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PARA QUE FILOSOFIA IX: A filosofia e seus paradoxos

Se eliminássemos os paradoxos, eliminaríamos, também, a filosofia

Gonçalo Armijos Palácios

No texto que tenho discutido nos últimos artigos,1 Bochenski se pergunta “o que é propriamente a filosofia”, e responde: “Essa é, infelizmente, uma das questões filosóficas mais emaranhadas. Poucas palavras conheço que têm tantas acepções como a palavra ‘filosofia’.” (p. 21) A verdade é que, mesmo se quiséssemos pedir ajuda aos grandes filósofos, não conseguiríamos resolver o problema satisfatoriamente. Isto é, não iríamos achar uma definição, ou concepção, com a que todos eles concordassem. Pode parecer estranho, mas o que define ou caracteriza a filosofia é uma determinada circunstância, não uma definição como aquelas que se exige nas matemáticas ou nas ciências naturais. Não há unanimidade sobre o que seja a filosofia nem nos próprios filósofos. Aliás, o que ali encontramos são concepções e definições as mais díspares. Bochenski conta que numa ocasião se viu na seguinte situação: “Há poucas semanas assisti na França a um encontro de pensadores influentes tanto da Europa como da América. Todos falavam de filosofia, mas entendiam coisas totalmente diferentes.” (p. 22) Poderíamos pensar que só um desses filósofos tinha a razão, ele e os que concordavam com ele ou, então, ninguém. Mas, no último caso, como é que ninguém poderia ter razão e serem, todos eles, filósofos!? Pois se um filósofo define a filosofia de uma maneira diferente e oposta à de outros, estes não poderiam ser chamados, por ele, de filósofos! (Pois não fariam filosofia como ela supostamente deveria ser feita.) Neste paradoxo vai incorrer o próprio Bochenski, como vamos ver.

No texto, nosso autor passa a analisar algumas concepções de filosofia e começa por uma atribuída a Bertrand Russell e “muitos filósofos positivistas”. Segundo essa concepção, “filosofia é um conceito coletivo para tudo o que ainda não pôde ser pesquisado e investigado cientificamente”. Noutras palavras, filosofia seria “a tentativa de dar soluções a problemas que ainda não estão maduros para serem resolvidos pela ciência”. Bochenski discorda dessa concepção porque a interpreta como mantendo que a filosofia seria meramente um estágio de conhecimento anterior ao científico, que seria definitivo. Esta concepção a chama de ‘positivista’ porque os problemas filosóficos seriam, em última instância, problemas que só a ciência, depois, num estágio superior, estaria em condições de resolver.

Bochenski discorda dessa concepção por ver alguns problemas. Um deles é o fato de hoje haver mais reflexão filosófica do que antigamente. Para Bochenski, se Russell e os positivistas tivessem razão, a filosofia iria se definhando à medida que a ciência se fosse consolidando e progredindo. Mas o que vemos hoje — e Bochenski tem razão — é que há mais filosofia do que antes. É óbvio que as ciências têm se multiplicado, progredido, se aprofundado e aumentado seus campos de pesquisa. Mas isso não foi acompanhado de um definhar da filosofia. Pelo contrário, ela viu alargado o número de seus problemas e preocupações. Essa constatação é fácil de ser feita e já insisti várias vezes sobre isso. Bochenski tem razão, portanto, nesta objeção:

“Mas, se olharmos a coisa de mais perto, começam a surgir graves dúvidas. Porque, se as coisas fossem como imaginam esses filósofos, teríamos hoje em dia menos filosofia que há mil anos. Mas, não é esse o caso. Não só não há hoje menos filosofia que há mil anos atrás, mas, ao contrário, muito mais. E penso não só no número dos pensadores — que podem atingir hoje os dez mil — como, sobretudo, no número dos problemas abordados. Ao se comparar a filosofia dos antigos gregos com a nossa, constata-se imediatamente que no século vinte depois de Cristo ventilamos muito mais questões do que os gregos podiam imaginar.” (pp. 22-3)

Concordo plenamente com a crítica de Bochenski. Pois é fácil ver que a filosofia viu, ao longo dos séculos, ampliado o número de seus problemas e multiplicado suas áreas de estudo. E é verdade que há preocupações que nós temos e que pensadores de outras épocas, não só os gregos, jamais poderiam ter imaginado.

Mas tudo isso nos mostra algo notável. Se a filosofia existiu numa época em que as preocupações eram outras, ou, então, se nós temos questões que aos gregos não poderiam ter ocorrido, a filosofia, obviamente, não é definida pelo tipo de preocupações e problemas que devam ser enfrentados e que a filosofia efetivamente discutiu. Não há, portanto, uma relação de determinação entre o tipo de problemas teóricos que queremos resolver e um suposto caráter filosófico essencial de alguns deles. Isso porque, na verdade, não existem objetos filosóficos privilegiados ou, posto de outra forma, a filosofia não tem objetos próprios, específicos, claramente definíveis. Nem objetos próprios, nem problemas relacionados com esses objetos. O que deixa em aberto a pergunta ‘que é a filosofia’, ou, ‘o que a define, se ela não é definida nem por objetos nem problemas próprios’. Isso já respondi noutras oportunidades e responderei, mais uma vez, no próximo artigo. De qualquer forma, perceba-se que surgem paradoxos. Um deles é este: por que, mesmo discordando da definição de filosofia fornecida por Russell e os positivistas, Bochenski os continua chamando de ‘filósofos’? Como pode alguém errar enquanto à definição ou concepção de filosofia e, apesar disso, ser tratado de filósofo por quem tem uma outra concepção de filosofia? Não é isto curioso, sugestivo, paradoxal? Para ser coerente com o que acabo de dizer, e contrariando um grande filósofo, Wittgenstein, afirmo: se não fosse pelos paradoxos, talvez não existisse filosofia.

1 Diretrizes do pensamento filosófico. Trad. de Alfred Simon, 6. ed. São Paulo, EPU, 1977.

Gonçalo Armijos Palácios
José Gonzalo Armijos Palácios possui graduação e doutorado em Filosofia pela Pontificia Universidad Católica Del Ecuador (1978 e 1982, respectivamente) e doutorado em Filosofia pela Indiana University (1989). Realizaou estudos de pós-doutorado na Indiana University em 1996 e 1997. Desde1992 é professor titular da Universidade Federal de Goiás. Tem experiência na área de Filosofia, atuando principalmente nos seguintes temas: filosofia, metafilosofia, filosofia política e ensino de filosofia. Participou do Grupo de Sustentação para a criação do GT Filosofar e Ensinar a Filosofar, em 2006, do qual foi seu primeiro coordenador eleito. Foi o fundador do Curso de Pós-Graduação em Filosofia da UFG (1983), da revista Philósophos (1986), do Curso de Graduação em Filosofia da cidade de Goiás da UFG, em 2008, e participou da criação do Campus Cidade de Goiás da UFG em 2009.
 
publicado originalmente na Coluna Ideias do Jornal Opção em 2005

Marcos Carvalho Lopes

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