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A cruz como princípio social: Walter Rauschenbusch em português

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O que significa pensar a cruz como um princípio social? Neste capítulo, Walter Rauschenbusch relaciona o sofrimento de Cristo ao destino dos profetas e de todos os que enfrentam injustiças em nome de uma vida mais justa.

A cruz aparece aqui não como glorificação do sofrimento, mas como um chamado à solidariedade: quando o sofrimento revela a violência e a opressão, a sociedade é convocada a reconhecer suas causas e agir para transformá-las. Rauschenbusch também pergunta qual é a responsabilidade de quem recebeu uma formação privilegiada diante dos conflitos de seu tempo.

A tradução para o português inclui uma nota sobre o contexto histórico do autor e uma explicação do conceito de “sofrimento vicário”.

Leia o capítulo “A cruz como princípio social: a redenção social se realiza por meio do sofrimento vicário” e compartilhe suas impressões.

Capítulo XI. A cruz como princípio social

A redenção social se realiza por meio do sofrimento vicário

Nota: por “sofrimento vicário” entende-se o sofrimento assumido por alguém em favor de outros.

Nota editorial: as expressões “nosso país”, “hoje” e “nos últimos trinta anos” referem-se aos Estados Unidos e ao contexto histórico do autor, no início do século XX. Mantiveram-se no texto para preservar o ponto de vista original.

Leituras Diárias

Primeiro Dia: A Sucessão Profética

E começou a falar-lhes por parábolas: Um homem plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou um tanque para prensar as uvas, edificou uma torre, arrendou-a a lavradores e partiu para outro país. A seu tempo, enviou um servo aos lavradores, para receber deles do fruto da vinha. Mas eles o prenderam, espancaram-no e o mandaram embora de mãos vazias. Tornou a enviar-lhes outro servo; e a este feriram na cabeça e o trataram vergonhosamente. Enviou ainda outro; e a este mataram; e a muitos outros, espancando alguns e matando outros. Tinha ainda um, seu filho amado; enviou-o por último, dizendo: “Eles respeitarão meu filho.” Mas aqueles lavradores disseram entre si: “Este é o herdeiro; vinde, matemo-lo, e a herança será nossa.” E, agarrando-o, mataram-no e lançaram-no fora da vinha. Que fará, pois, o senhor da vinha? Virá, destruirá os lavradores e dará a vinha a outros. — Marcos 12:1-9.

A parábola da vinha pretendia ser um resumo da história judaica. Pelos servos que vinham convocar a nação à obediência, Jesus se referia aos profetas. A história do povo hebreu foi marcada por uma sucessão singular de homens que haviam tido uma experiência de Deus, que viviam na consciência do Eterno, que julgavam a vida nacional pelo padrão da justiça divina e que falavam à sua geração como representantes de Deus.(6) O espírito desses homens e a influência permanente e indireta que adquiriram em sua nação conferem ao Antigo Testamento seu poder incomparável de nos impelir e inspirar. Eles foram a força motriz do progresso espiritual de sua nação. No entanto, Jesus aqui descreve seu destino como marcado pelo sofrimento e pela rejeição.

Outras nações tiveram uma sucessão de homens correspondentes aos profetas hebreus?
Existem alguns em nossa própria história nacional?

Segundo Dia: O Servo Sofredor de Jeová

Certamente ele tomou sobre si as nossas enfermidades e carregou as nossas dores; nós, porém, o considerávamos ferido, ferido por Deus e afligido. Mas ele foi traspassado por causa das nossas transgressões e moído por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e por suas feridas fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu próprio caminho; e Jeová fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós.

Ele foi oprimido, e quando afligido, não abriu a boca; como cordeiro levado ao matadouro, e como ovelha muda diante dos seus tosquiadores, assim ele não abriu a boca. Por opressão e juízo foi tirado; e quanto à sua geração, quem considerou que ele foi cortado da terra dos viventes por causa da transgressão do meu povo, a quem o golpe era devido? — Isaías 53:4-8.

Na parte final de Isaías há várias seções que descrevem o caráter e a missão do “servo de Jeová”. A quem o escritor se referia? A uma única grande personalidade? À nação hebreia sofredora e exilada? A um grupo piedoso e inspirado de profetas dentro da nação? A Igreja Cristã sempre viu nesse servo de Jeová uma profecia impressionante de Cristo. O fato de que essa interpretação é controversa há muito tempo indica que as características do servo de Jeová podem ser encontradas, em diferentes graus, na nação, na ordem profética, em profetas individuais e, preeminentemente, na grande figura culminante de todo o profetismo. Isaías 53 descreve o servo de Jeová como rejeitado e desprezado, incompreendido, carregando as transgressões e o castigo de todos. É a primeira grande formulação do sofrimento vicário na experiência humana.

Por que e como os pecados de um grupo podem cair sobre um?

Terceiro Dia: Um Profeta Contemporâneo

E, enquanto eles iam, Jesus começou a dizer às multidões a respeito de João: Que fostes ver no deserto? Uma cana agitada pelo vento? Mas que fostes ver? Um homem vestido de roupas finas? Eis que os que vestem roupas finas estão nas casas dos reis. Mas por que fostes? Para ver um profeta? Sim, eu vos digo, e muito mais do que um profeta. Este é aquele de quem está escrito:

“Eis que envio o meu mensageiro diante da tua face,
o qual preparará o teu caminho diante de ti.”

Mas a que compararei esta geração? É semelhante a crianças sentadas nas praças, que chamam aos seus companheiros e dizem: “Tocamos flauta para vós, e não dançastes; entoamos lamentações, e não pranteastes.”

Porque João veio sem comer nem beber, e dizem: “Ele tem demônio.” Veio o Filho do homem comendo e bebendo, e dizem: “Eis aí um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores!” E a sabedoria é justificada por suas obras. — Mt 11:7-10; 16-19.

Para Jesus, o profetismo não era apenas um fato histórico, mas uma realidade viva. Ele acreditava na inspiração presente. Ele e seus contemporâneos haviam visto um grande profeta, destemido, heroico, com todas as marcas do tipo, um mensageiro de Deus inaugurando uma nova era de efervescência espiritual (vs. 12, 13). Mas João teve que suportar a sorte do profeta. Ele estava então na prisão pelo crime de dizer a verdade a um rei, e logo morreria para agradar uma mulher vingativa. O povo também balançava a cabeça em sinal de reprovação. Como crianças emburradas na praça pública, que “não brincam”, seja a brincadeira proposta um casamento ou um funeral, o povo havia criticado João por ser um asceta sombrio e encontrado defeito em Jesus por sua alegria chocante. Não havia maneira de agradá-los, e nenhuma maneira de fazê-los levar a sério o chamado de Deus. Muito antes de a eletricidade ser inventada, a natureza humana já sabia como interpor isolantes entre si e a verdade.

Já percebemos estudantes recorrendo a críticas genéricas para evitar uma obrigação concreta?
Será que uma das funções da educação superior é nos tornar mais hábeis em obscurecer verdades inconvenientes?

Quarto Dia: Olhando para a Cruz

E aconteceu que, aproximando-se os dias de ser elevado ao céu, ele tomou resolutamente o caminho de Jerusalém. — Lucas 9:51.

Naquela mesma hora, alguns fariseus chegaram, dizendo-lhe: Sai e vai-te daqui, porque Herodes quer matar-te. E ele lhes disse: Ide dizer àquela raposa: Eis que expulso demônios e realizo curas hoje e amanhã, e no terceiro dia serei aperfeiçoado. Contudo, devo prosseguir hoje, amanhã e depois de amanhã; pois não pode ser que um profeta pereça fora de Jerusalém. Ó Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu reunir teus filhos, como a galinha reúne seus pintinhos debaixo das asas, e vós não quisestes! — Lucas 13:31-34.

Jesus percebeu desde cedo que os acontecimentos se voltavam contra ele. Ele viu a cruz no horizonte de sua vida muito antes que os outros a vissem. Pintores o retrataram na carpintaria de seu pai, com ferramentas no ombro, olhando para sua sombra em forma de cruz. Ele aceitou a morte conscientemente e “decidiu firmemente dirigir-se a Jerusalém”, embora soubesse o que o esperava. Jerusalém havia adquirido uma triste preeminência como o lugar onde as lutas entre os profetas e os chefes da nação eram resolvidas. Ele viu sua própria morte como parte da sucessão profética. Caminhou para a morte não como um escravo arrastado, mas como um espírito livre. Herodes, aquele rei chacal, não podia assustá-lo para fora da Galileia. Seu tempo estava nas mãos de seu Pai. Hoje, amanhã e depois de amanhã, ele trabalharia, e então seria aperfeiçoado.

Quinto Dia: Novos Profetas a Seguir

Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque edificais os sepulcros dos profetas e adornais os túmulos dos justos, e dizeis: “Se tivéssemos vivido nos dias de nossos pais, não teríamos sido participantes com eles no sangue dos profetas.” Assim, testificais contra vós mesmos que sois filhos dos que mataram os profetas. Enchei, pois, a medida de vossos pais. Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação do inferno? Portanto, eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas: alguns deles matareis e crucificareis; e alguns deles açoitareis nas sinagogas e perseguireis de cidade em cidade; para que sobre vós venha todo o sangue justo derramado sobre a terra, desde o sangue de Abel, o justo, até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem matastes entre o santuário e o altar. Em verdade vos digo que todas essas coisas virão sobre esta geração. — Mt 23:29-36.

Este é o clímax da grande invectiva contra os líderes religiosos da nação. A última acusação na denúncia é que eles estavam prestes a completar o registro de seus pais, rejeitando e perseguindo os profetas de sua geração. O fato havia penetrado na mente pública de que gerações anteriores haviam sido culpadas disso. “Se tivéssemos vivido nos dias de nossos pais, não teríamos sido participantes com eles no sangue dos profetas.” Jesus promete fazer um teste disso e prediz que eles seguirão o velho caminho e assim declararão sua solidariedade espiritual com os pecados do passado. Vemos aqui que ele imaginava seus discípulos dando continuidade à tradição profética.

“Escolheste, ó meu povo, de que lado ficarás,
Antes que a Destruição, com suas sandálias gastas, sacuda a poeira contra a terra?”

“A escolha nunca parece crucial
Até que a hora do juízo tenha ficado para trás.”

Sexto Dia: A Cruz para Todos

Desde então, Jesus começou a mostrar aos seus discípulos que ele devia ir a Jerusalém, sofrer muitas coisas dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos escribas, ser morto e, no terceiro dia, ser ressuscitado. E Pedro o chamou à parte e começou a repreendê-lo, dizendo: “De modo nenhum, Senhor! Isso nunca te acontecerá.” Mas ele se voltou e disse a Pedro: “Arreda-te de mim, Satanás! Tu és pedra de tropeço para mim, porque não pensas nas coisas de Deus, mas nas coisas dos homens.” Então Jesus disse aos seus discípulos: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por minha causa, encontrá-la-á.” — Mt 16:21-25.

Quando a maré começou a virar contra Jesus, ele testou a atitude dos círculos íntimos de seus discípulos e extraiu de Pedro, em nome de todos, uma declaração retumbante de fé e lealdade (vs. 13-16). “Desde então” Jesus começou a compartilhar com eles sua perspectiva em relação à morte. Pedro expressou o choque que todos sentiram e protestou contra a possibilidade. A veemência com que Jesus repeliu a sugestão de Pedro nos dá um vislumbre das lutas internas em sua mente, das quais obtemos uma revelação mais completa em sua oração no Getsêmani. Mas, em vez de recuar de sua predição da cruz, ele a expandiu, colocando a obrigação do sofrimento profético sobre todos os seus discípulos. A maneira como enfrentassem esse destino determinaria também sua própria salvação. Quando o Reino de Deus está em jogo, um homem salva a vida ao perdê-la e a perde ao salvá-la, e a perda de seu eu superior não pode ser compensada por qualquer quantidade de ganho externo.

Olhando para a profissão que esperamos seguir, onde prevemos a possibilidade de perder nossas vidas tentando salvá-las, ou de salvar nossas vidas aparentemente perdendo-as?

Sétimo Dia: As Consolações do Profeta

Eis que eu vos envio como ovelhas no meio de lobos; sede, portanto, prudentes como as serpentes e simples como as pombas. Mas acautelai-vos dos homens, pois eles vos entregarão aos concílios e nas suas sinagogas vos açoitarão; e sereis levados perante governadores e reis por minha causa, para testemunho a eles e aos gentios. Mas, quando vos entregarem, não vos preocupeis com o que ou como falareis, pois naquela hora vos será dado o que falareis. Porque não sois vós que falais, mas o Espírito de vosso Pai é que fala em vós. — Mt 10:16-20.

Jesus disse-lhes: Nunca lestes nas Escrituras:

“A pedra que os construtores rejeitaram,
essa se tornou a pedra angular;
isso foi feito pelo Senhor,
e é maravilhoso aos nossos olhos”? — Mt 21:42.

Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, pois deles é o reino dos céus. Bem-aventurados sois quando os homens vos injuriarem, vos perseguirem e, falsamente, disserem todo mal contra vós por minha causa. Alegrai-vos e exultai, pois grande é a vossa recompensa nos céus; porque assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós. — Mt 5:10-12.

Essas três passagens expressam três grandes consolações para aqueles que, como Cristo, enfrentam oposição por sua missão profética. Eles terão que enfrentar grandes desafios; estarão em desvantagem numérica e de forças. Mas haverá uma voz interior, discreta, para inspirá-los e sustentá-los: “Não sois vós que falais, mas o Espírito de vosso Pai é que fala em vós.”

A segunda consolação é que o tribunal superior reverterá o veredicto do inferior. Os pedreiros podem examinar uma pedra e concluir que ela não se encaixará no edifício; mas o arquiteto pode ter reservado aquela pedra para ser a pedra angular. O profeta raramente vive para ver sua própria vindicação histórica, mas a fé sabe que ela é inevitável.

A terceira consolação está contida na última das Bem-aventuranças. Aqueles que são perseguidos por causa da justiça podem muito bem se alegrar pela companhia em que estão, pelo Líder cujo nome carregam e pelo Reino de Deus que agora e sempre será sua herança.

Imagine dois colegas de turma que seguiram a mesma profissão, chegando ao fim de suas carreiras. Um alcançou sucesso, riqueza, eminência, juntamente com a reputação de nunca ter feito uma ação corajosa e abnegada, e com a consciência de que sua alma encolheu à medida que envelheceu. O outro foi um defensor da justiça, um homem de destaque, mas manteve-se fora do poder, enfrentando a pobreza e a oposição junto com sua família, mas com a consciência de que teve por amigos pessoas que eram o sal da terra e que lutou com vigor pela justiça. Qual preferiríamos ser?

Estudo para a Semana

Os homens cristãos divergiram amplamente na interpretação do significado do sofrimento e da morte de Cristo, mas todos concordaram que a cruz foi o coroamento decisivo de sua obra e a chave que desvenda o significado de toda a sua vida. A Igreja sempre sentiu que a morte de Cristo foi um evento de importância eterna para a salvação da humanidade, único e sem paralelo. Possui uma riqueza de sentidos quase inesgotável. Estamos examinando aqui apenas um aspecto. Vimos nas passagens estudadas esta semana que o próprio Jesus vinculou seu próprio sofrimento e rejeição ao destino dos profetas que vieram antes dele e ao destino de seus discípulos que viriam depois dele. Ele viu um fio condutor que atravessa a história, e sua própria vida e morte faziam parte dele. Ele mesmo generalizou o valor social de sua experiência peculiar e nos ensinou a ver a cruz como um grande princípio social do Reino de Deus. Ele viu sua morte como a mais alta demonstração de uma lei permanente da vida humana.

I

O mal é socializado, institucionalizado e militante. O Reino de Deus e suas leis superiores só podem afastá-lo por meio do confronto. “A verdade para sempre no cadafalso, o Erro para sempre no trono.” Esse choque envolve sofrimento. Esse sofrimento recairá mais pesadamente sobre aqueles que incorporam mais completamente o espírito e as ideias do Reino, e que têm a ousadia necessária para travar a luta.

A maioria das pessoas tem uma compreensão confusa do conflito moral permanente. Às vezes são despertadas por piedade sentimental ou indignação, mas logo se cansam novamente. Se seus próprios interesses são afetados, lutam bem. Mas há homens e mulheres cujas mentes foram tornadas tão sensíveis por experiências pessoais ou tão purificadas pela educação correta e pelo espírito de Deus que apreendem as questões morais com uma compreensão realmente adequada. Vivendo de alguma forma nas fronteiras do Reino dos Céus, aprenderam a pensar e sentir segundo seus caminhos superiores, e quando se voltam para as coisas como elas são agora, é claro que há uma colisão; não desta vez uma colisão de interesses, mas um choque de princípios, de justiça com o mal, de verdade com subterfúgios astutos, ou de solidariedade com egoísmo predatório.

A vida e o destino desses indivíduos antecipam os conflitos e desdobramentos históricos. Esta é a qualidade profética de suas vidas. Trabalhando os problemas morais e intelectuais em suas mentes antes que as massas os tenham percebido, tornam-se os líderes naturais na luta, esclarecem as mentes dos outros e assim se tornam, não apenas precursores, mas agentes humanos decisivos no progresso moral da humanidade. “Os espíritos vivos individuais são as unidades efetivas na formação da história; todas as tendências comuns que caminham para a realização devem primeiro condensar-se como forças pessoais em tais mentes, e então, pela interação entre elas, abrir caminho para o reconhecimento geral” (Lotze). “A Crise Atual” (The Present Crisis) de Lowell é talvez a expressão poética mais poderosa da função profética na história.

“Enumera para mim os heróis escolhidos da terra — eram almas que ficaram sós,
Enquanto os homens por quem agonizavam lhes atiravam a pedra do opróbrio,
Serenas, e no futuro viam o raio dourado inclinar-se
Para o lado da justiça perfeita, sustentadas por sua fé divina,
Pela verdade simples de um homem, fiel à humanidade e ao supremo desígnio de Deus.

“À luz de hereges em chamas, sigo os pés sangrentos de Cristo,
Subindo penosamente novos Calvários, sempre com a cruz que não recua,
E esses montes de angústia contam como cada geração aprendeu
Uma nova palavra daquele grande Credo que ardeu em corações proféticos
Desde que o primeiro homem, vencido por Deus, ergueu o rosto ao céu.”

II

Durante os séculos em que a Igreja estava ela mesma necessitada de redenção e sua purificação era resistida pelos interesses eclesiásticos dominantes, espíritos proféticos como Arnold de Brescia, Wycliffe, Huss e Savonarola foram mais frequentemente encontrados lutando pela liberdade da Igreja dos exploradores despóticos dentro e fora da hierarquia, e pela pureza do evangelho. A Igreja era um componente central da ordem social, e a reforma da Igreja era o problema social preeminente. Hoje a Igreja está, em geral, livre de corrupção e tão aberta quanto permite o grau de esclarecimento público. Portanto, as mentes proféticas agora estão livres para lutar pela liberdade do povo no governo político e pela substituição da cooperação por métodos predatórios na indústria, e o choque é mais sentido nesse campo.

A lei do sofrimento profético permanece verdadeira tanto quanto sempre. Provavelmente nenhum grupo de homens jamais se propôs a purificar uma cidade de vícios lucrativos sem sofrer represálias. Nos últimos trinta anos, este país observou homens eminentes na vida pública em várias grandes cidades fazendo uma campanha sincera para quebrar o domínio de uma máquina policial corrupta, ou de uma clique política, ou de corporações de serviços públicos. Por um tempo, tal homem tem a opinião pública a seu favor, pois todas as comunidades têm um desejo de ser morais. Mas quando fica claro que ele realmente quer dizer o que diz, e que rendas importantes serão prejudicadas, forças poderosas se voltam contra ele com abuso e ridículo, tentam destruir seus negócios ou saúde e frustrar suas ambições políticas. Um editor eminente no Meio-Oeste, falando diante da Associação de Imprensa de seu Estado vários anos atrás, disse: “Não há um homem nos Estados Unidos hoje que tenha tentado honestamente fazer algo para mudar as condições fundamentais que geram pobreza, doença, vício e crime em nossas grandes cidades, em nossos tribunais e em nossas legislaturas, que, no exato momento em que seus esforços pareciam mais propensos a ter sucesso, não tenha sido subitamente atacado e dilacerado pelas grandes publicações jornalísticas.” Um volume de esboços biográficos verídicos de tais líderes nos daria uma história da cruz na política, e nos contaria mais sobre o cristianismo como uma força efetiva em nosso país do que algumas estatísticas eclesiásticas.

III

Jesus levou muito a sério o pecado de estrangular os profetas. É pecado em um nível mais alto do que o desvio da natureza humana frágil, ou os males cometidos em disputas privadas. Visto que o Reino de Deus é a coisa mais alta que existe, uma tentativa de bloqueá-lo ou arruiná-lo é o pior pecado. Nossa esperança para o avanço da humanidade e sua fuga de seus males permanentes está condicionada a manter nossas percepções morais claras e fortes. Sufocar os melhores exemplares da inteligência moral e intimidar os demais mostrando-lhes o destino que os aguarda apaga a luz orientadora da humanidade. Há algo pior?

Jesus sustentava que a rejeição dos profetas poderia envolver toda a nação em culpa e ruína. Como a ação de Caifás e um punhado de outros homens envolve todos os demais? Em virtude da solidariedade humana. Um peca e todos sofrem, porque todos estão ligados. Um grupo dominante age em nome de todos e arrasta todos para o desastre. Isso aponta para a importância moral do bom governo. Se exploradores e opressores estão no controle da sociedade, suas ações coletivas serão guiadas e determinadas precisamente pelos homens que mais têm a temer do Reino de Deus e mais inclinação para sufocar as vozes proféticas.

Mas a mesma solidariedade que atua como condutora do pecado também servirá de base para tornar o ataque dos poucos justos eficaz para todos. Se o sofrimento dos bons homens coloca diante de todos uma questão de justiça que podem ver e compreender, ele intensifica e consolida a consciência moral da comunidade. O sofrimento de um líder desperta simpatia apaixonada e lealdade, às vezes em grau perigoso. No movimento trabalhista, quase qualquer falta é perdoada a um homem que esteve na prisão pela causa do trabalho, e a morte por uma causa popular idealizará a memória de personagens muito comuns ou questionáveis. Mas se o caráter de um líder é puro, o sofrimento o credencia e lhe dá poder. A cruz teve um valor incomparável ao colocar a causa do cristianismo diante do mundo. Colocou Jesus onde a humanidade nunca poderia esquecê-lo, e iluminou todo o problema do pecado e da redenção com o fogo da maior de todas as tragédias.

“A cruz, tipo ousado de vergonha transformada em homenagem,
De uma vida inacabada que governa o mundo.”

IV

Mas nem todo sofrimento justo é socialmente eficaz. Um homem bom pode ser suprimido antes de ter conquistado seguidores, ou mesmo antes de ter elaborado sua mensagem em sua própria mente, e sua supressão deixa apenas algumas bolhas, logo dissipadas nas águas do esquecimento. Nesse caso, sua vida não chegou a liberar a força redentora que continha. Apenas acrescenta um pouco mais ao horror e à tragédia de um mundo pecaminoso, surdo e manchado de sangue. Muitos dos homens cujas vidas se apagaram por trás do silêncio cruel das paredes da Inquisição Espanhola eram exatamente os homens de que a Espanha mais precisava. Que efeito salvador sua morte exerceu? Os incontáveis patriotas cujas correntes tilintaram na marcha para o exílio siberiano ainda não libertaram a Rússia de sua oligarquia cega. Nossa fé é que suas vidas eram caras a Deus, e que suas dores e as lágrimas amargas daqueles que os amavam fazem parte, de algum modo, de uma força acumulada que um dia salvará a Rússia. Mas isso é fé religiosa, “uma convicção de coisas não vistas”. Não podemos prová-lo. Só podemos confiar.

Enquanto isso, é nosso dever garantir que nenhum sangue inocente seja desperdiçado. A dor é uma instituição misericordiosa e redentora da natureza quando atua como um alarme para direcionar a atenção inteligente à causa da dor. Se a dor não força a eliminação de sua própria causa, é um mal acrescentado. A morte dos inocentes, por opressão, trabalho infantil, doenças decorrentes da falta de saneamento ou cortiços asfixiantes, deveria prender a atenção da comunidade e colocar a causa social de sua morte sob os holofotes. Nesse caso, eles morreram uma morte vicária que ajuda a redimir o resto de um mal social, e qualquer um que utilize seu sofrimento para esse fim mostra sua reverência por sua morte. Devemos esse dever em medida ainda maior aos profetas, que não são vítimas passivas e inconscientes, mas que se colocam inteligentemente em oposição ao mal. A solidez moral de uma nação pode ser medida pela rapidez e precisão com que ela compreende suas vozes proféticas, ou personalidades, ou eventos. A segunda melhor coisa depois de ser um profeta é interpretar um profeta. Esta é uma das funções próprias de mentes instruídas e idealistas, como se espera que sejam as dos universitários. Quanto mais o Reino de Deus estiver presente, menos profetas terão de sofrer. Quando ele vier plenamente, a cruz desaparecerá.

V

O princípio social da cruz contém um desafio a todos os que estão conscientes de qualidades de liderança. Deixe o homem comum fazer os deveres comuns, mas deixe o homem forte carregar a mochila pesada. Não é mais do que justo que pessoas dotadas de grandes capacidades naturais escolham deliberadamente trabalho que envolva dificuldades sociais. Atualmente, a teoria parece ser que os fortes têm o direito de garantir lugares onde serão libertados da necessidade de se esforçar, e podem apoiar-se sobre os ombros dos pobres. Essa é a lei da cruz invertida. Nossa sociedade semipagã sempre praticou o sofrimento vicário, deixando os pobres carregarem os fardos dos ricos além dos seus próprios. Em vez de incentivar os mais capazes a buscar lucros predatórios e confiar poderes públicos aos que tiveram mais sucesso em pilhar, deveríamos encorajar o espírito de solidariedade e dar tanto poder quanto honra àqueles que estão prontos para servir o bem comum a um custo severo para si mesmos.

O que o princípio da cruz tem a dizer aos estudantes universitários? Se têm uma formação excepcional, deixem-nos fazer um trabalho excepcional. Esperava-se que um cavaleiro em armadura atacasse onde outros não ousavam. Uma educação universitária deveria preparar um cristão para enfrentar alguns reveses. Parece desprezível que recebamos os benefícios e as possibilidades da formação intelectual e deixemos a proteção de crianças e trabalhadoras contra a exploração a cargo de homens e mulheres sem educação, sem tempo livre e sem posição social, que precisam se esforçar o dobro para alcançar cada conquista. Em alguns países europeus, o serviço de missões no exterior ficou principalmente a cargo de homens e mulheres da classe dos artesãos. Em nosso país, estudantes universitários se voluntariaram para isso. Isso é como deveria ser. Por outro lado, na luta pela liberdade política, as universidades europeias tiveram uma parte mais corajosa e sacrificial do que nunca coube a nós.

Aqueles que estão conscientes de uma missão profética têm um motivo redobrado para uma vida limpa, sóbria e sincera. Especialmente em seus estágios iniciais, um movimento ético é identificado com seus líderes e testado por seu caráter. Um homem bom pode conseguir uma audiência para uma causa impopular pela confiança que inspira. A causa se apoia no prestígio de sua reputação. O caráter privado falho ou a história duvidosa de um líder é um fardo. Pior ainda é se um homem cujo nome há muito é uma garantia para sua mensagem retrocede e lança dúvidas sobre tudo o que defendeu anteriormente. Casos poderiam ser mencionados em que movimentos nobres foram destruídos por anos porque um líder perdeu sua honra. A luta constante contra o mal envolve tentações sutis. Ficar sozinho, opor sua própria convicção à maioria, desafiar o que se supõe ser final, desconsiderar os padrões convencionais — isso pode levar a hábitos mentais perigosos. Se pretendemos navegar com muitas velas em ventos fortes, precisamos de mais lastro no porão. Através das finas divisórias de um hotel de verão, um homem ouviu Moody orar a Deus para salvá-lo de Moody. Imagine o que deve ser perder posição e honra entre seus semelhantes por fraqueza secreta. Imagine também a dor pungente se sua desgraça derruba uma causa que você amou por anos e que em dias mais puros você jurou seguir até sua consagração.

Sugestões para Reflexão e Discussão

I. Sofrimento Vicário e Progresso Social

  1. O sofrimento beneficia a humanidade? Tito crucificou milhares de judeus durante a destruição de Jerusalém. A morte deles teve algum efeito salvífico?
  2. Qual é a conexão entre sofrimento vicário e redenção social?

II. Sofrimento Profético

  1. Qual foi o destino dos profetas do Antigo Testamento? Qual foi sua influência na vida de Israel? Em que medida Marcos 12:1-9 é um resumo justo do tratamento dos profetas pela nação hebreia?
  2. Qual é o significado de Isaías 53:4-8? Por que e como os pecados de um grupo podem cair sobre outro?
  3. Onde Jesus viu a continuidade do sofrimento profético em seus próprios tempos?
  4. Que lugar ele deu ao sofrimento vicário na vida de seus seguidores e na conquista do Reino? Como a lei da cruz se conecta com o fato da solidariedade?
  5. Em que aspectos a cruz de Cristo foi única? Em que aspectos ela expressa uma lei espiritual geral?

III. Sofrimento Vicário Hoje

  1. Dê exemplos de pessoas na vida pública hoje cujas carreiras foram destruídas porque atacaram o mal socializado ou a corrupção. Como isso difere do destino dos profetas?
  2. Os sacrifícios de líderes proféticos são às vezes inúteis e realmente ineficazes? Você sente um protesto interior contra isso? Com base em quê?
  3. Em que medida o chamado para ser cristão é um desafio ao sofrimento vicário? Qual seria, então, o significado social do batismo cristão?
  4. Há algo de errado com uma vida cristã que não incorre em sofrimento?
  5. O sofrimento seria normal na vida religiosa dos jovens?
  6. Por que esse princípio social se aplica especialmente a estudantes universitários?

IV. Para Discussão Especial

  1. Que qualidades constituem um homem como profeta?
  2. Existem profetas embrionários? Ou profetas esgotados? Um profeta é necessariamente um santo?
  3. Os profetas surgem onde a religião lida apenas com a vida privada? Qual é o valor social das personalidades proféticas?
  4. Nomeie homens na história secular e na literatura que têm as marcas do profeta. Algum em tempos recentes?
  5. O aprendizado cria visão profética ou a embaça?
  6. A religião corrente hoje conduz alguém ao caminho da cruz ou a uma cadeira de diretor de banco?
  7. Você consegue pensar em algo que traria a cruz de volta à vida das igrejas hoje?
  8. O sofrimento vicário diminuiria se a sociedade se tornasse cristianizada?

Marcos Carvalho Lopes

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