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Quando lutar se transforma em amar Moçambique

Pensar Moçambique a partir da Ilha: a filosofia como oficina do comum

ensaio de Severino Ngoenha
23 de agosto de 2026

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Os Ateliers Filosóficos nasceram há mais de uma década a partir de uma convicção muito simples: a filosofia não pode permanecer confinada às universidades. A sua vocação originária não era a sala de aula, mas a praça; não era o discurso especializado, mas a interrogação partilhada; não era a transmissão vertical do conhecimento, mas a construção colectiva da palavra.

A própria palavra atelier, que utilizamos para designar estes encontros, remete para a ideia de oficina. Uma oficina é um lugar onde se trabalham os materiais, onde se reparam os objectos e onde se constroem novas possibilidades. Talvez seja precisamente essa a função da filosofia no nosso tempo: tornar-se uma oficina do pensamento, um espaço onde os cidadãos possam diagnosticar os problemas da sociedade e procurar, em conjunto, os caminhos capazes de os ultrapassar.

Depois de termos dedicado um ano inteiro à democracia e outro à reconciliação nacional, escolhemos, em 2026, um tema que nos parecia inevitável: Lutar por Moçambique Hoje.

A inspiração veio, naturalmente, do livro de Eduardo Mondlane. Mas a pergunta que hoje nos colocamos já não é a mesma da geração da independência. Naquele tempo, o adversário era claramente identificável. O colonialismo possuía uma expressão política, económica e militar concreta. Hoje, os desafios são mais complexos. A pobreza, as desigualdades, o desemprego, a fragilidade das instituições, a crise da educação, a centralização do poder e a fragmentação do tecido social não podem ser reduzidos a uma única causa nem combatidos através das mesmas categorias do passado.

Foi com esta inquietação que o Atelier chegou à Ilha de Moçambique.

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E a escolha da Ilha não foi um acaso.

A Ilha é um dos lugares fundadores da nossa história. Foi durante séculos um espaço de circulação entre África, o mundo árabe, a Índia e a Europa. As suas ruas, os seus edifícios, as suas mesquitas, as suas igrejas e as suas memórias testemunham a existência de um território construído através do encontro entre diferentes tradições.

Pensar Moçambique a partir da Ilha significava reconhecer uma evidência que, muitas vezes, esquecemos: um país não se constrói apenas a partir dos seus centros administrativos. Constrói-se a partir da pluralidade das suas experiências, das suas periferias, das suas margens e das suas diferentes formas de estar no mundo.

Participaram no encontro a artista e investigadora Yara Pereira, o professor universitário Wilson Nicaquela e o politologo Arsénio Cuco. Três intervenções diferentes, três sensibilidades distintas e uma mesma preocupação: como reconstruir os fundamentos de uma comunidade política capaz de voltar a pensar-se como um projecto colectivo ?

As vozes da Ilha: escutar, educar e descentralizar

Foi Yara Pereira quem introduziu a reflexão mais original do encontro.

“O meu trabalho não procura respostas. Procura perguntas. E essas perguntas devem conduzir-nos a outras perguntas.”

A partir da sua experiência no cinema documental e na investigação artística, explicou que a arte não procura encerrar o pensamento, mas abri-lo. O seu papel não é oferecer soluções imediatas, mas revelar dimensões da realidade que permanecem invisíveis aos discursos dominantes.

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Foi também ela quem formulou aquela que talvez tenha sido a frase mais importante de todo o encontro:

“Nós sofremos da síndrome de não nos escutarmos.”

Não nos escutamos entre gerações.

Não nos escutamos entre regiões.

Não nos escutamos entre o campo e a cidade.

Não nos escutamos entre os que governam e os que são governados.

Não nos escutamos sequer enquanto sociedade.

Mas a artista foi ainda mais longe.

Ao recordar uma pergunta feita pela sua filha, colocou em causa a própria linguagem que utilizamos para pensar o país:

“Lutar não significa magoar alguém?”

Talvez a pergunta de uma criança tenha conseguido fazer aquilo que os discursos políticos raramente conseguem: obrigar-nos a repensar os próprios conceitos através dos quais interpretamos a realidade.

Wilson Nicaquela conduziu a reflexão para o domínio da educação.

“Por que razão vamos para a universidade?”

A pergunta era simples, mas a crítica era profunda.

Ilha de Mocambique

Nunca tivemos tantas universidades. Nunca tivemos tantos estudantes. Nunca tivemos tantos licenciados. E, no entanto, continuamos a interrogar-nos sobre a qualidade da formação e sobre a capacidade das instituições de ensino para responderem aos problemas concretos do país.

“Vamos à universidade para obter um diploma ou para transformar as nossas comunidades?”

A questão não era apenas pedagógica. Era política.

Que tipo de cidadão estamos a formar?

Que tipo de conhecimento estamos a produzir?

Que responsabilidade têm as universidades perante a sociedade que as financia e as legitima?

Arsénio Cuco retomou a discussão a partir da democracia e da descentralização.

“Temos de descentralizar o poder, as oportunidades e as decisões.”

Mas a sua proposta ultrapassava a simples redistribuição administrativa.

A descentralização não é apenas uma técnica de governação.

É uma filosofia política.

Significa reconhecer que nenhuma comunidade pode construir o seu futuro se a palavra continuar concentrada nas mãos de poucos.

Amar Moçambique: construir o país que ainda está a nascer

Ao terminar o encontro, compreendi que as três intervenções convergiam numa mesma direção.

O grande problema de Moçambique talvez não seja apenas económico.

Talvez seja, antes de tudo, um problema de escuta.

Durante demasiado tempo, habituámo-nos a acreditar que as soluções viriam de fora. Depositámos demasiadas expectativas na ajuda internacional, nos programas de ajustamento, nas instituições financeiras, nos doadores e nas receitas importadas.

Mas nenhum país se constrói por procuração.

Nem o FMI.

Nem o Banco Mundial.

Nem os parceiros internacionais.

Nem o Estado.

A responsabilidade pela construção do futuro não pode ser delegada.

Ela pertence, antes de tudo, aos próprios cidadãos.

Foi precisamente esta ideia que Yara Pereira procurou traduzir quando falou da necessidade de pensarmos modelos mais enraizados na nossa própria realidade, mais atentos às nossas experiências e mais próximos das nossas comunidades.

A questão central é, portanto, saber se seremos capazes de criar instituições de escuta.

Não uma escuta meramente formal, destinada a legitimar decisões já tomadas, mas uma verdadeira arquitetura do diálogo.

Jean-Godefroy Bidima recordava, em La Palabre (1997), que a palavra, nas tradições africanas, não é apenas um instrumento de comunicação. É um espaço de mediação, de reconhecimento e de construção do consenso.

Kwasi Wiredu insistia na necessidade de recuperar formas africanas de deliberação capazes de ultrapassar a lógica da simples imposição da maioria.

Talvez seja precisamente esse o desafio que temos diante de nós: transformar a democracia numa prática permanente de construção do consenso.

José Craveirinha dizia pertencer a um país que ainda não existia.

Hoje, cinquenta anos depois da independência, talvez possamos afirmar que o país existe, mas ainda está no início da sua construção.

A nação não é um acontecimento concluído.

É uma tarefa.

Ernst Bloch lembrava-nos que a esperança não é uma forma de espera passiva. A esperança é uma categoria da ação. Ela não consiste em esperar que o futuro aconteça. Consiste em participar na sua construção.

É por isso que a proposta surgida na Ilha de Moçambique me parece tão poderosa.

Talvez tenha chegado o momento de substituirmos a linguagem da luta pela linguagem do amor.

Não porque os conflitos tenham desaparecido.

Não porque os problemas tenham sido resolvidos.

Mas porque o amor, entendido como responsabilidade colectiva , permite imaginar uma comunidade onde ninguém seja excluído da construção do futuro.

Amar Moçambique significa recusar a indiferença.

Significa reivindicar o direito de ser escutado.

Significa aceitar a responsabilidade de participar.

Significa compreender que o país não pertence ao governo, aos partidos, às elites económicas ou às organizações internacionais.

O país pertence aos seus cidadãos.

E talvez o verdadeiro significado de amar Moçambique seja este: participar, com os outros e não contra os outros, na construção de um país que continua, todos os dias, a procurar a sua forma definitiva.

Marcos Carvalho Lopes

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