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O RISCO DE FALAR, O PERIGO DE CALAR

Há momentos em que falar expõe quem fala e calar compromete quem se cala

Severino Ngoenha
3 de agosto de 2026

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Sempre que a noite cai sobre as nossas perplexidades e o solo sob os nossos pés parece esboroar-se, assalta-me a tentação do recolhimento. É um desejo humano de fuga para a comodidade do silêncio, de me fechar no meu ângulo e de me retirar da aspereza da praça pública contemporânea. Alguns filósofos, como Søren Kierkegaard, debruçaram-se sobre a “angústia” como esse abismo que se abre diante da nossa liberdade. Hoje, compreendo e sinto essa angústia na própria carne. É o dilema de falar sem se fazer ouvir, de ver cada palavra ser interpretada por grelhas alheias e opostas – ora reduzida a uma utopia inócua, ora a uma poesia sem substância ou a uma inércia fútil -, ou calar-me. Mas ficar calado, sei-o hoje com mais nitidez do que ontem, é uma abdicação ética. O silêncio, quando o chão comum se fractura , não é prudência; é a aceitação tácita da ruína.

Samora Machel Discurso

Neste descampado de ruídos e incompreensões, onde a palavra parece ter perdido a sua gravidade e o privilégio do diálogo foi substituído pelas trincheiras das opiniões absolutas, impõe-se a interrogação clássica do filósofo beninense Paulin Hountondji: “Que peut la philosophie?” (O que pode a filosofia?).

A resposta de Hountondji é despojada de messianismos ou de soberba institucional: a filosofia não pode substituir os camponeses que lavram a savana, não pode substituir os médicos que curam os enfermos, não pode substituir os professores nas salas de aula ou os governantes nos seus postos de decisão. Ela não tem o poder material de decretar leis ou de estancar a miséria com uma canetada. Nos meus limites físicos, eu não possuo soluções mágicas. A filosofia possui apenas a palavra. No entanto, essa palavra não é inércia; ela é, nas suas consequências, ação. A palavra filosófica é o resultado de uma dor, de um sofrimento partilhado e de uma reflexão que se recusa a aceitar que a realidade presente seja o fim definitivo da nossa história. Ela é, na sua essência, uma forma de luta.

A vocação da filosofia – e a vocação a que me agarro nos meus limites – é a árdua tarefa de restabelecer conexões, de forçar a razoabilidade onde o desespero e a cobiça querem fazer reinar o caos. Sentar-nos todos num solo comum, suficientemente sólido para acolher as nossas profundas diferenças sem nos dilacerarmos, tornou-se a nossa maior urgência histórica.

Severino Ngoenha durante uma intervenção pública no Museu Mafalala.

O meu apelo não nasce do conforto ou do desejo de dar lições morais; nasce da angústia de observar Moçambique a resvalar para a resignação. Trata-se da resignação daqueles que, perante a fragilidade do país, começam a duvidar da viabilidade do nosso projecto de nação. Essa capitulação assume hoje três roupagens perigosas: a miragem de fugir de Moçambique em busca de passagens individuais fora da nossa terra, o abraço ao tribalismo divisionista e a tentação de aceitar a fragmentação territorial como um destino inevitável.

É preciso dizer com extrema lucidez e sem agressividade: a fragmentação não é uma alternativa histórica viável. Quanto mais nos dividirmos, mais pequenos e fracos seremos perante as garras dos grandes monopólios internacionais e dos interesses financeiros estrangeiros que cobiçam o nosso subsolo. A divisão não salvará o sul, nem o centro, nem o norte; apenas nos transformará em pedaços deglutíveis e inertes perante o império do dinheiro. A nossa verdadeira luta não é dos moçambicanos uns contra os outros. A nossa verdadeira luta é contra a exclusão, contra a pobreza que nos desumaniza e contra a futilidade da nossa própria fragmentação.

Este apelo à razoabilidade e ao retorno à razão dirige-se, com toda a urgência do momento, àqueles que governam, àqueles que detêm o poder de decisão e que parecem ter esquecido as razões pelas quais Moçambique foi sonhado, pensado e construído na Machava. Dirige-se àqueles que protegeram interesses particulares, que assinaram contratos à revelia das suas populações e que, no limite, alimentaram o próprio tribalismo para se perpetuarem no palácio.

Schomburg Center for Research in Black Culture, Art and Artifacts Division, The New York Public Library. "Aspects of Negro Life" The New York Public Library Digital Collections. 1934. https://digitalcollections.nypl.org/items/634ad849-7832-309e-e040-e00a180639bb

Photo by The New York Public Library on Unsplash

A história da África contemporânea é um cemitério de elites cegas que acumularam riquezas descomunais em cofres privados, julgando-se seguras por trás dos seus muros. Na hora da verdade, os donos do dinheiro ficaram com o dinheiro, as ditaduras caíram, as fortunas foram confiscadas e os acumuladores terminaram na mais profunda miséria e irrelevância histórica. A heroicidade de um povo e a preservação das elites não se fazem pela acumulação selvagem de recursos. Fazem-se pela capacidade de construir uma comunidade una e viável. Nenhuma satisfação pessoal, nenhum estatuto, nenhuma vaidade de palácio pode manter-se perante o escândalo ético de termos milhões de moçambicanos a morrer de fome.

A grandeza de uma civilização não reside nas batalhas que venceu ou nas fortunas que escondeu, mas sim na sua capacidade de encontrar a razoabilidade nos momentos de maior escuridão. Outros povos passaram por tragédias muito mais profundas na história do mundo e conseguiram reerguer-se porque os seus membros souberam e tiveram a coragem de sacrificar as suas diferenças imediatas em favor de um estatuto maior e de um projecto comum de futuro.

Continuarei a falar e a interrogar, não para recolher aplausos ou para clamar por méritos, mas porque o pensamento é a minha única arma disponível neste território que é a nossa casa comum.

A palavra que lançamos à praça não se perde no vazio.

Ela é uma semente deitada à terra fria e escura; uma semente que, mesmo sob a agressividade das tempestades, exige ser regada para que os frutos da justiça e da dignidade possam crescer.

Continuar a pensar é recusar a resignação.

Erguer esta palavra, com toda a angústia de quem sofre com o seu país, continua a ser o meu modo de lutar por Moçambique.

Marcos Carvalho Lopes

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