir que o Estado seja suficientemente forte para proteger os interesses nacionais, combater a corrupção, enfrentar as desigualdades e negociar com o mundo exterior em condições que favoreçam o desenvolvimento do país.
III. A tinha do nosso tempo: uma reflexão filosófica
Se retomarmos a metáfora sugerida pelo próprio universo literário de Luís Bernardo Honwana, poderíamos dizer que a história de Moçambique conheceu um momento decisivo quando o país conseguiu “matar o cão tinhoso”. O colonialismo foi derrotado e a independência abriu o caminho para a construção de uma nova comunidade política. No entanto, a imagem continua perturbadoramente actual: a tinha não desapareceu.
E a tinha, como sabemos, é contagiosa.
Ela manifesta-se hoje através de fenómenos que corroem lentamente o tecido da vida coletiva: a corrupção, a fragilidade das instituições, as desigualdades profundas, a captura do Estado por interesses particulares e as pressões externas sobre os recursos do país. Essas formas de corrosão não são menos perigosas do que o sistema colonial que a geração da independência enfrentou. São apenas mais difusas, mais silenciosas e, por isso mesmo, mais difíceis de combater.
É neste ponto que a reflexão de Honwana adquire uma dimensão filosófica decisiva. O problema central colocado pela sua intervenção é o problema da forma política capaz de sustentar uma comunidade nacional. Em termos simples, a questão é esta: que tipo de Estado pode garantir que os moçambicanos se reconheçam como membros de uma mesma comunidade de destino?
Quando se fala de um Estado forte, é importante evitar equívocos. Um Estado forte não é um Estado que se impõe pela força das armas. Um Estado forte é um Estado capaz de proteger, organizar e incluir. Talvez a melhor metáfora seja precisamente a de uma grande guarda-chuva.
Um Estado forte é aquele que cobre todos os cidadãos. Cobrir significa proteger. Cobrir significa reconhecer as diferenças culturais, regionais e sociais. Cobrir significa garantir que ninguém se sinta excluído da comunidade política. Quando um Estado cumpre essa função, os cidadãos sentem-se parte de um destino comum e reconhecem nele um instrumento de proteção colectiva.
Quando isso não acontece, surgem fracturas perigosas. Quem não se sente coberto pela guarda-chuva do Estado tende a procurar outros refúgios, outras formas de proteção ou de afirmação. E essas alternativas podem assumir formas violentas. A pobreza, a exclusão e a injustiça social são, elas próprias, formas profundas de violência que podem gerar novas tensões políticas e sociais.
Mas a fragilidade do Estado não é apenas um problema interno. Ela abre também espaço para pressões externas. Num mundo marcado por disputas geopolíticas e por uma intensa procura de recursos naturais estratégicos, países ricos em recursos podem tornar-se alvos de interesses que não coincidem com os interesses da sua população.
Moçambique encontra-se precisamente nessa situação. Os recursos naturais do país representam uma oportunidade histórica para melhorar as condições de vida da população. Mas podem também transformar-se numa maldição se alimentarem a corrupção, as desigualdades e a dependência externa.
A luta por Moçambique hoje consiste, portanto, em impedir que esses recursos se tornem instrumentos de exploração ou de conflito. Para isso é necessário um Estado capaz de negociar com o mundo exterior, proteger os interesses nacionais e garantir que a riqueza do país seja utilizada para promover o desenvolvimento colectivo.
Essa luta deve enfrentar simultaneamente dois perigos. De um lado, os interesses externos que procuram transformar o país num simples espaço de extração de recursos. Do outro lado, as formas internas de ganância e corrupção que desviam o bem público para benefício privado.
A tarefa central é, portanto, reconstruir um sentimento de pertença colectiva. Um Estado que protege, que distribui oportunidades e que garante justiça social torna-se naturalmente um ponto de referência para os seus cidadãos. Ele cria as condições para que cada pessoa se reconheça como parte de uma comunidade nacional.
Talvez seja esse o sentido mais profundo da convocatória que emerge deste primeiro Atelier Filosófico. Lutar por Moçambique hoje significa enfrentar as novas formas da “tinha” que ameaçam a comunidade política. Significa reforçar o Estado, combater a corrupção, reduzir as desigualdades e proteger a soberania do país num mundo cada vez mais voraz.
Só assim a luta iniciada pela geração da libertação poderá continuar o seu caminho histórico: o caminho da liberdade, da dignidade e da construção de uma nação verdadeiramente partilhada por todos os moçambicanos.
