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Discurso de Léopold Sédar Senghor no Congresso Nacional do Brasil (1964)

Léopold Sédar Senghor

Discurso proferido na sessão de 23 de setembro de 1964 e publicado no Diário do Congresso Nacional de 24 de setembro de 1964, p. 559-560.

Nota editorial: Esta transcrição foi preparada a partir da reprodução disponibilizada pela Câmara dos Deputados na coleção Escrevendo a História – Série Estrangeira. Foram eliminados apenas cabeçalhos, números de página e quebras decorrentes da paginação. Mantiveram-se a grafia, a pontuação, as maiúsculas enfáticas e eventuais peculiaridades do registro taquigráfico. As reações do plenário aparecem em itálico.


O SR. PRESIDENTE LÉOPOLD SÉDAR SENGHOR (Presidente da República do Senegal) – Sr. Presidente do Congresso Nacional, Srs. Ministros, Srs. Senadores, Srs. Deputados, existe um provérbio senegalês que diz: “Somente os ignorantes não se emocionam”.

Adivinhais minha emoção, sabeis o que eu sei o que é o Brasil. Podeis medi-la pela grandeza de vosso país, pelo heroísmo de vossa História. O Brasil é o primeiro país da América, por sua extensão; o segundo, por sua população. Quando ele tiver povoado todas as suas vastas terras, realizado todas as suas potencialidades, explorado todas as suas riquezas, o Brasil será um dos maiores do mundo.

Ele já carrega sobre os seus ombros largos a esperança de numerosas nações, a Esperança do Terceiro Mundo, especialmente da África, o que explica a minha visita oficial e a honra insigne que me fizestes de me receber.

Antes de prosseguir e de dizer o modo exemplar com o qual vós, brasileiros, nos abristes o caminho da independência nacional, queria dirigir um piedoso pensamento aos pioneiros de vossa independência: ao poeta Cláudio Manuel da Costa, ao alferes José Joaquim da Silva Xavier, a todos aqueles que pagaram a vossa independência com a sua vida.

Eu digo que vós nos abristes a estrada, vós fostes um exemplo, “Adeus, Senhor Brasil”, vós vos separastes de vossa antiga Metrópole sem derramamento de sangue, quase sem briga; vós proclamastes a República nas mesmas condições; “Adeus, Dom Pedro”. Não podíeis, aliás, sem trair a delicadeza, agir de outro modo com Pedro II, esse Imperador humanista, que legou à vossa grande República a paixão do saber e o amor das artes. Porque o Brasil é hoje, na latinidade, a primeira nação por sua população, um posto avançado de pesquisa nas letras e nas artes.

Mais profundamente, porém, nossa visita tem sua razão de ser, fora a vizinhança marítima e a semelhança de cultura, no exemplo de desenvolvimento que vós nos ofereceis. É verdade que a influência atlântica, a cultura latino-africana, até mesmo luso-africana, os conselhos do Reverendo Padre Lebret, o grande economista dos países em via de desenvolvimento, tudo nos convidava já a estudar a experiência brasileira, para implantar, no nosso país o que oferecesse possibilidade de ser transplantado. Em suma, aquilo que faz o valor da experiência brasileira é menos o método de vossa independência do que o método de vosso desenvolvimento.

Alguns no meio de vós se admirarão, talvez, de que eu não fale em política. Mas a única política digna deste nome, a única política eficaz não é precisamente a do desenvolvimento, porque o que distingue umas das outras, especialmente as nações da África e as da América Latina, é menos sua política politizante do que sua política de desenvolvimento.

Não irei até proclamar o fim das ideologias, mas é tempo de reconhecer sua ineficácia, nesta segunda metade do século XX, em que a letra destruiu o seu espírito, quando traiu a sua ideologia. Eu digo traiu, em benefício da idéia nacional ou da cultura. Porque hoje sabeis ou sentis que antes de ser capitalista ou comunista, liberal ou socialista, se é inglês ou francês, russo ou chinês – quando não se é anglo-saxônico ou latino, árabe ou negro-africano. Paradoxalmente, no momento em que capitalistas e comunistas anunciam cada um para si a Sociedade da Abundância material, neste mesmo instante o espírito revida sob o aspecto da cultura. Brasília é o testemunho vivo disto mesmo. Mas, por que prosseguir nesta análise?

Colocados no fundo do abismo, nos anos famosos da crise mundial, vós, brasileiros, nos mostrastes, pelas tormentas políticas que são nosso quinhão comum, como se sai do subdesenvolvimento por uma vontade de esforço metódico.

“Adeus, Senhor Brasil!” Em primeiro lugar, vós aceitastes o desafio, libertando-vos do complexo de antigos colonizados. Analisando vossa situação durante os anos terríveis, chegaram à conclusão de que, para encontrar e explorar vossas imensas riquezas como para povoar vossas vastas terras, eram necessárias duas coisas: homens e capitais.

Daí vossa política de imigração e de integração racial, por um lado, e por outro, vossa permissão à entrada de capitais estrangeiros.

Em síntese, essas duas opções não são muito originais. O que é notável, no caso do Brasil, é que acolhendo todos os sangues do mundo, como aluviões férteis, vós os submetestes ao cadinho da latinidade, realizando uma simbiose superior aos elementos que a compõem, essa simbiose que se chama o Homem Brasileiro. E este homem vós o fizestes melhor do que instituído: vós o educastes. Porque não há desenvolvimento sem quadros motores que pensem, criem e dirijam.

O que é notável é que diante do problema crucial dos capitais estrangeiros, escolhestes a solução intermediária que era a única razoável, porque a única realista. Vós multiplicastes as sociedades de economia mista com maioria brasileira. (Muito bem! Palmas.) É assim que escreve uma revista francesa no número especial intitulado “América Latina em Marcha”. É assim que vós, brasileiros, entrastes com os mexicanos na era de desenvolvimento constante, progressivo, de que se beneficia, nos dois casos, o conjunto do país e que já começa a se manifestar pelo emprego certo de estruturas do tipo moderno. É assim que desenvolvestes, diversificando-as, vossa agricultura, vossa pecuária, vossa pesca, os produtos de vossas imensas florestas. Mas porque há uma árvore brasileira em cinco no mundo, mas sobretudo graças à vossa planificação, sem a qual não há nem racionalidade nem eficácia, vós vos tornastes um grande país industrial, muito grande, um dos símbolos de nossa esperança, uma das grandes nações do século XX. (Palmas prolongadas.)

Sr. Presidente, Srs. Parlamentares, o uso requer que em semelhante circunstância o visitante apresente seu país. Eu o farei em breves palavras, porque o Senegal está situado quase em frente ao Brasil e tudo é feito para nos aproximar, até as dimensões que nos separam.

O Senegal está situado no extremo-ocidental da África, entre os 13 e 15 graus de latitude norte. O que o distingue, portanto, é a sua posição geográfica, no extremo-norte da África Negra, e ainda uma vez no extremo-ocidental dos países negros.

Dakar, sua Capital, graças a essa posição privilegiada, graça ao seu porto e ao seu aeroporto de classe internacional, é uma encruzilhada de rotas marítimas e aéreas, entre a América do Sul e a Europa Ocidental, a América do Norte e a África Austral. Encruzilhada de rotas, encruzilhada de raças e de culturas. Suportamos, para nossa infelicidade mas também para o nosso bem, trezentos anos de presença européia – francesa a maior parte do tempo, mas também inglesa, holandesa e, em primeiro lugar, portuguesa. Somos, é a evidência, étnica e culturalmente negro-africanos, mas recebemos civilizações e sangues os mais diversos, no meio das quais a contribuição francesa, portuguesa, berbere e árabe.

Vedes a semelhança de nossas situações. Ainda que ao lado dos Estados Unidos do Brasil sejamos um pequenino país subdesenvolvido, de 200.000 km², de 3.300.000 habitantes e 175 dólares de rendimento anual per capita. Entretanto, no seio dos países subdesenvolvidos, a Geografia e a História nos favorecem, apesar de tudo.

Graças ao gênio político do General De Gaulle, que ides brevemente receber, recuperamos nossa independência, (palmas prolongadas) como os outros países de língua francesa ao sul do Saara, sem derramamento de sangue nem regressão econômica; antes, pelo contrário, com o auxílio do antigo colonizador, para consolidar nossa independência. (Palmas prolongadas.)

Hoje, pois, o Senegal conta com 40% de crianças escolarizadas, 40 ginásios do segundo grau, mais de 400 ginasianos em 1964 e sobretudo 1 universidade de classe internacional, com 4 mil estudantes pertencentes a 39 nações, com estudantes brasileiros. O melhor, no domínio da cultura, é o movimento da negritude que já suscitou um romance senegalês, uma poesia senegalesa, uma música senegalesa, uma pintura senegalesa de que há, nesta sala, duas jovens esperanças. (Palmas prolongadas.)

Podem ficar tranqüilos, porque nossa négritude é anti-racista. (Palmas prolongadas.) Digo que nossa negritude é anti-racista porque, na realidade, somos biologicamente arraigados aos nossos valores ancestrais de civilização. Embora arraigada a esses valores, nossa negritude é aberta aos polens de todas as civilizações, e, em primeiro lugar, ao pólen da latinidade. Em compensação, os filhos do Senegal já trouxeram a contribuição à civilização francesa. Citarei, aqui, apenas o ator Daniel Sorano e o filósofo Gaston Berger, antigo Diretor do Ensino Superior da França, fundador da Perspectiva e da Caracterologia.

No terreno do desenvolvimento, fomos um dos primeiros países africanos independentes a elaborar um plano de desenvolvimento econômico e social. Preparamos, agora mesmo, o nosso II Plano Quatrienal 1965-1969, por um diálogo da cúpula e da base, do Estado, dos empregadores e dos trabalhadores. (Palmas.) Porque o Diálogo é o fundamento de nosso método político. (Palmas.) Voltarei ao assunto. Enquanto isto, basta assinalar que desde 1959 nossa produção interna bruta cresce a cada ano de cerca de 4,75% e o valor anual de nossa produção industrial é em torno de 160 bilhões de antigos francos franceses. Repito, nosso método é o Diálogo entre os continentes e as raças, entre as ideologias e as classes, entre as civilizações e as nações. (Palmas prolongadas.) O Diálogo é a Cultura, fundamento e finalidade da ação humana, definida como atividade genérica do homem. Porque, estamos profundamente convencidos, nenhum continente, nenhuma raça, nenhuma ideologia, nenhuma classe, nenhuma civilização nem nação possui, ela sozinha, a Verdade. (Palmas prolongadas.) A verdade humana e, por conseguinte, o Bem como o Belo são fatos de nossas verdades, de nossas contribuições complementares. (Palmas.)

Eis por que, igualmente afastado do capitalismo monopolista e do comunismo totalitário, o Senegal escolheu o caminho mediano (Palmas prolongadas): a Voz africana do Socialismo democrático. (Palmas prolongadas.) Se a planificação científica e a cooperação econômica negro-africana são dois pilares de nossa política, o terceiro é a Democracia. (Palmas prolongadas.)

No Senegal, o Presidente da República, Chefe do Governo, e os membros da Assembléia Nacional são eleitos cada 4 anos, ao mesmo tempo. No nosso país, não há partido único nem candidato único. (Palmas prolongadas.)

Sr. Presidente do Congresso, Srs. Ministros, Srs. Parlamentares, vós haveis constatado que, apesar de nossas dimensões diferentes, de nossos continentes diferentes, um certo número de fatores nos aproxima: a Geografia atlântica, a História colonial, as heranças mescladas da Latinidade e da Africanidade. Vós nos abristes os caminhos, vós nos mostrastes, exceptis excipiendis, por vossos esforços, o exemplo do que pode fazer, amanhã, a África, pelo menos o Senegal. Esperamos que essa lição nos seja proveitosa.

Enquanto aguardamos esse amanhã, sejamos agradecidos à delicadeza da vossa acolhida. Nunca a esqueceremos, nem aos Estados Unidos do Brasil. (Muito bem! Muito bem! O Plenário e as galerias, de pé, aplaudem demoradamente.)


Fonte: Câmara dos Deputados, Departamento de Taquigrafia, Revisão e Redação. Escrevendo a História – Série Estrangeira. Discurso proferido na sessão de 23 de setembro de 1964, publicado no Diário do Congresso Nacional de 24 de setembro de 1964, p. 559-560.

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