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O Outro no Mesmo

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Como introduzir uma filosofia ‘outra’ no quadro de um ensino filosófico regular.

Nos países que possuem um ensino regular de filosofia, a ênfase é frequentemente colocada nos filósofos ‘ocidentais’ – quer seja numa perspectiva histórica, quer no tratamento temático de assuntos. Embora nem sempre exista um cânone rigoroso que limite os autores estudados, continua a ser pouco comum ler textos de outras tradições culturais.

Contudo, a situação já não é a mesma de há cinquenta ou cem anos. Na maioria dos países – e limitar-me-ei aqui aos países europeus – o público escolar mudou profundamente. Apesar dos lamentos de alguns, este público tornou-se multicultural: os alunos provêm de horizontes diversos, divididos entre a cultura do país de acolhimento e a dos seus pais ou avós, que por vezes reencontram durante as férias. As ideias aprendidas na escola nem sempre ressoam com as aprendidas em casa ou no país de origem. Para os professores, coloca-se a questão: como trabalhar nesta diversidade cultural? Nalgumas disciplinas, o problema está bem identificado: como abordar a teoria da evolução quando um aluno acredita numa criação literal em sete dias? Como falar das variações sexuais quando os jovens aprendem que existem apenas dois géneros, destinados a amar-se apenas numa relação heterossexual? Em história, já não se podem evocar os ‘actos heróicos’ e as ‘descobertas’ das colónias sem mencionar o tráfico atlântico de escravos nem a pretensa ‘missão civilizadora’ do Ocidente em relação a países considerados primitivos e sem cultura.

O caso do ensino filosófico é ainda mais delicado. Durante muito tempo, apresentou-se a filosofia como essencialmente ocidental, nascida milagrosamente na Grécia antiga, nas palavras de Ernest Renan em 1883. A existência de filosofias na India, na China ou no Japão era muitas vezes reservada a especialistas, mesmo na universidade. Quanto à ideia de uma filosofia ‘africana’, era impensável, uma vez que o filósofo L. Lévy-Bruhl descrevia a mentalidade dita ‘primitiva’ como ‘pré-lógica’, portanto incapaz de aceder à lógica aristotélica. Os tempos mudaram, mas as mentalidades permaneceram as mesmas.

No que respeita à história da filosofia africana, as discussões começaram com um pequeno livro escrito por um missionário belga, o padre Pl. Tempels. Esta obra teve uma grande divulgação quando foi reeditada pela Présence Africaine em Paris, em 1949, sob o título A Filosofia Bantu, e mais tarde traduzida para alemão (1956) e inglês (1959).

Desde então, muitos países do Sul rejeitaram – não sem dificuldades – a dominação política e económica dos países do Norte. As publicações filosóficas na América Latina e em Africa multiplicam-se, procurando fazer ouvir as suas próprias vozes, frequentemente entrelaçadas com uma busca de identidade autêntica, há muito pisada pelas culturas das potências colonizadoras francesa, britânica, portuguesa, alemã e belga.

O caso da Ásia é um pouco diferente, porque as suas tradições filosóficas remontam muitas vezes a tempos mais antigos do que na Europa, são bem conhecidas nos meios intelectuais e, sobretudo, são acompanhadas de textos escritos e comentários. Além disso, coloca-se a questão da filosofia árabo-muçulmana: pertence ao Próximo Oriente ou constitui uma entidade própria? A presença de comunidades muçulmanas em muitos países ocidentais torna necessário ter isto em conta.

A título de exemplo, esquecemos muitas vezes que esta filosofia árabe permitiu a transmissão do pensamento aristotélico aos filósofos cristãos, através das traduções para siríaco e árabe, bem como dos encontros em Espanha entre judeus, muçulmanos e cristãos durante o que chamamos a ‘Idade Média’ – esse período qualificado de ‘obscuro’ pelos pensadores do Iluminismo, ansiosos por se distinguirem dos seus pretensos antecessores ‘obscurantistas’.

Podemos reconhecer sinceramente que o espírito da razão não é monopólio de um grupo étnico que vive por acaso na Europa? Mesmo que os nossos filósofos jurem por Aristóteles que o homem só é homem enquanto zôon logikon isto é, ao contrário dos animais, dotado de logos, de razão, negar esta razão equivaleria a negar a própria humanidade do outro, ainda que ele venha de outra cultura ou de outra época. É claro, porém, que se coloca um problema: as ideias, as reflexões, as concepções da pessoa, do mundo, de Deus, do viver em conjunto podem ser muito diferentes, e as barreiras linguísticas agravam por vezes essas diferenças. As línguas diferem, mas também os discursos. A tarefa do ensino intercultural é, portanto, antes de mais, uma tarefa de tradução. Não a tradução literal – auxiliada por ferramentas electrónicas cada vez mais poderosas -, mas sobretudo a tradução do próprio conteúdo, que é o mais difícil. Os termos nem sempre abrangem os mesmos significados, sobretudo as palavras-chave que evocam todo um universo cultural. As concepções da pessoa humana, da relação com os outros, com os animais, com os elementos naturais, com Deus ou com divindades encarnadas numa árvore, num rio ou numa rocha, do tempo… tudo isto remete para um outro mundo.

Uma disciplina impõe-se: a hermenêutica, a arte da interpretação. Iniciada por Aristóteles, desenvolvida no século XX no Ocidente por pensadores como H.-G. Gadamer e P. Ricœur, a hermenêutica está presente, de uma forma ou de outra, em todas as culturas. Nenhum griot africano repete a mesma história de forma estereotipada; ele adapta-a ao seu público para transmitir o significado essencial. Quer se trate da Bíblia ou do Alcorão, filósofos e teólogos tiveram, ao longo dos séculos, de interpretar estes textos sagrados para os tornarem compreensíveis ao seu público e os adaptarem ao seu tempo.

Ensinar filosofia é essencialmente um trabalho de tradução e interpretação. Durante demasiado tempo, os professores descansaram na ilusão de que os seus alunos falavam a mesma língua que eles e de que a interpretação era simples. Mas mesmo com uma língua comum, há a distância das idades. Os bons professores sempre tiveram consciência de que não vivem no mesmo mundo que os seus alunos. Mesmo os jovens professores sentem rapidamente que já não são da mesma geração, sobretudo porque o mundo muda rapidamente sob o efeito das novas tecnologias e dos meios de comunicação que ligam os jovens a amigos e familiares dispersos pelo mundo. O apelo à descolonização após a morte de um negro nos Estados Unidos teve repercussões em todas as comunidades de origem africana, em todos os continentes. Do mesmo modo, os massacres na Palestina provocam indignação mundial contra a violência desumana contra mães, crianças, doentes, cuidadores e voluntários. As discussões sobre a justiça ou a verdade já não são conversas pacíficas entre amigos quando o presidente de uma grande nação pisoteia, com os seus actos e palavras, os valores elementares da humanidade.

Após a exigência hermenêutica, devemos também defender uma exigência ‘intercontinental’. Tomo de empréstimo este termo a um colega sul-africano, Ernst Wolff (Leuven).

A filosofia comparada é conhecida há muito tempo. O filósofo designado (ocidental) actua como árbitro ‘neutro’ para comparar outras filosofias com a bitola da sua própria tradição. É claro que este papel nunca é neutro: ele coloca-se desde o início numa posição de superioridade e impõe o seu padrão. A alteridade da filosofia vinda de outros lugares é assim reduzida ao Mesmo.

Surgiu então a filosofia intercultural. Pensadores de origens diversas trocam as suas visões do mundo, da pessoa, da sociedade, registando semelhanças e divergências. Isto pode ser enriquecedor, aproxima pessoas de outras culturas, mas influenciará realmente as suas ideias? Quando o professor Wolff defende uma filosofia intercontinental, salienta que nós, professores de filosofia (mas também de outras disciplinas), permanecemos demasiadas vezes no nosso ‘continente’ ou na nossa ‘ilha’. Ficamos na nossa disciplina, nos nossos temas familiares. No entanto, num mundo globalizado, ninguém vive mais numa ilha. Este mundo globalizado está presente diante dos olhos e ouvidos do professor. Quantas nacionalidades diferentes não se encontram muitas vezes nas salas de aula das cidades do Norte?

Uma filosofia intercontinental é uma filosofia consciente de que o mundo globalizado coloca problemas reconhecidos por todos, mas interpretados de forma diferente de acordo com as diferentes visões do mundo. Filosofar neste contexto significa estar aberto a outras visões, tentar compreendê-las, ajudar os alunos a clarificar as suas próprias concepções e procurar respostas que permitam viver em conjunto com colegas por vezes diferentes, mas compreensíveis na sua diferença, sabendo que temos mais em comum do que aquilo que nos separa. É surpreendente ouvir que, em alguns países africanos, dentro da mesma família, o irmão mais velho pode ser animista, ele próprio muçulmano e a sua irmã cristã, sem que isso provoque conflitos ideológicos eternos. O espírito de viver em conjunto em família ultrapassa as convicções pessoais, porque isso é o mais importante.

É a isto que chamo ‘o Outro no Mesmo’. Demasiadas vezes, certas pessoas gostam de realçar a alteridade enquanto escondem aquilo que nos torna semelhantes. A filosofia intercontinental, ou ‘peninsular’, cria passagens para que a alteridade possa fazer parte do Mesmo, sem que o Mesmo se torne uma alteridade imposta.

Os jovens vindos do Sul sabem muito bem como o Norte impôs a sua alteridade durante as colonizações, suprimindo o Mesmo das culturas pré-coloniais ao impor a ‘modernidade do Iluminismo’ contra a pretensa ‘obscuridade das tradições primitivas’.

Mais algumas palavras sobre os textos:

Herman Lodewyckx, Ostende, abril de 2026

p.s. : Em português, cabe a referência ao livro Tcholonadur: entrevistas sobre filosofia africana. (São Carlos: Pedro & João Editores, 2024.) , editado por Marcos Carvalho Lopes, como o nome sugere, reune entrevistas com diversos pesquisadores de filoosgfia africana.

Professor de Filosofia Africana, FVG, Antuerpia

Centre International de Philosophie et des Religions Africaines (CIPERA)

International Center of African Philosophy and Religions (ICAPaR)

Internationaal Centrum voor Afrikaanse Filosofie en Religies (ICAFER)

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