0

PARA QUE FILOSOFIA VI: Os novos espaços para filosofar

Quem aguarda pelo momento ou pelo espaço privilegiado para filosofar, não vai filosofar nunca

Gonçalo Armijos Palácios


Neste artigo vou continuar as reflexões que comecei na semana passada sobre a relação entre os meios de comunicação e a filosofia. Uma questão que parece surgir é esta: devem ou não os meios de comunicação ter um espaço (um programa, uma seção) em que se tratem problemas ou assuntos filosóficos? Talvez devêssemos responder com uma pergunta admirativa: e por que não?!

Na verdade, duvidar da conveniência ou da utilidade de termos programas de filosofia na rádio, na televisão, ou colunas nos jornais impressos, seja conseqüência de um preconceito: o de que a linguagem da filosofia é confusa demais ou o de que a própria filosofia é inacessível ao comum dos mortais — o que, por sua vez, esconde a idéia falsa de que filosofia é coisa de gênios, inspirados, iluminados pelo destino ou, quiçá, por Deus. Desse preconceito são responsáveis os próprios “filósofos” acadêmicos — que, na verdade, não são nem filósofos nem acadêmicos no sentido próprio.

Assistir um programa de filosofia, no rádio ou na televisão, exige, naturalmente, certo grau de concentração. Mas há filmes que não só exigem atenção dos que os assistem como uma boa formação e capacidade intelectual. O mesmo poder-se-ia dizer de programas de rádio ou televisão que discutissem economia ou música erudita. Já assisti a programas de economia, tanto no exterior como no Brasil, que os descreveria como excelentes. E, apesar de os assuntos tratados não terem sido banais, a ninguém pareceu loucura pô-los no ar. O fato de os programas terem continuado a ser exibidos mostra que tinham audiência. Não vejo por que deva ser diferente com a filosofia. Talvez porque a economia não está rodeada desse halo de misticismo com que os pseudofilósofos apresentam a filosofia.

De qualquer modo, confesso que fiquei surpreso, muitos anos atrás, ao ver numa obra filosófica, um livro de filosofia da ciência, dois capítulos que tinham, originalmente, sido apresentados em emissoras de rádio na Europa. Refiro-me a Conjecturas e Refutações, de um dos maiores filósofos da ciência contemporâneos: Karl Popper. Os assuntos tratados nesses programas, devo esclarecer, não só não eram questões gerais como discutiam problemas difíceis e que exigiriam de qualquer platéia muita concentração. Ficaria igualmente surpreso se, viajando pelo interior de qualquer país pouco desenvolvido, encontrasse numa aldeia atrasada e isolada uma emissora de rádio que transmitisse um programa de música erudita que fosse assiduamente ouvido pelos membros dessa comunidade. O que digo não é fruto de preconceito. É, simplesmente, o que a experiência mostra: o gosto pela música erudita restringe-se a pequenos grupos ou a comunidades com certo grau de sofisticação cultural.

Chegamos, assim, ao ponto central: assim como ocorre com a música erudita, há fatores culturais que incentivam, ou reprimem, tanto a reflexão filosófica como a difusão de idéias filosóficas. Certamente, num país com um alto índice de analfabetismo, de analfabetismo funcional e desemprego resultaria estranho pensar na conveniência — ou no sucesso — de um programa de filosofia, seja de rádio ou de televisão. Um povo com fome não tem tempo para idéias.

Mas, quando os povos, ou dentro deles certas comunidades, alcançam um desenvolvimento econômico e social determinado, é possível que se criem com isso as condições necessárias para que seus membros se dediquem, com afinco, a certas atividades espirituais e intelectuais, como as artes, a literatura e a filosofia. Parece, com efeito, ser uma constante na história: os povos que resolvem suas necessidades primárias põem, ao mesmo tempo, as condições para o florescimento da cultura.

O Brasil dá uma oportunidade para apreciarmos isso. As regiões que tiveram nos últimos quinze anos um desenvolvimento mais acelerado, e sustentado, dão mostras, qualitativas e quantitativas, de avanço notável na área da educação e da cultura — precisamente pelo apoio e incentivo dado nessas regiões à educação e a projetos culturais. O estado de Goiás é uma prova disso. Posso dizer, sem temor a exagerar, que o Goiás que conheci pela primeira vez em 1983, se comparado ao de hoje, parece outro. Nos últimos quinze anos como professor universitário tenho visto uma verdadeira transformação no perfil do estudante que chega do ensino médio. Em termos de preparação, os estudantes que recebi nos últimos cinco anos se destacam, e surpreendem, pela solidez e qualidade de sua formação. A diferença, gritante há quinze anos, entre o estudante que vem da escola pública e a escola privada tende agora a desaparecer.

Em síntese, o desenvolvimento econômico e social de um povo, quando acompanhado de incentivo à educação e à cultura, põe as bases para que seus membros possam realizar seus anseios culturais, intelectuais e espirituais, e o façam, nas suas várias manifestações, nas artes, nas letras e na filosofia. Cria-se, assim, um público para a reflexão, para as artes e as letras. Um público com necessidade de reflexão filosófica (de reflexão mais sofisticada, isto é), assim como um público para o teatro, para a literatura e para a música erudita. Pessoalmente, é o que eu mesmo tenho visto com esta coluna de reflexão e idéias filosóficas nos últimos sete anos, e o que me levou a criar um programa de filosofia na Rádio Universitária. Quem quer fazer filosofia tem vários espaços abertos para isso. E, certamente, o jornal, a rádio e a televisão podem ser espaços privilegiados para isso. Não há momento adequado, motivo ou lugar para filosofar. Todo momento, todo lugar e todo motivo é uma oportunidade para filosofar para aquele que quer e tem condições para fazê-lo.

GONÇALO ARMIJOS PALÁCIOS, filósofo e professor da UFG, é articulista do Jornal Opção.

Marcos Carvalho Lopes

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *