O Filosofia Pop publica esta tradução do capítulo VIII de The Social Principles of Jesus (1916), de Walter Rauschenbusch, um dos principais nomes do Evangelho Social. Partindo das parábolas e dos ensinamentos de Jesus, o autor recusa tratar a propriedade privada como um direito absoluto: ela pode favorecer a liberdade e a formação pessoal, mas também alimentar o egoísmo, a exploração e a divisão entre as classes. Num tempo em que o cristianismo é frequentemente associado à defesa da riqueza e dos privilégios, Rauschenbusch recupera uma pergunta incômoda e ainda atual: a propriedade está a serviço da vida comum ou o bem comum foi colocado a serviço da propriedade?

Capítulo VIII. A propriedade privada e o bem comum
A propriedade privada deve servir ao bem-estar social
Um olhar sobre a história ou uma simples familiaridade com a vida humana em qualquer comunidade nos mostrará que a propriedade privada é, ao mesmo tempo, uma expressão necessária da personalidade e um estímulo à formação do caráter e, por outro lado, um dos principais canais de expressão e uma das fortalezas do egoísmo. Todo esforço reformador deve visar conservar e difundir as bênçãos da propriedade, e cada passo em direção a uma ordem social melhor será bloqueado com tenacidade por seus beneficiários egoístas.
Quais eram as convicções de Jesus sobre a propriedade privada?
Leituras diárias
Primeiro dia: o interesse rival
E falou-lhes muitas coisas por parábolas, dizendo: Eis que o semeador saiu a semear; e, quando semeava, uma parte das sementes caiu à beira do caminho, e vieram as aves e a comeram. Outra parte caiu em lugares pedregosos, onde não havia muita terra; e logo brotou, porque a terra não era profunda; mas, quando o sol nasceu, queimou-se; e, porque não tinha raiz, secou. Outra caiu entre os espinhos, e os espinhos cresceram e a sufocaram. Outra caiu em boa terra e deu fruto, alguns cem por um, outros sessenta, outros trinta… Quando alguém ouve a palavra do reino e não a entende, vem o Maligno e arrebata o que foi semeado em seu coração. Este é o que foi semeado à beira do caminho. O que foi semeado em lugares pedregosos é o que ouve a palavra e logo a recebe com alegria; mas não tem raiz em si mesmo, e dura apenas por um tempo; e, quando surge tribulação ou perseguição por causa da palavra, logo tropeça. O que foi semeado entre os espinhos é o que ouve a palavra; mas as preocupações do mundo e a sedução das riquezas sufocam a palavra, e ele se torna infrutífero. O que foi semeado em boa terra é o que ouve a palavra e a entende; este verdadeiramente dá fruto e produz, alguns cem por um, outros sessenta, outros trinta. — Mt 13,3–8.19–23.
Essa parábola pretendia explicar aos discípulos por que o Reino não irrompia com a rapidez que esperavam. A história incorpora as experiências concretas de Jesus em sua pregação. Ele via sua obra como uma repetição, em plano superior, do trabalho do semeador. O sucesso de ambos depende da receptividade do solo. O semeador encontra terra endurecida pelo pisoteio, trechos pedregosos e pontos onde espinhos resistentes ou cardos drenam o solo e onde seu trabalho produz apenas espigas vazias e tentativas frustradas. Assim Jesus encontrou o conservador obstinado e também o tipo emocional. Sua maior dificuldade, porém, estava nas mentes absorvidas pelas preocupações com os bens, ou atraídas pelas ilusões da riqueza. Ele descobriu desde cedo, então, que a devoção à propriedade tende a ser rival dos interesses superiores e do bem comum.
Como se alinham os grupos sociais modernos quando medidos pela receptividade espiritual?
Segundo dia: o acumulador
E um da multidão disse-lhe: Mestre, dize a meu irmão que reparta comigo a herança. Mas ele lhe disse: Homem, quem me constituiu juiz ou repartidor entre vós? E disse-lhes: Acautelai-vos e guardai-vos de toda cobiça; porque a vida de um homem não consiste na abundância dos bens que possui. E contou-lhes uma parábola, dizendo: A terra de certo homem rico produziu muito. E ele pensava consigo mesmo, dizendo: Que farei, pois não tenho onde recolher os meus frutos? E disse: Farei isto: derrubarei os meus celeiros e construirei maiores, e neles recolherei todo o meu grão e os meus bens. E direi à minha alma: Alma, tens muitos bens acumulados para muitos anos; repousa, come, bebe, alegra-te. Mas Deus lhe disse: Insensato, esta noite te pedirão a tua alma; e o que preparaste, de quem será? Assim é aquele que ajunta tesouros para si mesmo e não é rico para com Deus. — Lc 12,13–21.
A maioria dos homens hoje não teria nada a censurar nesse homem. Ele apenas fazia o que o mundo moderno, unanimemente, tenta fazer. Tendo feito um montão, propôs-se a fazer um montão maior. Enquanto isso, dava tapinhas nas costas da própria alma e lambia os beiços, antegozando o prazer. Para Jesus, o fazendeiro gordo era uma trágica comédia. Em primeiro lugar, uma mão invisível esperava para apagar sua vela. Planejar a vida como se ela consistisse na abundância de riqueza material é algo como um erro de cálculo num mundo onde a morte faz parte do esquema das coisas. Em segundo lugar, Jesus não via nenhum propósito superior no objetivo e na perspectiva daquele homem que redimisse sua ganância. O homem não passava de um esquilo sublimado, exultando diante de alqueires de nozes. Se a riqueza é guardada para criar e educar filhos, ou para realizar algum bem social, merece respeito moral ou admiração. Mas se o instinto aquisitivo não tem sensibilidade social nem visão, e está centrado em si mesmo, não merece respeito, ao menos não de Jesus.
A aquisição ilimitada costumava ser considerada imoral e desonrosa. Como e quando a opinião pública mudou a esse respeito?
Terceiro dia: parem com a corrupção
E as multidões lhe perguntavam, dizendo: Que faremos então? E ele respondia e lhes dizia: Quem tem duas túnicas reparta com quem não tem nenhuma; e quem tem alimento faça o mesmo. Vieram também publicanos para ser batizados e lhe disseram: Mestre, que faremos? E ele lhes disse: Não exijais mais do que o que vos está determinado. E soldados também lhe perguntaram, dizendo: E nós, que faremos? E ele lhes disse: Não extorquais de ninguém por violência, nem acuseis ninguém falsamente; e contentai-vos com o vosso salário. — Lc 3,10–14.
Os ensinamentos sociais de João Batista eram tão próximos dos de Jesus que podemos seguramente recorrer a eles nesta passagem.
João dizia ao povo que uma nova era estava chegando e que eles precisariam equipar-se para ela com uma nova mentalidade e um novo modo de vida. O povo pediu orientações concretas. As sugestões de João seguiam duas linhas. Ele encorajava os trabalhadores comuns a ser solidários e amistosos, e a partilhar com quem estava em dificuldade. Com indivíduos poderosos, como soldados mercenários e cobradores de impostos romanos, ele insistia que deviam parar de usar sua força física e seu poder legal como um meio garantido de extorquir dinheiro. Em outras palavras, deviam abandonar a corrupção.[^1] No Reino de Deus, o “grande livro negro da corrupção” será fechado, e ninguém mais devorará seus semelhantes enquanto estes protestam. Quanto mais percebermos que alguma forma de corrupção está na base da maioria das rendas fáceis, mais sentido veremos nessa forma de pregação.
Alguma vez fomos vítimas de extorsão? Como nos sentimos? Isso azedou em nós o leite da bondade humana?
Quarto dia: Deus versus Mamom
Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem consomem, e onde os ladrões arrombam e roubam; mas ajuntai para vós tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não arrombam nem roubam; porque onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração. A lâmpada do corpo é o olho: se, portanto, o teu olho for simples, todo o teu corpo será cheio de luz. Mas se o teu olho for mau, todo o teu corpo será cheio de trevas. Se, portanto, a luz que há em ti são trevas, quão grandes serão as trevas! Ninguém pode servir a dois senhores: pois ou odiará um e amará o outro, ou se apegará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom. — Mt 6,19–24.
A aquisição pode operar em diferentes planos. Um homem pode acumular coisas materiais, ou pode adquirir faculdades espirituais, memórias e relações. Numa vida equilibrada, as duas coisas caminham lado a lado em paz, e cada uma pode ajudar a outra. Mas a experiência de todos os mestres espirituais mostra que, na prática, a aquisição de propriedade frequentemente se torna uma paixão que absorve o homem e deixa pouca energia para as buscas superiores. A maioria dos homens que gastaram a vida para adquirir riqueza olha para trás com saudade de alguma aspiração idealista de sua juventude, como para um Éden perdido. Jesus sentia o antagonismo entre a riqueza privada e o Reino de Deus com tanta intensidade que opôs Deus a Mamom e advertiu-nos de que devemos escolher entre eles. Lida nesse contexto, a frase sobre o escurecimento da luz interior parece referir-se à influência da busca de dinheiro sobre a visão superior da alma.[^2] Toda essa passagem é fundamental e explicará outros ditos que se seguem.
Deus e o dinheiro entram em colisão frontal na vida universitária?
Quinto dia: a influência divisiva das riquezas
Ora, havia certo homem rico, que se vestia de púrpura e de linho fino e se banqueteava esplendidamente todos os dias. E certo mendigo, chamado Lázaro, jazia à sua porta, coberto de feridas, desejando ser alimentado com as migalhas que caíam da mesa do rico; e até os cães vinham lamber-lhe as feridas. Aconteceu que o mendigo morreu e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão; e o rico também morreu e foi sepultado. E no Hades, em tormentos, levantou os olhos e viu de longe Abraão, e Lázaro no seu seio. E clamou, dizendo: Pai Abraão, tem misericórdia de mim, e manda Lázaro que molhe a ponta do dedo em água e refresque a minha língua; porque estou em angústia nesta chama. Mas Abraão disse: Filho, lembra-te de que em tua vida recebeste os teus bens, e Lázaro, de igual modo, os males; mas agora ele é consolado, e tu estás em angústia. E, além de tudo isso, entre nós e vós está fixado um grande abismo, de modo que os que quisessem passar daqui para vós não poderiam, nem os de lá passar para nós. E ele disse: Rogo-te, portanto, pai, que o mandes à casa de meu pai; pois tenho cinco irmãos; que ele lhes dê testemunho, para que também não venham para este lugar de tormento. Mas Abraão disse: Eles têm Moisés e os profetas; ouçam-nos. E ele disse: Não, pai Abraão; mas se alguém dentre os mortos for ter com eles, se arrependerão. E ele lhe disse: Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco se deixarão persuadir, ainda que alguém ressuscite dos mortos. — Lc 16,19–31.
Por que Jesus manda o homem rico para o inferno como se fosse uma coisa óbvia? Nenhum crime ou vício é alegado. Deve ser que uma vida entregue ao luxo e indiferente à necessidade e à miséria de um semelhante à sua porta parecia a Jesus uma vida profundamente imoral e pecaminosa. Jesus empregou todas as suas energias para unir as pessoas pelo amor. Mas a riqueza divide. Cria relações apenas parcialmente humanas entre as classes sociais, de modo que uma pequena esmola parece ser uma quitação completa das obrigações para com os pobres, e a independência digna e a virtude dos pobres chegam a ser recebidas como afronta. O aguilhão dessa parábola está na referência aos cinco irmãos que ainda viviam como vivera o rico, e a quem ele tentava, em vão, enviar uma mensagem pelo telégrafo sem fio. Veja o versículo 14 como explicação.
É justo chamar de “relações apenas parcialmente humanas” as relações entre os ricos egoístas e os pobres dependentes?
Sexto dia: arranje uma tábua para o dilúvio
E disse também aos discípulos: Havia certo homem rico que tinha um administrador; e este foi acusado diante dele de estar desperdiçando os seus bens. E ele o chamou e lhe disse: Que é isso que ouço a teu respeito? Presta contas da tua administração, pois já não podes ser administrador. E o administrador disse consigo mesmo: Que farei, visto que o meu senhor me tira a administração? Não tenho força para cavar; de mendigar tenho vergonha. Já sei o que farei, para que, quando for demitido da administração, me recebam em suas casas. E, chamando cada um dos devedores do seu senhor, disse ao primeiro: Quanto deves ao meu senhor? E ele disse: Cem medidas de azeite. E ele lhe disse: Toma a tua conta, senta-te depressa e escreve cinquenta. Depois disse a outro: E tu, quanto deves? E ele disse: Cem medidas de trigo. Ele lhe disse: Toma a tua conta e escreve oitenta. E o senhor elogiou o administrador injusto porque agira com astúcia; pois os filhos deste mundo são, para com os da sua geração, mais astutos do que os filhos da luz. E eu vos digo: Fazei para vós amigos por meio do mamom da injustiça, para que, quando ele falhar, eles vos recebam nos tabernáculos eternos. — Lc 16,1–9.
Esta é uma das histórias mais espirituosas da Bíblia e deve ser lida com algum senso de humor. Os arrendatários de uma grande propriedade pagavam o arrendamento com uma parte da produção. Esse sistema elástico oferecia ao administrador a chance de ganhar algo por fora. Ele foi descoberto e demitido, mas, enquanto fechava suas contas, ainda tinha um breve período de autoridade. As coisas pareciam sombrias. Ele não queria criar bolhas nas mãos brancas manejando uma enxada, nem ferir seu orgulho de classe mendigando. Por isso armou uma última grande negociata, mas em escala tão ampla que os arrendatários ficariam permanentemente em dívida com ele. O patife era um vigarista, mas ao menos sabia pensar a longo prazo. Jesus desejava que os filhos da luz fossem tão capazes de olhar adiante quanto os filhos deste mundo. Se assim fosse, as pessoas se preparariam para a nova era — na qual Mamom perde seu poder de compra — usando agora a riqueza para fazer amigos; e esses amigos as receberiam como hóspedes depois da grande inversão.
O que você acha da desenvoltura bem-humorada de Jesus?
Sétimo dia: preso à própria riqueza
E certo governante lhe perguntou, dizendo: Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna? E Jesus lhe disse: Por que me chamas bom? Ninguém é bom, senão um, que é Deus. Tu conheces os mandamentos: Não cometerás adultério, Não matarás, Não furtarás, Não darás falso testemunho, Honra teu pai e tua mãe. E ele disse: Todas essas coisas tenho observado desde a minha juventude. E, ouvindo isso, Jesus lhe disse: Ainda te falta uma coisa: vende tudo o que tens, distribui aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, segue-me. Mas ele, ouvindo essas coisas, ficou profundamente triste; pois era muito rico. E Jesus, vendo-o, disse: Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas! Pois é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus. — Lc 18,18–25.
Um jovem admirável, de vida limpa e conscienciosa, mas com aspirações insatisfeitas na alma. Jesus o convida a um tipo mais heroico de excelência: desvencilhar-se de sua riqueza e dedicar-se ao apostolado do Reino de Deus. Era uma grande oportunidade para uma grande vida. Ele poderia ter dado testemunho de Deus diante de reis e multidões, e seu nome poderia ser lembrado ao lado dos de Pedro, João e Paulo. Ele não esteve à altura da oportunidade. O que o deteve? Jesus sentiu que era sua riqueza. Um homem pobre teria menos a deixar, e poderia ter abandonado tudo com alegria. Assim Jesus resume a situação psicológica na exclamação entristecida de que é extremamente difícil para um rico entrar no Reino onde os homens vivem em justiça, fraternidade e idealismo.
Você notou que, nos últimos anos, um número crescente de netos desse homem tem tentado romper essas amarras e encontrar a vida real, a vida eterna? Pode citar algum?
Estudo para a semana
Evidentemente, os perigos ligados à propriedade estavam muito presentes na mente de Jesus. Ele parece tê-los enfatizado com maior amplitude e frequência do que os males da licenciosidade ou da embriaguez. A Igreja moderna inverteu essa ênfase relativa. Por quê?
Naturalmente, não devemos procurar em seus ensinamentos os métodos ou pontos de vista da economia política. Sua preocupação era com a vitalidade e a solidez espiritual do indivíduo e com as relações humanas. Ele se interessava pela propriedade apenas na medida em que ela corrompia a natureza superior ou dificultava a fraternidade. Mas ninguém subestime a importância dessas considerações. Elas constituem o verdadeiro fim da vida; todo o resto é andaime. Estaríamos mais adiantados se as ciências econômicas e sociais tivessem mantido essas questões fundamentais mais rigorosamente no horizonte.
I
Claramente, Jesus sentia que o instinto aquisitivo, como o instinto sexual, rompe facilmente seus limites e se torna voraz; aliás, encontra ainda menos limites naturais. Ele absorve as energias do intelecto e da vontade. Como no caso do rico insensato, o horizonte da vida se enche de oportunidades para aumentar ainda mais o montante acumulado. A vida parece consistir em dinheiro e nos problemas do dinheiro.
As pessoas são valorizadas segundo esse padrão. Os casamentos são arranjados por causa dele. A política é conduzida por causa dele. As guerras começam por causa dele. Os impulsos criativos, artísticos e intelectuais são empurrados de lado, adormecem ou morrem de inanição. A propriedade destina-se a assegurar liberdade de ação e autodesenvolvimento; de fato, frequentemente acorrenta os homens e corta-lhes as asas. É isso que Jesus chama de “a sedução das riquezas” e “o escurecimento do olho interior”.
Além da deterioração do caráter, a riqueza exerce uma influência dessocializadora e divisiva. Separa grupos que deveriam estar juntos. O rico e Lázaro podem viver na frente e nos fundos do mesmo quarteirão, mas sem nenhum senso de solidariedade. O rico teria ficado profundamente comovido, talvez, se um de sua própria classe tivesse furado um pneu no deserto filisteu e passado dois dias sem qualquer alimento além de migalhas. A separação da humanidade em classes segundo critérios de riqueza é tão universal e tão ortodoxa que poucos de nós chegam a perceber que ela afronta todos os princípios do cristianismo e da humanidade.
No caso do jovem governante, Jesus deparou-se com o fato de que a riqueza impede as pessoas de entrar no mundo de seus ideais. A questão não era se o jovem podia chegar ao céu, mas se podia ter parte na vida real, no reino das relações justas. É difícil adquirir grande riqueza sem cometer injustiça contra outros; é difícil possuí-la e ainda tratar os outros com base na igualdade humana; é difícil dá-la mesmo sem causar dano.
Vimos que Jesus acreditava profundamente no valor e na dignidade da vida humana; que procurava criar solidariedade; que se preocupava principalmente com a salvação dos humildes; e que exigia uma vida heroica no serviço do Reino de Deus. Mas a riqueza, como ele a via, desrespeitava o valor da vida, dissolvia a solidariedade espiritual de classes inteiras e mantinha os de baixo em sua condição subalterna; os ricos haviam perdido a capacidade para uma vida heroica.
Este é um ensinamento radical. Que diremos dele? Jesus encontra apoio nos profetas do Antigo Testamento e no ensinamento mais espiritual do povo hebreu, que condenava a injustiça e as formas extorsivas de ganhar dinheiro com ainda mais energia do que Jesus. O cristianismo medieval aderiu sinceramente ao princípio de que a propriedade privada é um perigo para a alma e uma força que neutraliza o amor. Toda comunidade monástica procurou neutralizar os perigos ligados à sexualidade pelo celibato e os perigos da propriedade pela comunhão de bens. Isso constituía um enorme equívoco de interpretação do cristianismo, mas mostra que os homens levavam a sério os ensinamentos sobre os perigos da propriedade privada. O mundo cristão moderno não o faz. Ele deixou discretamente de lado as ideias de Jesus sobre esse assunto, vive sua vida sem muita influência delas, e se contenta em enfatizar outros aspectos.
O ensinamento de Jesus sobre a propriedade privada foi superado por uma melhor compreensão do valor social da propriedade? Ou seu ensinamento foi suprimido e submergido pela cobiça universal da vida moderna? “Nossos formadores de opinião moral atacam os maus hábitos pessoais, mas agem como se houvesse algo sagrado na busca do dinheiro; e, vendo que as principais iniquidades de nosso tempo estão ligadas ao enriquecimento, não entram na luta de modo algum. Os exploradores do trabalho infantil, os construtores de monopólios e os financistas desonestos nada têm a temer de homens cujo pensamento ainda se conforma aos moldes de seus avós. Vá às universidades financiadas por dinheiro manchado, e aprenderá que o álcool, e não a corrupção, é a ruína da nação” (Edward A. Ross, Sin and Society: An Analysis of Latter-day Iniquity, p. 97 — os itálicos são dele).
II
A máquina de fazer dinheiro que Jesus conhecia era simples, rudimentar e diminuta em comparação com o sistema complexo e disseminado que os magnatas da indústria moderna construíram. Provavelmente não havia um milionário em toda a Palestina. O que ele teria dito de nossas grandes cidades?
Precisamos de uma ética cristã da propriedade, talvez mais do que de qualquer outra coisa. As injustiças associadas à riqueza são o ponto mais vulnerável de nossa civilização. A menos que possamos endireitar esse lugar tortuoso, todas as nossas obras de caridade e nossa religião estarão envolvidas em hipocrisia.
Temos de harmonizar dois fatos: a riqueza é boa e necessária, mas também representa um perigo para quem a possui e para a sociedade. Por um lado, a propriedade é indispensável à liberdade pessoal, às formas mais elevadas de individualidade e à autorrealização; o direito à propriedade é um corolário do direito à vida; sem propriedade, as pessoas ficam à mercê da natureza e submetidas àqueles que a possuem. Por outro lado, a propriedade é usada como meio de extrair tributos e cobrar impostos privados; como um porrete para obter, à custa de trabalhadores e consumidores, ganhos não oriundos do próprio trabalho; e como instrumento fundamental de opressão.
Onde traçamos a linha? É verdade que a propriedade criada pelo trabalho produtivo é uma grande força moralizadora, e que a propriedade adquirida sem trabalho produtivo é a grande força desmoralizadora? É correto que a propriedade para uso é, no conjunto, boa, e que a propriedade como instrumento de poder é uma ameaça?
Qual é a relação entre propriedade e autodesenvolvimento? Em que ponto a propriedade se torna excessiva? Em que ponto o alimento se torna excessivo e venenoso? Em que ponto o fertilizante começa a matar uma planta? Algum valor social real se perderia se as rendas ficassem em média em 2.000 dólares e nenhuma excedesse 10.000?[^3]
Em que medida um propósito moral elimina os perigos da aquisição?
É moral alguma vida em que as capacidades naturais não sejam efetivamente mobilizadas para o trabalho produtivo? Se a riqueza de um homem está destinada a afastar seus descendentes do trabalho produtivo, é uma bênção? Qual é a diferença moral entre uma atividade extenuante e o trabalho produtivo? Que proporção de nosso tempo e energia pode ser dedicada à diversão e ao lazer sem enfraquecer nossa fibra moral?
Em que pontos a propriedade privada se torna antissocial? Se pudéssemos eliminar os elementos de monopólio e a capacidade de cobrar tributo, haveria muito perigo no restante?
A propriedade privada, quando assume as enormes concentrações atuais e controla a infraestrutura essencial da sociedade, ainda corresponde à concepção teórica fundamental da propriedade privada, ou bens e funções públicos passaram ao controle privado? “Muito do que costumamos ouvir chamar de legítima insistência nos direitos de propriedade, o Antigo Testamento pareceria considerar uma forma de roubar a Deus e esmagar o rosto dos pobres” (o Bispo de Oxford).
III
O espírito religioso sempre terá de exigir do indivíduo que vá além do que a lei pode obrigá-lo a fazer. Depois de eliminadas de nossos bens todas as parcelas injustas e maculadas, a religião põe as mãos sobre o restante e diz: “Você é apenas seu administrador.” Nas parábolas dos talentos, das minas e do administrador injusto, Jesus parte do pressuposto de que nossos recursos são bens confiados à nossa guarda, e não propriedade absoluta. Nós os administramos e controlamos, mas sempre sujeitos a prestar contas. Recebemo-los de Deus, cuja vontade detém o domínio supremo. Mas a vontade de Deus se identifica com o bem da humanidade. Quando mantemos bens sob nossa guarda em nome de Deus, nós os mantemos em benefício da humanidade, da qual fazemos parte. Traímos esse encargo se, por meio deles, privamos outras pessoas de saúde, liberdade, alegria, esperança ou capacidade — por exemplo, sobrecarregando os outros de trabalho e mantendo ociosos os próprios filhos.
Sugestões para reflexão e discussão
I. O amor ao dinheiro
- Defina a corrupção entendida nesse sentido. O que há de errado nela? Onde a vemos? Onde somos míopes a seu respeito?
- Por que Jesus tinha tanto a dizer sobre dinheiro e tão pouco sobre o álcool? Por que Paulo chama o amor ao dinheiro de “raiz de todos os males”?
II. A desconfiança de Jesus em relação à riqueza
- Por que razões Jesus temia a influência da riqueza e de sua acumulação?
- Resuma os ensinamentos de Jesus a respeito da riqueza.
- Em que aspectos sua atitude difere do ponto de vista comum do mundo moderno?
- Jesus era contrário à posse de ferramentas agrícolas ou de barcos de pesca? Onde ele traçaria a linha entre ganhos honestos e riqueza perigosa?
- Seu ensinamento sobre a riqueza era ascético? Era socialista?
- Em que medida devemos reconhecer sua intuição sobre essa questão como autoridade para nós?
III. O problema da riqueza no mundo moderno
- As principais iniquidades de nossa época estão localizadas na vida sexual, na política ou nos negócios?
- Distinga entre “propriedade para uso” e “propriedade como instrumento de poder”.
- Quais são os males morais criados pela pobreza em massa? Pela concentração da riqueza em famílias abastadas?
- Por que o mundo moderno deixou de lado os ensinamentos de Jesus sobre a riqueza? Em que medida substituímos isso por uma melhor compreensão do valor social da propriedade? Até que ponto devemos estar satisfeitos com nosso tratamento atual da questão da propriedade?
- Que métodos de ganhar dinheiro são condenados pelo consenso moral corrente na Igreja? Há algo que deveria ser incluído nessa condenação? Se sim, o quê?
IV. A atitude cristã diante da propriedade e da riqueza nas condições modernas
- Em que ponto o acúmulo de propriedade privada se torna contrário aos princípios de Jesus?
- Que direitos de propriedade legalizados são antagonistas aos princípios de Jesus?
- Como pode a sociedade acumular riqueza sem a injustiça e as divisões sociais que hoje acompanham o acúmulo de fortunas privadas?
- Se um homem tem uma renda proveniente de investimentos, tem ele o direito de viver uma vida de lazer? Quando é legítimo viver sem exercer trabalho produtivo?
- Quão rico tem um cristão o direito de ser? Numa sociedade cristã, qual deveria ser a renda mínima?
- A democracia econômica eliminaria ou reforçaria a doutrina da mordomia?
- Como podemos arrancar o aguilhão do pecado da propriedade privada?
V. Para discussão especial
- Os milionários são um sintoma de doença social ou um triunfo da civilização?
- A ciência social deveria levar em conta a influência da riqueza sobre o caráter pessoal?
- Que convicção moral se expressa na condenação da usura e do arrendamento extorsivo? O lucro excessivo deveria ser incluído?
- Como a indústria poderia ser financiada se não houvesse investidores ricos com grandes patrimônios acumulados?
- Quando um estudante universitário é um parasita?
- Se as comunidades universitárias tivessem menos dinheiro, formariam pessoas melhores?
- Como os sucessos das finanças predatórias afetaram a visão de mundo e a moralidade dos estudantes universitários?
Notas:
[^1]: **N. do T.:** No inglês norte-americano da época, *graft* designava a obtenção de vantagens indevidas mediante abuso de poder ou posição, podendo abranger corrupção, negociata e exploração.
[^2]: **N. do A.:** Ver o capítulo “The Tragedy of Dives” [“A tragédia do rico”], em Rauschenbusch, *Christianizing the Social Order*, p. 291.
[^3]: **N. do T.:** Valores nominais em dólares dos Estados Unidos, em 1916.
Walter Rauschenbusch, “Private Property and the Common Good”, capítulo VIII de The Social Principles of Jesus (Nova York: Association Press, 1916). Texto original em domínio público.
