0

Ahmed Baba de Tombuktu e a filosofia medieval

Luís Kandjimbo |*

Escritor

14/11/2021  ÚLTIMA ATUALIZAÇÃO 09H00

© Fotografia por: DR

Por antonomásia, aquilo a que se poderia designar como filosofia medieval, em África, confunde-se com os nomes de Ibn Kaldun, Ahmed Baba, Zara Yacob e seu discípulo Walda Heywat. Já falámos do primeiro. Para a conversa de hoje o tópico organiza-se em torno do conceito periodológico de Idade Média e do pensamento de Ahmad Baba (1556–1627).

Os subsídios sobre a vida e obra de Ahmed Baba podem ser encontrados em publicações de vária natureza. Socorri-me da bibliografia disponível em língua francesa e inglesa que também recomendo aos leitores. Destaca-se a obra do historiador maliano Mahmoud A. Zouber, “Ahmed Baba de Tombouktou (1556-1627), Sa vie et Son oeuvre, Paris, 1977” [Ahmed Baba de Tombuktu (1556-1627). Vida e Obra].


Filosofia medieval africana?

Em obras do filósofo congolês Théophile Obenga e do camaronês Nsame Mbongo encontram-se paráfrases da epígrafe desta secção. Assim, temos, respectivamente, “Escolas filosóficas medievais de Tombuctu” e “Ciclo medieval da filosofia africana”. Pode a periodização histórico-filosófica europeia ser aplicada à compreensão da narrativa sobre a filosofia africana? Só por um critério classificatório contrafactual, pode ser recomendado. Isto é, como se o fenómeno da violência contra os “mouros” e o islão, o surgimento dos mercadores e intelectuais na Europa, tivessem alguma semelhança com a prosperidade do comércio, o uso e a difusão da língua árabe, além do desenvolvimento das universidades do Sudão Ocidental. Quem o diz, por outras palavras, é o historiador guineense Ibrahima Baba Kake (1938-1994), um vulto da História de África, na segunda metade do século XX. Ele faz uso contrafactual do conceito operatório de “Idade Média” a que o historiador francês Jacques Le Goff presta atenção na sua história dos intelectuais europeus do século XIII.

Foi com Ibrahima Baba Kake que consolidei os meus conhecimentos sobre Ahmed Baba, quando li um capítulo do seu livro “Combats pour l’Histoire Africaine” [Combates pela História Africana], dedicado à “civilização da Idade Média africana” com  um texto que aborda a leitura das obras do filósofo grego Aristóteles, no território de “Bilad es-Sudan”, a que o historiador guineense prefere designar por “África Negra Tropical”. Quando o islão se torna uma religião perseguida em Espanha, no século XIII, vivia-se o esplendor dos grandes centros da erudição e sabedoria africanas. Era o triângulo formado nos limites  da encruzilhada do deserto do Sahara com a Universidade de el-Azhar (Cairo, Egipto), Universidade Karauine (Fez, Marrocos), e Universidade de Sankoré (Tombuktu, Mali).

A este propósito, o  historiador português Vitorino Magalhães Godinho, na sua tese de doutoramento, publicada em livro, no princípio da década de 80, demonstra que o comércio transahariano do ouro de que a Europa era um dos destinos, as rotas caravaneiras que ligam as cidades “medievais” da África Ocidental, o Maghrebe e a zona do Mediterrâneo permitem provar que o chamado Sudão Ocidental não estava isolado ou fechado sobre si próprio. Portanto, as dinâmicas sociais, económicas, políticas, científicas e culturais revelam uma realidade particular. A vida intelectual, as universidades, o comércio de papel e de livros distinguiam as cidades mencionadas.


A cidade de Tombuktu

Tombuktu era então uma capital provincial do Reino do Songhay, situada no sul do deserto do Sahara, no curso do rio Níger. Era o tempo em que a chuva e as inundações faziam parte do quotidiano da região.
O cosmopolitismo de Tombuktu devia-se à sua vitalidade  comercial. A ela afluiam estudantes e atraía gente de diversas origens. Além das línguas da região falava-se o amazih e o árabe. Entre os seus habitantes havia famílias do Norte da África ou da Arábia. Apesar da sua escassez, o comércio do livro era uma das principais actividades económicas da cidade. A procura incidia sobre o livro em árabe. As bibliotecas e o conhecimento suportavam o exercíco da  autoridade religiosa.
Os intelectuais de Tombuktu possuíam bibliotecas pessoais que contavam com centenas ou milhares de livros. O ensino era ministrado nas mesquitas. Mas, era mais comum ver os professores transmitirem conhecimentos aos alunos em suas próprias casas, onde tinham as obras de consulta.


Vida e obra de Ahmed Baba

Ahmad Baba nasceu na cidade de Tombuktu em 26 de outubro de 1556 numa família integrada por pessoas dedicadas aos estudos. Ele é o mais representativo dos intelectuais do seu tempo, tendo superado os seus próprios mestres. Era filho do filósofo e jurista Ahmed Ahmed Oumar (1522-1583) e discípulo de Mohammed Bagayogo (1523-1593). Em vida publicou mais de cinquenta livros da sua autoria e possuía uma biblioteca de mais de 1.600 volumes. Uma das mais importantes virtudes cultivadas pelos intelectuais de Tombuktu era o empréstimo de  livros, sem exigência de devolução, cuja recusa era considerado um comportamento inescrupuloso. Era esse o código de conduta de Ahmed Baba e seu mestre Mohammed Bagayogo.

A necessidade de controlar o comércio de sal e do ouro de que Tombuktu era placa giratória, deu origem à invasão marroquina por iniciativa do sultão Mulay Ahmad al-Mansur, em 1591. A ocupação estrangeira encontrou uma resistência intelectual em  Ahmed Baba. O que motivou a sua prisão e o desterro para Marrakesh de 1593 a 1607. Durante quatorze anos, a sua erudição suscitou a maior admiração entre  os intelectuais marroquinos da época. Na sua autobiografia, lê-se o seguinte: “[…] muitos estudiosos vieram até mim e pediam-me para dar palestras públicas. Meu primeiro pensamento foi recusar, mas finalmente me rendi às suas exigências insistentes; portanto, sentei-me na mesquita de Shurfa e iniciei minhas palestras lendo Mukhtasar de Khalıl, que expliquei e comentei, citando os melhores juristas.”

Os estudos sobre a vida e volumosa obra de Ahmed Baba têm permitido que a sua produção seja distribuída por três períodos: 1)  I Período de Tombouktu (1556/1593), tematiza-se o direito, a gramática e a moralidade; 2) Período marroquino (1593/1607), privilegia-se a história biográfica, a teologia e a história 3) II Período de Tombouktu (1608/1627), dedicado à redacção de fatwas, pareceres religiosos.

O exílio foi uma oportunidade para organizar o seu extenso dicionário biográfico de eminentes estudiosos muçulmanos da África Ocidental. O livro revelou-se útil, na medida em que permitiu informar os académicos marroquinos acerca  das obras produzidas nessa região situada ao sul do Sahara. Quando, em 1615, regressou a Tombuktu, Ahmed Baba escreveu um livro através do qual dedicou algum tempo à reflexão sobre a problemática da condição humana, procurando compreender os fundamentos do tráfico de escravizados.

O título do livro é suficientemente expressivo: “A escada de ascensão para compreensão da lei respeitante aos negros escravizados”. Ahmed Baba faz alusão ao problema do tráfico trans-sahariano de escravizados para o norte de África. Para Timothy Cleaveland (2015), com esse livro Ahmed Baba fornece provas sobre as bases ideológicas desse tráfico de seres humanos no início do século XVII, especialmente no que diz respeito às noções de etnia e raça, bem como à lei islâmica. Mas o seu texto ultrapassa a mera interpretação da lei. É no fundo uma perspectiva que mobiliza os habitantes do Norte de África para a mudança de comportamento. Por essa razão, acusou-os de incentivarem o tráfico de escravizados da África Ocidental com base na raça, longe dos fundamentos jurídicos do Islão.

Na sua síntese, Ahmed Baba, assume o seguinte ponto de vista: “Que Deus nos guie no caminho certo. É certo que entre os habitantes dos países que professam o Islão, também existem os que são descrentes, alguns dos quais aceitaram a protecção dos muçulmanos e lhes prestam homenagem. É claro que é difícil distinguir os muçulmanos daqueles que não o são; os primeiros cumprem a obrigação da oração, os outros não, isso é tudo. Daí, grande incerteza, e aqueles que arrancam esses infelizes em suas casas, não sabem nada de sua situação jurídica”.

Nesta matéria, a sua posição é ambígua, embora  não pareça condenar a condição de escravizado, ataca a violência, a ofensa à consciência moral e o desprezo da dignidade humana. Um dos seus mais importantes livros de filosofia tematiza a política. Tem como título “Jalb al-nima” (Sobre a Boa Governação). Procura, tal como  escreve, “advertir os  meus compatriotas e meus pares contra a associação que pode estabelecer com governantes opressores (alwulat alzalama).”

Ahmed Baba aborda o problema da relação entre o poder e o saber. Interroga-se acerca da possibilidade de uma “profunda cisão e à separação irremediável” entre poder e conhecimento. Em seu entender, a demonstração disso reside nos perigos que correm aqueles académicos que se contentam em desempenhar o papel de simples cortesãos. Ahmed Baba refere-se àqueles que têm a ambição de produzir pensamento teórico sobre as políticas do Estado e acabam por identificar os seus interesses com os dos príncipes e reis.
Os estudos da obra de Ahmed Baba conduzem à síntese do seu pensamento cujo cerne consiste em desvendar a contradição entre conhecimento e poder. Por outro lado, avalia a possibilidade  de a vaidade e a ambição política representarem encantos perversos do abuso de poder.

Ahmed Baba conclui o seu pensamento, afirmando que, no que ele escreve, há “provas suficientes para convencer os sábios e todos aqueles que se preocupam com a salvação de suas almas e desejam escapar do perigo, para evitar aproximação a governantes opressores.” Portanto, com a leitura da obra de Ahmed Baba a que, infelizmente, só podemos ter acesso em língua francesa e inglesa, percebe-se que os problemas que dizem respeito à condição humana são perenes e, ao mesmo tempo, históricos.  

 * Ensaísta e professor
universitário

Link: https://www.jornaldeangola.ao/ao/noticias/ahmed-baba-de-tombuktu-e-a-filosofia-medieval/

Marcos Carvalho Lopes

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *