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O BRASIL NA AMÉRICA LATINA

sgbr

Léopold Sédar Senghor

tradução de Marcos Carvalho Lopes

Dou o devido valor à honra que me fizestes ao receber-me na Academia Brasileira de Letras. Porque é o escritor que quisestes honrar em minha pessoa. Porque avalio a importância dessa honra pela grandeza das letras brasileiras. Conheço pessoalmente muitos escritores latino-americanos, sobretudo brasileiros, por tê-los lido e apreciado.

Já tive oportunidade de dizê-lo: na elaboração da Civilização do Universal, que se edifica apesar dos preconceitos e dos ódios, das guerras locais ou mundiais, a contribuição da América Latina constitui uma das quatro pedras angulares. Sem dúvida, no domínio da técnica e da indústria, ela ocupa uma posição de destaque, como filha da Europa que atingiu a maioridade. Mas, como podeis imaginar, quando falo de vossa “contribuição”, penso no humanismo latino-americano: menos em vossos cientistas — e sei que tendes muitos de renome — do que em vossos pensadores, escritores e artistas.

Conseguistes transcender as querelas de raça e religião, que constituem, hoje, para a humanidade, as ameaças mais mortais. Fizestes melhor: não tanto delineando uma política de integração racial quanto praticando-a, vivendo-a, para fazer dela um novo humanismo: uma cultura. Pois o que é a cultura senão a expressão humana de uma situação dada ou, se preferirdes, a adaptação a uma situação — geográfica, histórica, biológica — para colocá-la a serviço do homem? O que há de notável no caso da América Latina é que vossos escritores e artistas, inspirando-se em vossas respectivas situações nacionais e em vossa situação global, nos falaram do homem, pintaram-no, esculpiram-no, cantaram-no e dançaram-no — quero dizer, suas misérias e grandezas, seus sofrimentos e esperanças — com acentos inauditos, formas jamais vistas. Eles nos atingiram nas entranhas, na própria raiz do ser, fazendo-nos ora chorar, ora dançar com eles. Com isso, alcançaram verdadeiramente o fim de toda arte, que é fazer com que os homens comunguem no mesmo sentimento-ideia: nos mesmos ritmos da mesma energia humana, da mesma condição humana.

Ficai tranquilos, não me esqueço do Brasil. Quis, antes, situá-lo no subcontinente do qual ele é o coração, para melhor compreendê-lo e mostrar em que medida ele é exemplar nesse aspecto, tendo realizado, em sua plenitude, o ideal que tentei brevemente definir.

Com efeito, tendes, reunidas neste vasto país, nestes vastos países, cujo conjunto tem a medida de um continente, as três raças que compõem a América Latina. Mas o que admiro, em vosso caso, é menos a mestiçagem biológica do que a simbiose cultural que realizastes. O que é admirável é que o sangue negro ou índio tenha irrigado as artérias de muitos de vossos grandes escritores, como Machado de Assis, Gonçalves Dias e Cruz e Sousa, para citar apenas os mortos. O que é ainda mais admirável é que, graças a essa simbiose, cada um dos melhores escritores brasileiros traz em si, como frutos deliciosos de uma enxertia, as virtudes complementares das três etnias: das três civilizações diferentes que compõem a cultura brasileira.

O que descobri nesse gênio brasileiro é uma tripla vontade de fidelidade à Latinidade, à Africanidade — mais precisamente: à Negritude —, à Indianidade. Essa tripla vontade se traduz por um triplo esforço de lucidez na análise, de apreensão integral da vida, de permanência na memória. É essa rica mistura — a princípio desconcertante para os europeus — de fervor e humor, de simbolismo lírico e análise histórica, de profundidade turva e clareza transparente, que é o selo do gênio brasileiro. Esse traço se manifesta até entre os etnólogos e os estudiosos, que recusam essa dicotomia tão cara às falsas revoluções quanto aos falsos classicismos. Para citar apenas um: é por se recusar a falar ex cathedra que Gilberto Freyre avança, para além das estatísticas, até a experiência e “a língua infalível do povo”, por meio das quais fez o mundo viver e sentir as realidades brasileiras.

Até mesmo a delicadeza e a saudade brasileiras — das quais se falou com leviandade — são flores refinadas da simbiose das civilizações: da cultura brasileira.

A gentileza, inata, mas consciente, eu a experimentei outrora entre o povo lusitano, e vós a experimentareis, por vossa vez, se visitardes meu país. Essas duas formas de gentileza, enxertadas na doçura indígena, deram essa cortesia saborosa, que é mais do coração do que dos lábios e que nos é dispensada desde que pisamos em vosso solo. Quanto à saudade, nunca a senti tão profundamente como ao ler vossos poemas, ao ouvir vossos cantos. Ela merece mais do que disseram dela os estrangeiros. Ela é, com a delicadeza, uma das expressões mais humanas do humanismo brasileiro. Pois a saudade é, ao mesmo tempo, o pesar pelo Paraíso perdido, a esperança de um mundo de plenitude e o sentimento agudo de vossa — de nossa — situação atual, feita de alienações e contradições. A vossa saudade é, na verdade, a expressão de nosso sonho, de nós, homens e mulheres do Terceiro Mundo; é a nossa poesia.

Eu disse “nossa poesia” ao falar de vossa poesia. A mitologia negro-africana da Palavra nos conta que todas as criaturas saíram do seio de Deus para virem a ser pela virtude da Palavra ritmada: da poesia. O que explica que toda forma de arte seja poesia, isto é, criação por meio da imagem ritmada, seja ela sonora ou plástica.

Poetas, portanto, não somente vossos romancistas, historiadores, filósofos, etnólogos, mas também vossos arquitetos, escultores e pintores: um Oscar Niemeyer, um Lúcio Costa, um Cândido Portinari, um Heitor dos Prazeres. E esqueço outros, mas cuidarei para não esquecer o Ancestral: o grandíssimo escultor que foi Aleijadinho.

Chamo esses criadores de poetas, pois todas as artes no Brasil, a exemplo das diversas expressões da vida, desde o famoso apelo do acadêmico Graça Aranha, dão-se as mãos e integram-se à arquitetura — mais precisamente, à poesia. Quero dizer que todas, juntas, abraçam a totalidade da vida brasileira do século XX — para nela se enraizarem, expressarem-na e promoverem-na, anunciando o Brasil do ano 2000. Pois o que é a poesia senão o espírito que, pela virtude da palavra, expressa o sentido pelo signo e a unidade da vida sob a diversidade de suas formas, descortina o eterno sob o cotidiano, apoia-se no passado para construir o presente e ordenar o futuro? Tais são as funções das artes no Brasil. A arquitetura, por exemplo, tornou-se mais que funcional: vital. Com a escultura e a pintura retomando seus papéis naturais de auxiliares da arquitetura, as três artes plásticas retornaram à sua fonte, à sua vocação primeira, que era reforçar a força vital do homem, e não alimentar a curiosidade saturada dos turistas internacionais.

Sei muito bem que, nesse Renascimento das letras e das artes brasileiras, o exemplo da Europa, em particular o da Escola de Paris, não foi em vão. Uma das virtudes da Latinidade é precisamente essa lucidez que a impele a buscar e assimilar os valores das civilizações exóticas — entre elas, as da África —; e sabeis qual foi o papel da Arte Negra na formação da Escola de Paris. Mas vossa sorte, brasileiros, é que, para serdes “modernos”, não precisáveis recorrer ao “exotismo”, pois trazíeis em vós mesmos as virtudes complementares do espírito contemporâneo. Vosso mérito foi o de, livres de todo complexo de antiga “colônia”, vos colocardes resolutamente na linha de frente da busca e do combate pela Civilização do Universal.

Sabeis que, no Senegal, os escritores e artistas aqui representados prosseguem na mesma busca e no mesmo combate, tanto mais porque, nos domínios da geografia, da história, da cultura e até, em certo sentido, da etnia, muitas coisas nos aproximam.

Saúdo, portanto, em vossa Academia, essa cultura brasileira, que, no leste do continente americano, é um dos faróis do Terceiro Mundo.

Alocução na Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, 20 de setembro de 1964.


Nota editorial: Foram preservadas expressões historicamente situadas, como “raça”, “Terceiro Mundo”, “civilizações exóticas” e “Arte Negra”, que refletem o contexto e o pensamento do autor. O termo “Indianidade” designa, aqui, a matriz indígena americana. Os nomes próprios foram atualizados para as grafias consagradas no português brasileiro, entre eles Cruz e Sousa, Oscar Niemeyer e Heitor dos Prazeres. O tratamento em “vós” foi mantido por sua adequação à solenidade do discurso e ao registro oratório de Senghor. Esta tradução para uso didático baseia-se em: SENGHOR, Léopold Sédar. “Le Brésil dans l’Amérique latine”. In: Liberté 3: Négritude et civilisation de l’Universel. Paris: Seuil, 1977, p. 27–30.

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